Por: Ricardo Gondim
O título para
este texto está em inglês de propósito. Pretendo comentar o filme produzido
pelos irmãos Cohen, “Onde os fracos não têm vez” – ganhador do Oscar de 2008.
Como não gostei da tradução que deram aqui no Brasil, grafei o título original;
na minha opinião, mais apropriado para descrever a trama.
Antes, uma
confissão: não apreciei o filme logo que o vi. Saí do cinema com a sensação de
que tinha assistido à mais uma apologia de violência. O enredo me pareceu
semelhante a tantas outras produções hollywoodianas: exagerado nas cenas
explícitas de morte e vingança. Porém, com o passar do tempo, quanto mais
meditei, mais percebi a força da metáfora.
O enredo se
desenrola sem muitas nuanças. Um acerto de contas entre traficantes, em algum
lugar perdido do Texas, provoca uma chacina. Todos os envolvidos morrem. Sobrou
uma mala de dólares. Começa, então, uma peleja entre gatos e ratos. Polícia,
traficantes, mexicanos e gringos, se engalfinham pelo butim. Um xerife, prestes
a se aposentar, portanto, um “old man”, se vê obrigado a trabalhar no caso. Sua
fadiga é notória. Falta-lhe pique. A maldade lhe arrasa – é avassaladora. O
xerife Ed Tom Bell – Tommy Lee Jones – deixa claro: os longos anos de combate
ao crime o amarguraram. Seu desabafo, em determinado momento, revela a dimensão
do estrago: “Eu sempre achei que quando ficasse velho, Deus entraria em minha
vida de alguma forma. Mas ele não o fez. Eu não o culpo. Se fosse ele, eu teria
a mesma opinião sobre mim mesmo”.
De repente me
toquei: aquele xerife do filme encarna os que lutam para conter o avanço da
maldade – e se sentem impotentes. Faltam-lhe forças. O demoníaco tem cara e se
mostra renitente. De fato, a luta de policiais, investigadores e
promotores, é sem fim. A todo instante, alguém tenta fazer o que não presta. A
capacidade humana de inventar e concretizar perversidade parece inesgotável.
Pedófilos usam a internet para seduzir crianças. Traficantes se organizam em
cartéis. Servidores públicos desviam dinheiro, que deveria comprar ambulância e
merenda escolar. Não faz muito tempo, mundo se horrorizou com um pai que
escravizou, e abusou sexualmente, a própria filha por anos.
Semelhantes
ao xerife Ed Tom Bell, as organizações que advogam o direito humano, os
ecologistas que procuram preservar a natureza, os juizes, os políticos
comprometidos com avanços sociais e o clero, por mais que batalhem, acabam com
a sensação de malhar em ferro frio.
Converso com
pastores evangélicos esgotados. A luta por uma espiritualidade lúcida
lhes parece inglória. O esforço de conectar fé e vida lhes desgasta. Converso
com padres católicos romanos deprimidos com a injustiça que oprime a comunidade
onde trabalham. Com recursos financeiros escassos, parece inútil continuar.
Desanima saber que poucos se dispõem a arregaçar as mangas.
Não me atrevo
a resolver tantos impasses. Minha intuição me avisa, entretanto, que deve haver
algum meio de preservar a esperança – mesmo entre os cansados.
É preciso
abandonar a lógica dos grandes projetos, das megalomanias, dos messianismos.
Antigas propostas globais de mudança precisam ser redimensionadas (Downsized)
para pequenas iniciativas. Antes de querer salvar o planeta, devemos cuidar do
quintal. Para enfrentar o aquecimento global, temos que mudar hábitos
cotidianos: poupar a água do banheiro, não abusar do automóvel, preferir o
transporte público ou a bicicleta. Na política, é necessário participar de
conselhos de bairro, envolver-se no Terceiro Setor, valorizar quem trabalha com
portadores de deficiências. Pequenas iniciativas de desenvolvimento comunitário
acabam produzindo resultados compensadores.
Uma
historieta – meio clichê – pode ajudar. Certo homem caminhava e devolvia ao mar
peixes que a maré baixa condenou a agonizar na praia. Alguém o repreendeu: “Seu
esforço é quase fútil. Salvar poucos peixes não fará muita diferença. Ao que
ele respondeu: “Realmente, contudo, faço toda a diferença para os que devolvo à
vida”. Oskar Schindler não acabou com o holocausto, apenas mudou a sorte de
alguns, e seu esforço ganhou um valor eterno. Martin Luther King começou
marchando pelas ruas, apoiou o boicote aos ônibus, por não permitiam que negros
sentassem onde quisessem, e o resultado todos conhecem; ser ou não reconhecido
mundialmente jamais foi seu objetivo.
O antídoto
para o desânimo talvez aconteça a partir das relações pessoais e não dos
empreendimentos. Nossas iniciativas devem ter como meta servir, nunca o
contrário, ser servidos. O fortalecimento de qualquer instituição não pode
consumir, ou atropelar, as pessoas. Nenhuma ideologia, programa ou projeto,
pode tornar-se um fim em si mesma. Os partidos, as igrejas, os sindicatos,
devem colocar-se a serviço de homens e mulheres; eles só se legitimam se
promovem vida.
Jesus viveu
numa pequena vila e não gastou energia com mega eventos. Sua missão aconteceu,
prioritariamente, entre pescadores e mulheres simples. Ele se doou aos
excluídos, sem jamais impressionar-se com o aceno do estrelato. Ultimamente,
tenho procurado meditar, mais que empreender, contemplar, mais que contender,
inspirar, mais que tagarelar, porque sei do perigo de me espalhar fino demais.
Não quero terminar os meus dias desiludido, cínico e sem paixão. Igual ao
personagem do filme, não conseguirei estancar o avanço onipresente da maldade.
Contudo, se aprender a contentar-me com atos singelos, iniciativas
despretensiosas e feitos simples, posso não ganhar o mundo, mas não perderei a
alma.
Refletindo em 1 João 5:19 penso que o mundo em que vivemos será cada vez mais um lugar pouco amistoso e complicado de se viver. Não somente as pessoas estão em dificuldades de relacionamento,voltadas pra si mesmas, mas mesmo a natureza está rispidamente voltada contra nós, com isso me pergunto se vale a pena os que tem como 'missão' evangelista, querer fazer trabalhos messiânicos grandiosos.
ResponderExcluirPenso que seria mais 'frutíferos' cuidar dos jardins aos arredores deles mesmos, semeando e deixando que o ES faça o resto.
Mesma coisa nós, cuidar dos que estão perto e dos que se achegam, falar do evangelho de uma forma simples, normal e porque não, natural, sem neuras, sem aquele peso da 'obrigações' de estar fazendo isso.
Mas desanima mesmo, parece que quanto maior se fala e se tenta fazer o bem, parece que o mal vem em dobro!
Mas me apego nas palavras de Jesus quando disse que ele edificaria sua Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Que DEus nos ajude a viver com o coração em paz, sabendo que tudo está no controle dele
DEus abençoe HP