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14/03/2017

O tanque



 

Em Jerusalém havia um chafariz que ficava próximo de uma feira de animais. Como sempre foi uma cidade bem mística alguém começou a dizer que as águas desta fonte eram miraculosas. Rapidamente, a notícia ganhou dimensões extraordinárias e espalhafatosas; no mercado, dizia-se que um anjo vinha do céu uma vez por ano, movia as águas e o primeiro doente que mergulhasse, seria curado.


Multidões se formaram, todos aguardando um milagre. A administração municipal de Jerusalém, interessada na romaria, mas também por razões humanitárias, resolveu construir um pavilhão para abrigar tanto enfermo. Edificaram um prédio imponente, com um alpendre de cinco pavimentos, que se lotava de paralíticos, cegos e doentes de toda a espécie. Devido a essa enorme expectativa, sempre adiada, de que uma pessoa (só uma) seria brindada com um milagre, o lugar foi denominado, ironicamente, de Betesda – que significa “casa de misericórdia”.

27/09/2016

Breve guia de sobrevivência religiosa


Suspeite de quem consegue exibir ares de piedade. Quanto mais afetada uma espiritualidade, maiores chances de ser falsa. Alguns aprendem a arquear as sobrancelhas para baixo como jeito de expressar elevada pureza; esses são perigosíssimos. Prefira os mais soltos, os menos requintados, os pouco cientes de suas virtudes. Gente desarmada é melhor companhia que circunspectos sisudos; eles se arrastam pela vida com chumbo nos pés, e puxam para baixo todos os que se aproximam deles.

Evite sentar na roda de quem exige exatidão semântica até na hora da conversa fiada. Nada mais intolerável do que conviver com quem adora corrigir as virgulas. Se alguém diz, vou à igreja, ele dispara: “a igreja somos nós, não um prédio”. Se confessa, ando desanimado, ele engatilha um versículo: “mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças”. Chatos religiosos são os piores.

22/09/2015

A agonia do refugiado


O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, com o apoio do inglês Tony Blair, ordenou que tropas da “coalizão” invadissem o Iraque. O dia  19 de março de 2003 ficará na história com uma nódoa. Dia nefasto. Os primeiros mísseis devastaram Bagdá e o mundo embiocou para pior. De lá para cá, miséria, ódio, violência, intolerância religiosa recrudesceram em toda a região. Hoje, só não escrevo um texto com um, “eu não disse?”, porque seria redundante.

Bush e Blair insistiram em afirmar que Saddam Hussein estocava armas de destruição em massa. Mentira. Os conselheiros do Pentágono não tremiam um músculo do rosto ao dizerem que Saddam era um novo Hitler. Depois que o país, onde um dia foi a Mesopotâmia, foi reduzido a escombros, pipocaram aqui e ali denúncias de que tudo não passava de embuste.
Não havia nenhum fundamento a suspeita de que o Iraque fosse santuário para a Al-Qaeda. Bastaram alguns meses de ocupação e evidenciou-se que a “doutrina Bush” era tosca, atrapalhada, mal planejada, violenta, interesseira e vil.

Milhões de pessoas marcharam pelas grandes cidades pedindo que não bombardeassem, não invadissem um país já empobrecido por um ditador.  A Onu negou o seu aval. O Papa advertiu sobre os horrores de um possível massacre. Até eu protestei. Não adiantou. Bush estava assessorado pela pior laia. Ele se considerava eleito para uma missão divina; imaginava-se escolhido de deus (assim, minúsculo) para exportar uma democracia Made in USA. Acreditou ser possível trazer paz na ponta de uma baioneta. Sua política externa, assimétrica, demagógica e hipócrita não tinha a menor chance de dar certo. Sobrava hipocrisia. Ficou claro que a força bélica americana agiria preventivamente, mas só em regiões que interessassem ao grande capital. Outros ditadores, piores que Saddam, permaneceriam em seus postos. Bush fez vista grossa para outras regiões que violavam direitos humanos, produzindo pobreza. Ditadores sanguinários, desde que fossem aliados aos interesses do Império, podiam continuar administrando a fortuna da família.

O Oriente Médio virou um inferno. Osama Bin Laden não sobreviveu, mas a geração de extremistas que o sucedeu mostrou-se mais violenta. O tênue equilíbrio que mantinha alguma convivência entre etnias, grupos religiosos e culturas, esboroou. Xiitas e sunitas se enfrentam, como nunca, em conflitos fratricidas. A frágil comunidade de cristãos, espalhada na Síria e no Iraque, foi praticamente dizimada. O mundo acordou para um pesadelo com fotografias de crianças, homens, mulheres e idosos desembarcando – ou mortos – em praias da Europa; todos fugindo com a roupa do corpo. Sem alternativa, jogam-se rumo ao desconhecido. Alguns chocam o mundo quando aparecem, remando com as mãos, em barcos à deriva.  O Mediterrâneo, as estações de trem e os novos campos de concentração revelam o quanto de desgraça aquela invasão ainda custará à humanidade.

