19/03/2020

Coronavirus


Depois de tudo que fizemos com esse planeta, depois de abrir um buraco na camada de ozônio, depois de emporcalhar rios e mares, depois de contaminar o ar que a gente mesmo respira, depois de impor o aquecimento global para as próximas gerações, depois de dizimar milhões de espécies, a gente tem a cara de pau de achar que esse vírus é que é ruim.

Nem matar ele mata.

Quem mata é a doença que surge quando ele se instala na gente.
Essa mata mesmo e a gente precisa se cuidar, como aliás, precisamos evitar todas as outras doenças, muitas das quais nós mesmos críamos.
A tal doença que o vírus causa mata quase tanto quanto as guerras que a gente inventou.
Mata menos, mas mata como câncer que a gente às vezes contrai por hábitos que não conseguimos controlar.

Já ele, o vírus, quer apenas o mesmo que você e eu.
Quer cumprir o dever que a Natureza impõe a quem está vivo: reproduzir e sobreviver.
E para isso, esse vírus fez o que nenhum de nós conseguiu:

Fez a gente mudar.
Fez a gente andar menos de carro e poluir menos o ar.
Fez a gente ficar em casa com a família, que era onde a gente deveria estar se não fôssemos ferramentas.
Fez as famílias ficarem mais tempo juntas.
Café da manhã, almoço e jantar.
Há quanto tempo, mundo afora, tantas famílias não faziam juntas as três refeições?
Fez a gente esquecer um pouco a polarização.
Fez a gente parar para pensar que existe outra vida possível.
Fez os céus terem menos aviões e helicópteros.
Os mares terem menos navios.
Fez as cidades ficarem mais silenciosas.
Fez a gente dar uma pausa na nossa insanidade cotidiana.
Fez filhos se preocuparem com a saúde dos pais.
Fez o mundo pensar que é possível trabalhar de casa, sem o stress dos ônibus e metrôs lotados.
Fez a gente ser mais criativo para pensar em novas rotinas.
Fez crianças aprenderem a lavar as mãos.

Não fosse pela doença, esse vírus seria muito gente boa.

Imagine! Foi capaz até de fazer os Estados Unidos considerarem dar dinheiro de graça para o povo.

Precisou um vírus para fazer os governos do mundo todo, da noite para o dia, tirarem dos cofres mais de 2 trilhões de dólares para ajudar a quem precisa.

Mas a gente é burro.

E já já esse vírus vai passar.
Vamos dizima-lo com nossa competência infinita.
Vamos extinguir todos os sinais de sua existência na terra usando a mais avançada das ciências.
Vamos transformá-lo num capítulo triste da nossa História.
E isso é bom, porque assim ninguém mais morre da doença que ele causa.

Só que vamos fazer isso com tanto orgulho, que em seguida vamos esquecer tudo que aprendemos.
Vamos voltar a lotar os trens, os escritórios e as artérias.
Vamos voltar a poluir, aquecer e sujar.
Vamos voltar para nossos convívios econômicos e fragmentados com quem a gente mais ama.

E vamos lembrar desses dias como os piores dias que já vivemos.
Porque, afinal, fomos obrigados a sair de nossas tão prezadas rotinas.



Por: Mentor Neto

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