Suspeite de quem consegue exibir ares de
piedade. Quanto mais afetada uma espiritualidade, maiores chances de ser falsa.
Alguns aprendem a arquear as sobrancelhas para baixo como jeito de expressar
elevada pureza; esses são perigosíssimos. Prefira os mais soltos, os menos
requintados, os pouco cientes de suas virtudes. Gente desarmada é melhor
companhia que circunspectos sisudos; eles se arrastam pela vida com chumbo nos
pés, e puxam para baixo todos os que se aproximam deles.
Evite sentar na roda de quem exige
exatidão semântica até na hora da conversa fiada. Nada mais intolerável do que
conviver com quem adora corrigir as virgulas. Se alguém diz, vou
à igreja, ele dispara: “a igreja somos nós, não um prédio”. Se
confessa, ando desanimado, ele
engatilha um versículo: “mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças”.
Chatos religiosos são os piores.
Apure, rigorosamente, todo relato de
milagre. Escolha ser cético a simplório. A verdade não teme análise,
questionamento, suspeita. Indague também pelas motivações. Confira os fatos,
mas queira também saber os porquês por detrás dos relatórios sobre grandes
eventos. Dúvida faz bem à fé. Os fantásticos geralmente mentem. Exageros,
prodígios fenomenais e números evangelásticos,
em sua esmagadora maioria, se prestam a robustecer os músculos financeiros de
algum narcisista. Toda a pretensão messiânica depende de hipérboles. Igreja ou
agência missionária que não se contenta com o serviço despretensioso deve ser
mantida sob grossas lentes. A correria por elogio, a busca por admiração e o
esforço por alcançar os primeiros lugares merecem desdém.
Nunca hesite: mentes sórdidas se
escondem sob o manto de um rigor moralista. Quem passa muito tempo se
exasperando contra os pecados da carne, não se engane, é escravo da lascívia. E
faz tempo. Rigidez puritana não abranda o fogo da cupidez. Só o acirra. As
taras mais grotescas – sadismo, estupro, pedofilia – dependem de ambientes
austeros e probos. Os que conseguem viver uma sexualidade lúdica adoecem menos.
Lei não tem valor algum contra uma libido adoecida.
Faça qualquer coisa – fuja, esconda-se,
dê o fora, encontre um escape – para evitar os tapetes
azuis do poder. Se
for nomeado síndico, presidente de honra da quermesse ou venerando líder da
igreja, considere: tais perigos são avassaladores. O poder se insinua aos
poucos. Portanto, abra mão de ostentar título em cartão de visita, ou no perfil
das redes sociais. Placa de bronze, acrílico, papelão, diploma e medalha, não
passam de confetes. Tais bobagens viram lixo na quarta-feira de cinzas da
existência. Brigue para não ser tratado com deferência artificial. Caminhe
para longe das armadilhas dos bajuladores. Além de toscas, elas escondem
punhais.
Desenvolva uma espiritualidade não
exibida. Evite tocar trombeta sobre seus predicados. Sejam outros os lábios que
te exaltam. Não creia na publicidade que você patrocinar. Não hesite em
reconhecer seus tropeções e seja econômico em alardear suas virtudes. Corra da
companhia dos pernósticos, eles adoram se gabar sobre os galardões que fingem
ser donos. Prefira a discrição.
Desconfie de quem atira pedra com facilidade. Viva
longe dos que procuram mostrar-se inoxidáveis. Esses dissimulados nunca vacilam
na hora de sacrificar. Basta enxergarem alguma vantagem e lhe entregarão “ao deus dos severos castigos“.
Quando parece conveniente, os mais venerandos não piscam duas vezes em defender
os rigores da lei. Aliás, todo castismo contém algum mau-caratismo. Desça a
calçada para não esbarrar com quem se ufana dono de nervos de nylon. Rejeite a
todo custo sentar na roda dos puríssimos.
Cuidado para nunca oferecer as costas ao
chicote do demagogo. Ele jamais soletra misericórdia. Seu prazer, com traços
mórbidos, consiste em expor. E depois que fere, gosta de contemplar agonias.
Esse é o jeito do santarrões se purgarem. Sem compaixão, fazem tudo para lhe
arrastar para a lama em que vivem. Nunca se exponha a quem se enxerga como
zelador da sala do trono de Deus. Eles acendem fogueiras com lenha verde. Não
hesitam um segundo em expor e arruinar – sempre em nome da santidade,
claro. Lembre-se: no meio de gente assim, o juízo triunfa sobre a misericórdia.
Proteja as costas. Jamais esqueça: Jesus
foi traído por religiosos. Seja prudente e arisco como as serpentes. Lobos
devoradores tentam passar por ovelhas cordiais. Não fale sobre a sua
interioridade sem antes certificar-se de que está entre seus pouquíssimos
amigos – companheirosde ministério e
traidores se misturam (lembre-se de Judas). Quanto mais austero e probo o
grupo, mais chance dele já estar manipulado por algum inescrupuloso. Insisto,
caso precise abrir a interioridade, certifique-se: o outro consta entre os
amigos que você pode contar nos dedos da mão? Não se exponha diante de quem
coloca a instituição, a teologia, ou a reputação denominacional, antes da vida.
Melhor abrir o coração, de joelhos, com a porta do quarto trancada. Converse a
sós com Deus. Ainda assim, muito cuidado: as paredes também ouvem.
Fique na companhia dos vulneráveis, dos
pecadores, dos que se mostram agradecidos pelos breves momentos de alegria.
Religiosos, sepulcros caiados, são sorvedouros da espontaneidade, da vida, da
alegria. Opte por ambientes simples, menos protocolares. Em mesas pudicas,
sobram preconceito, não-me-toques e dondoquices. Cante sem medo –
desafinar faz parte. Dance sem receio de pisar os cadarços. Não se impressione
com gritos. O cenho franzido da gerontocracia eclesiástica não passa de inveja.
Beba seu vinho com singeleza ao lado de gente querida. Brinque mais. E guarde
sempre essa verdade: Deus gosta de nos ver felizes.
Soli Deo Gloria
Somente Deus conhece o coração dos homens...
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