Não é contraditório, para
um evangélico, ser contra o aborto e a favor das armas?
Esta é a questão levantada
pelo documentário "The Armor of Light" ("A Armadura da
Luz"), como você pode ler em excelente resenha publicada no Estadão de
01/11/15:
Apelo ao diálogo
KENNETH SERBIN
Estrelado
por pastor, documentário americano pergunta como evangélicos conservadores
podem ser ‘pro-life’ e favoráveis às armas
Enquanto a bancada BBB –
Bala, Boi e Bíblia – do Congresso brasileiro fez o País dar mais um passo para
uma maciça ampliação do acesso a armas de fogo graças à votação obtida por uma
importante comissão sobre este projeto de lei, esta semana, um membro destacado
da família Disney acaba de lançar um documentário que vira de ponta cabeça a
justificativa religiosa e moral do porte de armas.
The Armor
of Light (A Armadura de Luz), que estreou em cinemas selecionados em vinte
cidades americanas na sexta-feira, onde será exibido por uma semana, é
dirigido por Abigail Disney. Sobrinha-neta de Walt Disney, o fundador do
império do entretenimento, ela é doutora em filosofia pela Universidade de
Columbia. À primeira vista, é possível que ela seja menosprezada por alguns
como mais um representante da elite liberal dos Estados Unidos, fora da
realidade da vida diária dos cidadãos que procuram se proteger da violência.
Entretanto, em vez de
criticar severamente a posse de armas, The Armor of Light levanta
um dilema moral fundamental, mas há muito ignorado: como é possível que
cristãos evangélicos conservadores defendam posições que são ao mesmo tempo
favoráveis à vida (contra o aborto) e favoráveis às armas?
O título do filme foi
extraído da Carta de São Paulo aos Efésios: “Abandonemos as obras das trevas,
do medo, do ódio, da vingança, e vistamos a armadura da luz”. A armadura é a
Palavra de Deus.
Evitando a abordagem
tendenciosa típica de muitos documentários realizados nos últimos anos (como Tiros
em Columbine, de Michael Moore), Armor of Light explora a
questão através dos olhos de duas pessoas profundamente religiosas que foram
dolorosamente atingidas pela violência.
Rob Schenck, ministro
evangélico branco, tem impecáveis credenciais conservadoras. Nos anos 90, ele
liderou protestos contra o aborto, e numa ocasião carregou um feto morto em
público para demonstrar seu opróbrio por esta prática, cena que foi reproduzida
no filme.
Fundou um grupo de pressão
cristão, Fé e Ação, com escritórios instalados num edifício em
frente à Suprema Corte dos Estados Unidos, e lembra que já chegou a vestir um
colete à prova de balas com medo de represálias por suas atividades. Mas ficou
traumatizado por um incidente ocorrido em seu bairro, em 2013, no qual um
indivíduo armado matou doze pessoas.
Então, ele encontrou uma
aliada em Lucy McBath, mãe de Jordan Davis, o adolescente afroamericano que,
desarmado, foi morto em 2012 por um homem branco irritado porque o jovem e seus
amigos ouviam música muito alto no carro em que andavam. Lucy transformou sua
dor inenarrável em ativismo, tornando-se a porta-voz do movimentoMoms
Demand Action for Gun Sense (“Mães exigem ação e em favor de bom senso
com as armas”) nos Estados Unidos.
Embora Lucy seja favorável
ao direito de escolha na questão do aborto, ela e Schenck descobriram uma causa
comum na questão das armas.
Abigail Disney capta as
tensões que se criam quando Schenck estimula seus colegas conservadores a
refletir sobre o problema da posse de armas. “Como pessoa que crê, quais são os
seus sentimentos quando eu coloco a seguinte questão: Cristãos e armas”?, ele indaga.
“Esta é uma pergunta que os cristãos “deveriam se fazer com devoção, com
cautela e com espírito bíblico.”
Penetrando no cerne da
cultura dos cidadãos brancos conservadores americanos, Schenck confessa que
está “surpreso ao se dar conta de quão profundamente as armas estão integradas
na vida, nos pensamentos e até em sua espiritualidade”. Ele destaca que isso é
algo novo no cristianismo americano, onde os evangélicos antes da “Revolução
Reagan” republicana conservadora eram predominantemente democratas e incluíam
em suas fileiras pacifistas e objetores de consciência.
Os evangélicos tornaram-se
“vulneráveis à venda das nossas almas” ao permitirem que a defesa da posse de
armas e sua identificação com a Associação Nacional do Rifle (NRA na sigla em
inglês), organização extremamente influente, confundissem os limites entre fé e
política, afirma Schenck. Por outro lado, em Lucy e em outros cristãos afro-americanos
– uma comunidade onde o medo de ser morto por uma bala é constante – ele
encontra um desejo de paz.
“Não penso que a Bíblia
peça que nos tornemos guerreiros prontos para a ação, e para mim é isso que
quem carrega uma arma está fazendo”, afirma uma mulher negra cristã num
encontro com Schenck. “É como se dissesse: ‘Estou preparado para a guerra’.”
“Os Estados Unidos estão
vivendo uma crise”, conclui Schenck. E insta seus colegas clérigos a se
informarem mais sobre a violência das armas e a “oferecer corajosamente uma
clara orientação espiritual, moral e ética sobre esta questão de vida e morte.
Não há mais tempo para permanecermos calados”. O direito constitucional de
portar armas deve ser moderado por “medidas de segurança inspiradas no bom
senso”, observa Lucy McBath.
Abigail produziu uma
raridade no panorama da mídia e da política americana: um filme de profunda
sensibilidade religiosa, de respeito por ideias opostas e um apelo ao diálogo
sobre um dos problemas mais inquietantes do país. Ela espera continuar este
diálogo pessoalmente. Com Schenck e Lucy, comparecerá a algumas exibições para
conversar com o público, e oferece ingresso gratuito a membros da NRA.
As questões cruciais
levantadas por este filme aplicam-se não somente aos Estados Unidos, mas
também ao Brasil e a outras sociedades atormentadas pela violência das armas.
/TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
VIA: O
CONTORNO DA SOMBRA

Olá! Vi seu comentário em uma página de crítica a Caio e gostei muito da lucidez das suas palavras. Que bom achar esta "rede de blogueiros" através do seu, achei que as pessoas não tivessem mais blogs. Vou segui-los e, quem sabe, compartilhar algumas ideias também.
ResponderExcluirOlá Milly,
ResponderExcluirSeja bem vinda e sinta-se acolhida para compartilhar suas idéias e opiniões.
Que Deus te abençoe!