Por: Cora Ronái
A Bíblia que eu encomendei chegou. É exatamente como eu
queria: uma Bíblia com cara de Bíblia, com as dimensões de um livro normal e
uma capa macia, perfeita para o manuseio. É tão bonita que chamou a atenção do
meu neto, que tem 15 anos, e que está acostumado a ver livros de todos os tipos
e feitios aqui em casa: ele ficou impressionado com o capricho da capa de
couro, com os cantos arredondados e com o dourado suntuoso do corte. Eu também
fiquei, mas reparei sobretudo na fonte, misericordiosamente grande. Ótima
compra, portanto.
Ela é uma ACF, Almeida Corrigida Fiel, e conserva a
solenidade (e os arcaísmos) da tradução original. Há muitas variantes,
inclusive versões atualizadas, onde um “Tu o dizes” acaba virando “Quem está
dizendo isso é o senhor!”. Pode isso?
Tentando me entender entre as diversas abreviaturas, acabei
me interessando pelo Almeida que aparece em tantas delas, e descobri uma
personagem extraordinária. João Ferreira Annes d’Almeida nasceu em 1628, perdeu
os pais cedo e foi educado por padres em Lisboa. Ainda muito jovem foi
despachado para as Índias Orientais, para o que hoje chamamos Indonésia, mas
era, então, um arquipélago dividido em centenas de sultanatos, reinos e
fortalezas, disputado ilha a ilha por holandeses e portugueses.
Temos notícias dele em Jacarta (então Batávia), uma cidade
efervescente com o comércio de especiarias e as intrigas coloniais. Lá ele
entrou em contato com o protestantismo e rompeu com a Igreja, gesto ousado para
um súdito de reino católico. Mas não só isso: com apenas 14 anos, decidiu
traduzir a Bíblia para o português, convencido de que mesmo os seus
conterrâneos mais humildes tinham o direito de compreender as Escrituras sem
passar pelo latim dos padres.
Imagino aquele adolescente — mais novo do que o meu neto! —
imbuído de uma missão dessas dimensões. Enquanto os outros meninos se jogavam
na vida tumultuada à sua volta, ele se inclinava sobre textos em latim e grego,
munido de pena e tinta, um ou outro dicionário holandês e uma lamparina
bruxuleante em cima da mesa. Sem ar-condicionado ou repelente de insetos; sem
Google, sem app de idiomas, sem uma gramática decente. Subversivo até o talo.
Esse garoto obstinado não é uma imagem que eu associasse à
Bíblia. Até a semana passada, teria apostado num grupo de velhos frades
trabalhando juntos, discutindo vírgulas madrugada adentro.
Na Batávia do século XVII apenas manter-se vivo já era um
feito. As Índias Orientais não eram só um caldeirão político e religioso, eram
também um festival de doenças tropicais, que dizimavam colonizadores aos
milhares. Os mosquitos matavam mais do que as batalhas.
Nosso Almeida, porém, conseguiu sobreviver. Foi ordenado
pastor aos 28 anos, passou pelo Ceilão e pela costa da Índia, navegou por mares
infestados de piratas e atravessou cidades portuárias ruidosas, onde as vozes
de mercadores árabes, chineses e javaneses se misturavam ao som das sinetas
cristãs e aos chamados das mesquitas. Enfrentou epidemias, controvérsias
teológicas, um ataque de elefante e até um julgamento por heresia em Goa: foi
condenado à fogueira em praça pública, mas escapou graças à proteção dos
holandeses, que o tiraram de lá a tempo.
Em 1681, após anos de revisões e percalços, seu Novo
Testamento foi impresso em Amsterdã. Almeida não se deu por satisfeito.
Lançou-se ao Antigo Testamento com a mesma determinação, mas não teve tempo de
concluir a tarefa. Morreu em Batávia em 1691, aos 63 anos. Combateu o bom
combate, guardou a fé.