Poucos sabem que grandes segmentos evangélicos apoiaram, abençoaram e incentivaram a tresloucada aventura do Bush. Segmentos evangélicos mais alinhados com o conservadorismo, os moralistas, deram suporte espiritual ao presidente. “Afinal de contas, ele diz orar antes de tomar decisões”. Pastores deram entrevista à CNN nas vésperas da invasão. Colocaram-se a favor dos atos do sinistro Bush. Os três têm as mãos sujas de sangue inocente. Convém não esquecer o nome dos entrevistados: Max Lucado, John McArthur e Bob Jones.

A Bíblia adverte que um líder espiritual passa por mais severo juízo. Mesmo com tão dura advertência, não se ouviu qualquer mea culpa da parte deles. E mesmo que um dia expressassem genuíno arrependimento, não conseguiriam devolver os braços e as pernas do menino que também perdeu a família. Nenhuma lágrima apagaria os abusos de Abugraib. Reunião de oração, pedindo misericórdia divina para o Oriente Médio, não tem como devolver a vida de 4.000 soldados americanos e 90.000 civis iraquianos. A caixa de Pandora foi aberta. Agora o ISIS – esse sim – ameaça, sem freios, com a criação de um califado.

A médio prazo parece quase impossível sair desse labirinto. Enquanto interesses geopolíticos se misturam, Irã, Rússia, Israel, Jordânia, Líbano, Turquia e Curdos tentam demarcar território. O influxo de refugiados não deve cessar. Mesmo que igrejas, mesquitas e agências humanitárias se revezem tentando mitigar o sofrimento, serão um pingo d’água em um oceano de desespero. Quem se vê em meio a bombas – algumas proibidas – como de gás e de fragmentação, procurarão sempre fugir. Países como Arábia Saudita, Qatar e Kuwaiti precisam entender a responsabilidade de mediarem a tensões regionais. Não adianta continuar sentados em uma montanha de petrodólares enquanto a morte, o terrorismo e a violência os cerca.

A nós, que herdamos essa realidade cruel, resta-nos cuidar, abrigar e oferecer uma nova chance aos que conseguem sobreviver. Ressurreição e recomeço, aplicados à nova realidade do mundo, deixam de ser termos piedosos, para se tornarem, agora, uma atitude humana.
Soli Deo Gloria



22/07/2015

No country for old men



O título para este texto está em inglês de propósito. Pretendo comentar o filme produzido pelos irmãos Cohen, “Onde os fracos não têm vez” – ganhador do Oscar de 2008. Como não gostei da tradução que deram aqui no Brasil, grafei o título original; na minha opinião, mais apropriado para descrever a trama.

Antes, uma confissão: não apreciei o filme logo que o vi. Saí do cinema com a sensação de que tinha assistido à mais uma apologia de violência. O enredo me pareceu semelhante a tantas outras produções hollywoodianas: exagerado nas cenas explícitas de morte e vingança. Porém, com o passar do tempo, quanto mais meditei, mais percebi a força da metáfora.

O enredo se desenrola sem muitas nuanças. Um acerto de contas entre traficantes, em algum lugar perdido do Texas, provoca uma chacina. Todos os envolvidos morrem. Sobrou uma mala de dólares. Começa, então, uma peleja entre gatos e ratos. Polícia, traficantes, mexicanos e gringos, se engalfinham pelo butim. Um xerife, prestes a se aposentar, portanto, um “old man”, se vê obrigado a trabalhar no caso. Sua fadiga é notória. Falta-lhe pique. A maldade lhe arrasa – é avassaladora. O xerife Ed Tom Bell – Tommy Lee Jones – deixa claro: os longos anos de combate ao crime o amarguraram. Seu desabafo, em determinado momento, revela a dimensão do estrago: “Eu sempre achei que quando ficasse velho, Deus entraria em minha vida de alguma forma. Mas ele não o fez. Eu não o culpo. Se fosse ele, eu teria a mesma opinião sobre mim mesmo”.

