Em ambiente triste, uma pobre aldeia de pescadores no litoral da Dinamarca, uma localidade de ruas lamacentas e cabanas cobertas de palha - um ministro da Palavra de Deus, já idoso e de barbas brancas - liderava um grupo de crentes de uma austera igreja luterana.
Todos usavam roupas pretas e os poucos prazeres mundanos eram condenados.
Sua alimentação consistia
em bacalhau cozido e uma papa feita de pão escaldado em água enriquecida com um
borrifo de cerveja.
Aos sábados, o grupo se reunia
e cantava hinos a respeito da Nova Jerusalém, verdadeiro lar, indicando que a
vida na terra era apenas tolerada como um meio de chegar lá.
O velho pastor, um viúvo,
tinha duas filhas adolescentes: Martine, chamada assim por causa de Martinho
Lutero, e Philippa, por causa do discípulo de Lutero, Philip Melanchton.
Os habitantes da vila
costumavam ir à igreja apenas para se deliciar com a presença das duas, cuja
radiante beleza não podia ser ocultada, por mais que elas se esforçassem nesse
sentido.
Martine captou os olhares
de um jovem e arrojado oficial da cavalaria.
Quando ela, obstinadamente,
resistiu às suas investidas — afinal, quem cuidaria de seu velho pai? — ele foi
embora para se casar com uma dama de companhia da rainha Sofia.
Philippa, além de bela,
possuía a voz de um rouxinol.
Quando ela cantava a
respeito de Jerusalém, visões reluzentes da cidade celestial pareciam surgir.
E aconteceu que Philippa
conheceu o mais famoso cantor de ópera daquele tempo, o francês Achille Papin,
que estava passando uns dias no litoral por causa da saúde.
Certo dia, durante uma de
suas caminhadas matinais ouviu, para sua grande admiração, uma voz digna da
Grand Opera de Paris.
"Deixe-me ensiná-la a
cantar de maneira certa", ele insistiu com Philippa, "e toda a França
vai cair a seus pés. A realeza vai fazer fila para conhecê-la, e você vai andar
de carruagem puxada por cavalos para jantar no magnífico Café Anglais ".
Lisonjeada, Philippa
consentiu em tomar algumas lições, mas apenas algumas.
Cantar a respeito do amor a
deixava muito agitada e, culminou quando, ao som de uma ária de Don Giovani,
Achille Papin a enlaçou em seus braços, roçando-lhe os lábios nos seus;foi
então que ela angustiou-se com a certeza de que estes novos prazeres precisavam
ser abandonados.
Seu pai escreveu um bilhete
dispensando o jovem de todas as futuras lições, voltando este a Paris, com
muita tristeza na alma.
Passaram-se quinze anos, e
muita coisa mudou na vila.
As duas irmãs, então
solteironas de meia-idade, tentaram continuar com a missão do falecido pai,
mas, sem a sua séria liderança, a igreja decaiu.
Um irmão tinha queixas de
outro por causa de algum negócio.
Espalharam-se boatos de que
havia um caso de sexo ilícito há trinta e dois anos envolvendo
duas pessoas da comunidade. Duas velhas senhoras não se falavam há
uma década.
Embora a igreja ainda se
reunisse aos domingos e cantasse velhos hinos, apenas um punhado de pessoas se
davam ao trabalho de ir, e a música havia perdido o seu entusiasmo.
Apesar de todos esses
problemas, as duas filhas do ministro continuaram fiéis,
organizando os cultos e escaldando pão para os anciãos desdentados da vila.
Uma noite, chuvosa demais para que alguém se aventurasse
pelas ruas lamacentas, as irmãs ouviram fortes batidas na porta.
Quando a abriram, uma
mulher caiu desmaiada. Elas a reanimaram e descobriram que ela não falava
dinamarquês. Ela lhes entregou uma carta de Achille Papin.
Ao ver aquele nome,
Philippa enrubesceu, e sua mão tremia enquanto ela lia a carta de recomendação.
Seu nome era Babette.
"Babette sabe
cozinhar", dizia a carta.
Ela havia perdido o marido
e filho durante a guerra civil na França. Com a vida em perigo, tivera de fugir
e Papin lhe arranjara uma passagem em um navio com esperança de que essa aldeia
lhe demonstrasse misericórdia.
As irmãs nunca tiveram uma
empregada nem tinham dinheiro para pagar Babette .
Além do mais, desconfiaram
de sua arte — os franceses não comiam cavalos e rãs?
Mas, por meio de gestos
e súplicas, Babette amoleceu o coração delas.
Ela poderia fazer alguns
serviços em troca de quarto e comida.
E assim, durante os doze
anos seguintes Babette trabalhou para as irmãs.
