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óbitos ontem. E o Presidente não derrama uma lágrima.
Mas
não é só ele. Para quem não teve um caso de morte por coronavírus na família,
essas mortes viraram números apenas.
Não
machucam, não doem.
Miguel tem cinco anos. Miguel quer a mãe, que levou o cachorro da patroa Sarí Gaspar Côrte Real passear. Sarí deixa Miguel sozinho no elevador, pois estava atarefada com a manicure
que fazia suas unhas.
Miguel
cai do nono andar. 35 metros. Miguel morre.
Sarí
Gaspar Côrte Real vai presa para a delegacia e paga os 20 mil reais de fiança.
Sarí
Gaspar Côrte Real deve ter chorado, assim espero. Talvez um choro misturado
pela morte do menino, por não ter dado a atenção devida e pelo seu nome deixar
as colunas sociais do Recife e agora estar nas páginas policiais do país.
Mas a maioria do povo brasileiro não chora a morte do menino Miguel.
Assim como não chorou a do menino João Pedro. Assim como não chorou a do menino Marcos Vinícius. Assim como não chorou a da menina Ágatha, todos assassinados por "balas perdidas" nas favelas do Rio esse ano.
Assim
como não chora e nem mais se lembra dos 10 meninos carbonizados no alojamento
do time de futebol mais popular do país.
Assim
como não chorou os 41.635 homicídios cometidos em 2019. Ou os 51.558 de 2018.
O
Brasil deixou de ter um povo capaz de exercer a empatia.
O
Brasil tem uma sociedade cada vez mais fria. Cada vez mais virada para si
própria.
"Salve-se
quem puder" é o lema impregnado na alma brasileira.
E
não se percebe que ninguém mais pode se salvar sozinho.
Ou
o Brasil abraça a todos e aprende novamente a chorar todas as suas desgraças,
ou o Brasil continuará sendo um país de desgraças cada vez maiores.
Pois
nada mais choca.
Pois
nada mais consegue derramar uma lágrima de comoção.
"E
o PT?" Dizem uns, tentando politizar a desgraça.
"E
o Bolsonaro?" Dizem outros, tentando politizar a desgraça.
"E
a alma do povo Brasileiro?" pergunto eu.
MUITO TRISTE
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