26/05/2014

Entre o pesadelo e a realidade


Não raro, tenho pesadelo. Numa noite qualquer, senti uma botina, sem pé ou perna, apertando meu pescoço. Por mais que tentasse gritar, não consegui expulsar o demônio invisível, desencarnado, que me oprimia sem palavra alguma. Meses depois, sonhei prestes a falar diante de um grande auditório e de repente me deu um branco. Por mais que tentasse achar o esboço da palestra, continuava perdido. Acordei sereno dos dois pesadelos, todavia. Já tive tantos sonhos ruins que eles perderam a força de meter medo.

25/03/2014

Quase fui assassinado


O sol pinicava o cocuruto da minha cabeça despenada de cabelos. A brisa soprava de leste a oeste. O corpo sentia os efeitos de duas noites mal dormidas. A alma se angustiava com a morte sofrida da Guió, minha querida sogra. Acrescento os detalhes para que eles componham o cenário de meu quase assassinato.

Não passava das oito horas da manhã. Eu estava em pé na calçada dos fundos do hospital Gênesis, em Fortaleza. Um pouco à frente, o carro da funerária. Aguardava minha mulher, a Geruza. Ela cumpria uma dificílima tarefa: aprovar o trabalho dos que preparavam o corpo da mãe.

22/03/2014

O farisaísmo que persiste


Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês dão o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas têm negligenciado os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vocês devem praticar estas coisas, sem omitir aquelas. Guias de cegos! Vocês coam um mosquito e engolem um camelo.
Mateus 23.23

07/03/2014

Irmãos unidos pela dor


Carrego uma sucessão de “cs” e com eles, uma miríade de preconceitos: cearense, canhoto, corinthiano e careca. A ordem dos “cs” obedece uma importante cronologia. Na infância, notei que outros canhotos iguais a mim também eram tratados como portadores de deficiência. Depois, anos mais tarde, me mudei para São Paulo e descobri que muitos sulistas têm reservas contra nordestino. Mesmo em tom de brincadeira, ouvi expressões baixas para descrevê-los. Baiano é preguiçoso. Paraíbano é burro. Nem preciso falar dos corinthianos: gambá, maloqueiro, bandido. A inferência não repousa na provocação entre os torcedores, mas na necessidade de tornar o pobre malcheiroso ou igualar o maloqueiro a bandido. Por último, crescentemente careca, amargo comentários jocosos – e bobos – sobre calvos.

24/01/2014

Integridade não religiosa


Desde a adolescência, organizei a vida a partir de valores da religião. Frequentei e lecionei na escola dominical. Militei em grupos jovens. Me preparei para o exercício pastoral em um seminário. Caminhei pelos bastidores do mundo religioso. Sentei na roda de alguns notórios líderes brasileiros e ianques.

Zeloso, sempre procurei cumprir com as exigências das instituições que participei. Se a igreja não permitia que mulheres cortassem o cabelo, briguei com a minha mulher. Se diziam ser pecado ir ao cinema, para evitar a aparência do mal e mesmo não concordando com a proibição, eu viajava para longe quando queria ver algum filme.

Relevei disparates. Calei diante de incoerências. Dei as costas para hipocrisia. Eu considerava a causa de Cristo importante demais. Para não escandalizar, fiz vista grossa para muita ruindade.

14/01/2014

Os anti-heróis que somos todos nós


Há alguns anos, Lance Morrow escreveu na revista “Time” que “ser famoso é, entre as ambições humanas, a mais universal. Quem, a não ser monges e freiras, se contenta com a simples atenção de Deus? Quem busca ser obscuro na vida? Em nossa sociedade, ser obscuro é ser fracassado”.

Realmente, o mundo está lotado de gente correndo pelos primeiros lugares. Já se disse que quem chega em segundo não é vice, apenas o primeiro entre os perdedores. Somos seduzidos pelas luzes e holofotes feito mariposas. O Ocidente alimenta o sonho do heroísmo; a modernidade, calcada na ideia do progresso, acena que a felicidade depende de conquista; e a espiritualidade, que se difundiu no hemisfério europeizado, sacraliza o ufanismo.

18/12/2013

Notas biográficas sobre espiritualidade


No início de 1990, fui incluído na organização da Aliança Evangélica Brasileira (AEVB). As reuniões aconteceram em Teresópolis. O encontro objetivava esboçar o perfil da instituição que representaria um segmento dos evangélicos. Confesso não lembrar nada do planejamento. Apenas os momentos de oração me marcaram. As devocionais lideradas pelo Osmar Ludovico ficaram comigo. Nos três dias do encontro, por cerca de uma hora, Osmar nos falou e conduziu em exercícios de oração contemplativa. Também nos dedicamos à Lectio Divina – uma leitura meditativa da Bíblia. A reunião administrativa minguou aos meus olhos. Os bons momentos em meditação permaneceram.