– Vejo que você está com o panfleto na mão – disse o anjo no guichê – e
deve ter visto também o vídeo de cinco minutos, então já sabe como funciona.
Uma pergunta sua, depois você responde uma pesquisa curta e é liberado
imediatamente.
Eu tinha muito mais que uma pergunta, mas fiz que sim com a cabeça.
– Onde – eu disse, do modo mais claro e deliberado
que consegui.
– Onde, onde – disse o anjo, e deslizou o dedo sobre a tablet que trazia
na mão. – Olha, parabéns, você vai nascer no Brasil, um país muito legal.
– Legal – eu disse.
– Diz aqui que tem a maior cobertura florestal do planeta, uma quantidade
estúpida de recursos naturais, e uma parte da população está entre o 1% mais
rico do mundo.
– Legal – repeti, mas agora estava sorrindo.
– Opa, atualizou aqui – ele olhou na tablet – Está igual, só esquece a
maior cobertura de florestas do planeta. O resto está igual.
– Muito bem – eu disse, e mordi os lábios antes que mudasse mais alguma
coisa.
– Agora a pesquisa, e para sua conveniência tem também uma pergunta
só. Estou até já emitindo aqui o seu bilhete de embarque. Tem bagagem pra
despachar? Haha, só estou zoando.
– Qual é a pergunta? – eu estava impaciente.
– Como você sabe – e aqui ele deixou a tablet de lado e leu diretamente
de um outro monitor – esta pesquisa foi sugerida por São João Rawls em 2012,
para confirmar uma teoria sua. E só tem uma pergunta, que vou te fazer agora.
Qual seria a sociedade mais justa para o mundo em que você está para nascer:
uma sociedade igualitária ou uma sociedade libertária?
Ergui as sobrancelhas.
O anjo espalmou a mão para que eu não respondesse antes que ele terminasse
de falar:
– Só pra esclarecer, tá, a sua resposta não vai mudar em nada a
sociedade que você vai encontrar lá embaixo. A sua resposta pode não fazer
qualquer diferença na sua passagem pela Terra, etc, etc, mas se você responder
certo vai ganhar pontos aqui no céu.
E para indicar que a bola estava comigo, tirou os olhos do monitor.
– Mais justa, qual seria sociedade mais justa – eu disse. – E qual seria
exatamente a diferença entre essas duas opções que você falou?
– A diferença está em como se determina quem merece o quê. Igualitária
é a sociedade que acredita que, como todo mundo é diferente, justo é o mundo em
que cada um se beneficia igualmente dessa variedade. Libertária é a
sociedade que acredita que, como todo mundo tem direitos e liberdades iguais,
é justo que cada um se beneficie individualmente daquilo que tem de
diferente.
– Desculpe, não sei se entendi.
– O libertário é o capitalista, meu amigo. Nesse modelo todo mundo
nasce com igualdade de oportunidades, por isso é justo que as recompensas
a que cada um tem direito sejam determinadas exclusivamente pelo livre
mercado. Toda a riqueza é distribuída por esse critério aí só.
– Ah, correto, se eu nascer numa família pobre vou poder usar as oportunidades
do mercado para me alçar para uma condição melhor, aquela história.
– Exatamente. A história libertária. Que recebe também o nome de
meritocracia.
Baixei a voz e me inclinei em direção ao guichê.
– Antes de eu responder você podia olhar aí se eu vou nascer numa
família pobre? Ou se vou nascer entre os 1% mais ricos do mundo?
– O Brasil está entre os dez países com a distribuição de renda mais
injusta do planeta mas não, você tinha direito a uma pergunta só e
a sua pergunta foi onde.
– Mas alguma coisa básica você vai ter de me dizer pra eu me basear,
não? Se eu vou nascer homem ou mulher, me diz só essa que essa é fundamental.
– Desculpe, não posso liberar essa informação.
– A cor da pele, então. Olhando pra mim as pessoas vão dizer que sou
branco ou preto?
– Não, não posso.
– Tudo bem. E se eu nascer, sei lá, índio. Quem garante que os índios
vão ter no Brasil a mesma oportunidade que os brancos.
– Quem garante – disse o anjo.
– E se eu nascer com habilidades que o mercado talvez não tenha
interesse em recompensar? Se o meu talento for pra, sei lá, taxidermista,
antropólogo, pintor de carroceria de caminhão? E se eu tiver uma orientação
sexual diferente da maioria? E se eu nascer muito feio, meu Deus do céu? Não
tem um espelho aqui não?
– E se – disse o anjo.
– Ah, tenha santa paciência! Alguma coisa você vai ter de me dizer, meu
anjo. Como alguém pode dizer o que acha justo sem saber os privilégios que
vai ter?
– Essa já é praticamente uma resposta, já – disse o anjo.
– Tá bom, concordo, ok. Agora olhe aí pelo menos se eu vou nascer com
saúde. Se vou nascer com alguma deficiência, que isso pelo menos eu tenho
direito de saber.
– Olha, a informação que estou autorizado a dar é que você vai
nascer nu como todo mundo. Como estamos aqui agora, desse jeito. A garantia é
só essa.
– Veja pelo menos se vou nascer na cidade ou no campo, meu Deus. Vai ter
água potável na casa onde eu nascer? Comida sem agrotóxico? Vai ter livro na
casa em que eu nascer, meu Deus do céu? Meus pais vão ter alguma escolaridade?
– Você não está entendendo.
– Você é que não está me entendendo, meu amigo. Você não vê que essas
coisas que podem afetar o meu futuro estão todas fora do meu controle? Igualdade
de oportunidades? Não sei se vou nascer homem ou mulher, preto ou
branco, gay ou hetero, rico ou pobre, criado no iogurte grego ou mal nutrido,
bonito ou feio, saudável ou com algum problema. Nada disso é escolha minha ou
mérito meu e tudo isso pode determinar o meu futuro. De onde, meu amigo, de
onde chamar isso de meritocracia?
Sem dizer uma palavra e sem mover o rosto o anjo fez menção à fila atrás
de mim. Depois olhou-me nos olhos e deixou o dedo flutuando sobre a superfície
da tablet.
– Posso dizer aqui que você respondeu “igualitária”?
Baixei a cabeça.
– Pode. Não, espera. Espera. E se eu mudar a minha
resposta quando chegar na Terra, dependendo daquilo que eu encontrar por lá.
Se eu mudar a minha resposta vou ser punido depois por causa disso?
– Ao final da viagem a gente compara as respostas – disse o anjo – mas é
só para fazer um controle. A verdade é que neste universo ninguém é punido por
nada; acontece só que cada um tem poder para lesar e fazer sofrer os demais. Se
mudar a sua resposta você não vai ser de forma alguma punido: só vai estar
punindo outros.
Ele me entregou o bilhete de embarque, e antes que eu saísse do lugar
foi chamando o próximo.
Por: Paulo Brabo
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