A primeira vez que Martine
mostrou-lhe como cortar um bacalhau e cozinhar a papa, as sobrancelhas de
Babette se elevaram e o seu nariz enrugou um pouco, mas nunca questionou suas
tarefas. Ela alimentava os pobres na cidade e assumiu todas as
tarefas domésticas.
Até ajudava nos cultos de
domingo.
Todos concordavam que
Babette trouxe nova vida à estagnada comunidade.
Como Babette nunca se
referia ao seu passado na França, foi uma grande surpresa para Martine e
Philippa quando, um dia, depois de doze anos, ela recebeu a primeira
carta.
Babette a leu, viu as irmãs
de olhos arregalados e anunciou de maneira natural que uma coisa
maravilhosa lhe havia acontecido.
Todos os anos um amigo em
Paris renovava o número de Babette na loteria francesa. Nesse ano, o seu
bilhete fora premiado. Dez mil francos!
As irmãs apertaram a mão de
Babette, parabenizando-a, mas lá no fundo seus corações desfaleceram. Sabiam
que logo ela iria embora.
A sorte grande de Babette
na loteria coincidiu com o momento em que as irmãs estavam discutindo sobre a celebração
de uma festa em homenagem ao centenário do nascimento de seu pai.
Então, considerando que em
doze anos nunca lhes pedira nenhum favor, Babete lhes fez um pedido.
-“Quero cozinhar uma
verdadeira refeição francesa para a comemoração de aniversário"
As irmãs tiveram que
concordar embora tivessem sérias dúvidas a respeito do plano de Babette.
Quando o dinheiro chegou da
França, Babette fez uma rápida viagem para providenciar os arranjos para o
jantar. Nas semanas que se seguiram à sua volta, os habitantes daquela pequena
vila foram surpreendidos com a visão de vários barcos ancorados descarregando
provisões para a cozinha de Babette. Trabalhadores empurravam carrinhos de mão
cheios de gaiolas com pequenas aves. Caixas de champanhe — champagne! — e vinho
logo se seguiram.
A cabeça inteira de uma
vaca, vegetais frescos, trufas, faisões, presunto, estranhas criaturas que
viviam no mar, uma imensa tartaruga ainda viva mexendo a cabeça como a de uma
cobra de um lado para o outro — tudo isso acabava na cozinha das irmãs agora
firmemente dirigida por Babette.
Martine e Philippa,
alarmadas com os preparativos que mais pareciam de bruxa,
explicavam a embaraçosa situação aos membros da igreja, agora apenas
onze pessoas, velhas e grisalhas e como todos manifestavam simpatia por elas,
acabaram concordando em comer a refeição francesa, fazendo o pacto de silenciar-se para
não constranger a cozinheira com sua culinária exótica.
As irmãs ficaram
satisfeitas ao saber que um hóspede inesperado se juntaria a elas: a senhora
Loewenhielm, de noventa anos de idade, acompanhada de seu sobrinho, o oficial
de cavalaria que havia cortejado Martine tempos atrás, e agora era general no
palácio real.
Babette havia conseguido
louças e cristais, e havia enfeitado o recinto com velas e coníferas deixando a
mesa bastante ornamentada.
Quando a refeição começou os
habitantes da aldeia se serviam mudos, lembrando-se do pacto.
Apenas o general comentou a
comida e a bebida. "Amontillado!", ele exclamou
quando levantou o primeiro copo. "É o mais fino Amontillado que já
provei."
Quando experimentou a
primeira colherada de sopa, o general poderia jurar que era sopa de tartaruga,
mas como se acharia tal coisa no litoral da Jutlândia?
"Incrível!", disse o general quando experimentou o próximo
prato. "É Blinis Demidoff!"
Todos os outros convidados,
com faces franzidas por profundas rugas, estavam comendo as mesmas delicadezas
raras sem nenhuma expressão ou comentário.
Quando o general
entusiasmado elogiou o champanhe, um Veuve Cliquot 1860, Babette
ordenou ao seu ajudante de cozinha para manter o copo do general cheio o tempo
todo. Apenas ele parecia apreciar o que estava diante dele.
Embora ninguém mais falasse
a respeito da comida ou da bebida, gradualmente o banquete operou um
efeito mágico sobre os habitantes da aldeia.
O seu sangue esquentou.
Suas línguas se soltaram. E eles falaram dos velhos dias quando o pastor estava
vivo e do Natal em que a baía congelou.
O irmão que havia enganado
o outro nos negócios finalmente confessou, e as duas mulheres que tinham uma
rixa acabaram conversando.
Uma mulher arrotou, e o
irmão ao seu lado disse sem pensar: "Aleluia!".
O general, entretanto, não
conseguia falar de nada além da comida.
Quando o ajudante da
cozinha trouxe o coup de grâce, codornizes preparadas em
Sarcophage, o general exclamou que vira tal prato apenas em um lugar na Europa,
no famoso Café Anglais em Paris, o restaurante que já fora célebre por ter uma
mulher como chefe-de-cozinha.
