Pedro
havia negado Jesus três vezes...
No
entanto, para Jesus, a questão daquela manhã de sol nascente das alturas na
quieta praia de Tiberíades era apenas uma: “Tu me amas?”
Até
na hora de lidar com a negação e com a traição, Jesus é completamente diferente
de tudo e todos, e completamente coerente com Seu próprio Ser-Ensino.
O
Verbo se fez carne, por isso o Ser-Ensino de Jesus são um.
O
que diriam as nossas lógicas de amor?
“Se
ele amasse, jamais teria feito o que fez”—e, assim, se atribui impecabilidade
ao amor humano.
“Ama,
mas não tem raízes em si mesmo”—diria a sofisticação psicológica.
“É
egoísta demais para amar”—diria uma voz moral piedosa e certa.
“É
cedo demais para perdoar você. O que fazes aqui entre os outros?”—diria o
Mestre das Disciplinas.
“Nunca
mais será a mesma coisa. Como poderei confiar em você outras vez?”—diria a
razão mais humana e ressentida.
“Pode
ser que ainda dê, um dia... quem sabe? Mas você terá que fazer um longo caminho
de volta!”—diria um piedoso e quase esperançoso pastor de almas.
“Já
que você insiste, verei do que você é feito. Colocarei um diretor espiritual
para supervisionar você”—diria um ser crente na fabricação de caráter e de
fidelidade.
“Sinto
muito, Pedro, mas já não é possível. Você jogou fora a sua chance, embora eu o
tenha advertido várias vezes”—diria a razão fria e justa.
“Você
está perdoado, sem ressentimentos, vá em paz; pois não há mais clima para a
gente prosseguir”—diria o melhor do homens.
“Logo
você, em quem tanto confiei! Como pode fazer isso? Explique-me suas
razões”—diria o bondoso justo.
“Meu
Deus! E pensar que amei tanto você. Eu sou um santo idiota mesmo!”—diria um
Deus com alma de esposa ou de marido.
No
entanto, Jesus apenas pergunta: “Tu me amas?”
E
com isso Ele admite que o amor peca, trai, nega, se engana, enfraquece, pode
ser egoísta, é capaz do impensável, é passível de repetir o mesmo erro, não
apenas três vezes, mas até setenta vezes sete.
Jesus
não estava buscando perfeição, mas apenas um amor que pudesse ser aperfeiçoado
no próprio amor... no Caminho.
“Tu
me amas?”—pergunta Ele três vezes.
Ao
que Pedro responde, dizendo, humilhadamente, um “sim” cheio de vergonha, e até
se sentindo um sem caráter por ainda ter a coragem de confessar amor tendo
negado.
Pedro
diz “sim, sim, sim”... mas não o faz sem a angústia de quem não quer ser visto
como cínico!
Pedro
ama. Ama com amor que é dele, com o amor que lutava para ser amor no chão raso
de sua alma. Mas era amor, e isso ele não podia negar. Ele admitia que negara
Jesus, só não podia admitir que não amava Jesus.
Jesus
sabe que às vezes se ama apesar de...
Jesus
sabe que o único amor que ama sem nenhum apesar de... é o Seu próprio amor, de
mais ninguém.
Jesus
ama os nossos amores, apesar de... Pois Ele sabe que quem não ama apesar de...
esse deve se oferecer para ser o Salvador dos homens.
“Tu
me amas?”
Pedro
não tem mais o que dizer. Provar amor? Meu Deus! Levaria o resto de sua vida, e
teria que demonstrar isso não apenas com ações, nem com palavras apenas, e, se
fosse o caso, deveria provar tal amor com dores de alma até a morte.
Pedro
não tem meios de provar nada. Não tem o poder de reverter quadros e nem de
apagar memórias. E também não suportaria ficar gemendo o resto da vida num
canto de sua casa a fim de provar a Jesus que o amava apesar de...
Provar
que se ama pode ser o inferno!
Pedro
está perdido. Quem o ajudará? Quem testemunhará em seu favor? Quem terá
garantias a oferecer em seu nome? Quem seria o fiador de seu fracassado amor?
A
esperança de Pedro quanto a provar a Jesus que ele O amava era o próprio Jesus.
“Senhor,
tu sabes todas as coisas... e se as sabes, certamente tu sabes que eu te amo!”
Assim,
Pedro não tem argumentos, nem explicações, nem mesmo se oferece para padecer
como prova eterna de seu amor ...no inferno do amor...
Pedro
não quer o inferno do amor... ele quer ser salvo do inferno de sua alma pelo
amor... e só Jesus poderia fazer isso, pois somente Jesus sabia o que existia
no coração dele.
Assim,
ele está tão certo de sua total incapacidade de vencer os fatos esmagadores com
argumentos ou mesmo com penitências, que ele apenas recorre a uma certeza:
Jesus conhece meu coração!
“Senhor,
tu sabes todas as coisas; tu sabes que eu te amo!”
Chega
uma hora quando todos os argumentos cessam, quando não há explicações a serem
dadas, quando toda fala é cinismo, quando todo gesto parece compensatório e
auto-justificatório, e quando toda e qualquer promessa de fidelidade e lealdade
apenas cerram sobre a alma a porta da masmorra das infindáveis penitências.
Pedro
amava, mas não queria que seu amor fosse sepultado vivo na morte!
A
resposta de Jesus é de confiança!
Sim,
Ele sabe que Pedro o ama apesar de Pedro, de seu egoísmo, de sua vacilação, de
sua pusilanimidade, de seus ímpetos inconseqüentes, de suas coragens pouco
resistentes, de seus vícios de fuga...
“Pastoreia
as minhas ovelhas... os meus cordeirinhos... esse povo que me ama como tu...
que ama e que trai... Tu, que agora sabes quem és, pastoreia nesse amor esses que
são como tu mesmo”.
E
conclui: “Agora, vem, e segue-me...”
Jesus
não bota o amor de castigo, parado no ponto e na esquina da negação, frizado na
vitrine do espetáculo da fraqueza, preso para sempre aos seus próprios pecados.
Jesus
sabe que a cura para a traição e a fraqueza só acontece no caminho, enquanto se
O segue, e no chão da vida, onde o amor terá a chance de ser amor, e não
negação.
Trai-se
na vida. Ama-se na Vida. Nega-se na vida. Se é curado na Vida. Somente na vida o
que é, é; e pode se manifestar!
Sem
que seja assim o que resta é deixar Pedro em Tiberíades para sempre, envolto
nas malhas de suas angústias, pescando os peixes que fogem dele, existindo numa
seqüência de dias que já lhe são o próprio inferno.
Nossa
salvação é uma só: O Senhor sabe todas as coisas, e quem sabe que ama apesar
de... não tem outra chance se não confiar no que Jesus sabe em nós e acerca de
nós, pois se o que há em nós é verdade, Ele em nós aproveitará toda verdade de
amor para o nosso próprio bem.
Confie. Ele conhece você!
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