Cheio de vinho, o apetite
satisfeito, incapaz de se conter, o general levantou-se para fazer um discurso,
assim iniciando:
"A misericórdia e a
verdade, meus amigos, se encontraram".
"A justiça e a
bem-aventurança se beijaram."
Embora os irmãos e as irmãs
da igreja não compreendessem totalmente o discurso do general, naquele momento
"as vãs ilusões desta terra se dissolveram diante de seus
olhos como fumaça, e eles viram o universo como ele realmente era".
O pequeno grupo se desfez e
saiu para uma cidade coberta de neve brilhante sob um céu recoberto de
estrelas.
A "Festa de
Babette" termina com duas cenas.
Lá fora, os velhos se
dão as mãos ao redor da fonte e cantam entusiasmados os velhos hinos
da fé.
É uma cena de comunhão:
a festa de Babette abriu o portão e a graça entrou silenciosamente.
Eles sentiram, acrescenta a
autora, "como se realmente tivessem os seus pecados lavados e
tornados brancos como a lã, e nessas vestes inocentes recuperadas faziam
brincadeiras como cordeirinhos travessos".
A cena final acontece lá
dentro, na bagunça de uma cozinha cheia até o teto de louça para lavar, panelas
engorduradas, conchas, carapaças, ossos cartilaginosos, engradados quebrados,
cascas de vegetais e garrafas vazias. Babette senta-se no meio da bagunça,
parecendo tão desgastada quanto na noite em que chegara doze anos antes.
Subitamente, as irmãs percebem que, de acordo com o seu voto, ninguém havia
falado com Babette a respeito do jantar.
— Foi um jantar e tanto,
Babette — Martine diz para começar. Babette parece distante. Depois de um
minuto ela responde: — Eu era a cozinheira do Café Anglais.
—Todos nós vamos nos
lembrar desta noite quando você tiver voltado para Paris, Babette — Martine
acrescenta, como se não a tivesse ouvido.
Babette lhes diz que não
vai voltar para Paris. Todos os seus amigos e parentes ali foram mortos ou
feitos prisioneiros. E, naturalmente, seria muito caro voltar para Paris.
— Mas e os dez mil francos?
— as irmãs perguntam.
Então Babette deixa cair a
bomba. Ela havia gasto tudo, cada franco dos dez mil que ganhara,
na comida que haviam acabado de devorar. — Não se assustem — ela lhes diz. — É
isso que um jantar adequado para doze custa no Café Anglais.
No discurso do general,
Isak Dinesen não deixa dúvidas de que ela escreveu "A Festa de
Babette" não apenas como uma história a respeito de uma excelente
refeição, mas como uma parábola da graça: um presente que custa
tudo para o doador e nada para o que recebeu. Isto é o que o General
Loewenhielm disse aos carrancudos paroquianos reunidos ao redor da mesa de
Babette:
Todos nós fomos informados
de que a graça deve ser buscada no universo. Mas em nossa loucura humana e
nossa visão reduzida imaginamos que a graça divina seja finita... Porém, chega
o momento em que nossos olhos são abertos, e vemos e entendemos que a graça é
infinita. A graça, meus amigos, não exige nada de nós a não ser que a
aguardemos com confiança e a reconheçamos com gratidão.
Doze anos antes, Babette
aparecera entre aquelas pessoas desprovidas de graça.
Discípulas de Lutero que
ouviam sermões a respeito da graça quase todos os domingos e no restante da
semana tentavam obter o favor de Deus com a sua piedade e renúncia, a graça
veio até elas na forma de uma festa, a festa de Babette, por meio de uma
refeição desperdiçando uma vida inteira sobre aqueles que não a haviam
merecido, que mal possuíam a faculdade de recebê-la.
A graça veio àquela vila
como sempre vem: livre de pagamento, sem cordas amarradas, como oferta da casa.
Fragmento extraído de
"Maravilhosa Graça" de Philip Yancey, A FESTA DE BABETTE é uma
história de Karen Blixen, que tornou-se um clássico respeitado depois de ser
transformado em filme na década de 80. Com o psudônimo de Isak Dinesen, situou
sua história na Noruega, mas os cineastas dinamarqueses mudaram o local para
essa aldeia de pescadores.
Via:
Bora Ler

A verdadeira Santa Ceia acontece quando nos sentamos à mesa e nos deliciamos por tudo que ela nos proporciona, deixando o coração livre para reconciliações, perdões, cantos e alegrias.
ResponderExcluirQuando realmente estamos reconciliados com o que nos cerca, estamos reconciliados também com Deus.
E só por Graça alcançamos este grande milagre. Custando nada a nós além de deixarmos ser envolvidos por esta alegria do Espírito Santo em nós!