Reproduzo abaixo um excelente texto do Pastor Alan Capriles sobre Salvação. Trata-se de uma reflexão profunda sobre o tema, com muitos questionamentos pertinentes.
Que Deus vos abençoe na leitura.
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Creio que todo cristão sincero já
deve ter se confrontado com a seguinte questão:
"Se somente Jesus salva, o
que ocorre com aqueles que nunca ouviram falar de Jesus?”
Pense um pouco sobre isso...
Imagine o número incontável de pessoas que jamais ouviram falar de Cristo, seja
porque nasceram antes de seu advento, ou porque viveram em lugares não
alcançados pela mensagem do evangelho. Seriam quantos? Milhões? Bilhões?! Se
refletirmos um pouco mais, inevitavelmente surgirá uma nova questão:
“Seria justo Deus condená-los por
algo que eles ignoravam?"
Com certeza alguém dirá que Deus
não condena ninguém, mas que a própria humanidade se autocondenou por seus
pecados. Mas não é disso que estou falando. Refiro-me a inúmeras pessoas
morrerem sem nenhuma chance de salvação. Milhões, talvez
bilhões de almas perdidas por toda a eternidade, somente porque nunca ouviram
falar de Jesus! Como pode haver amor, justiça e imparcialidade nisso? Será que
a nossa salvação depende da sorte de termos nascido no tempo certo, no lugar
certo e de termos conhecido as pessoas certas?
Por muitos anos acreditei que a
teologia pudesse responder claramente assuntos dessa natureza, ou seja, de
caráter divino e de implicações eternas. Mas o fato é que, ao menos no que diz
respeito à questão levantada, a teologia só me trouxe respostas evasivas,
frustrantes, contraditórias, meias verdades ou, em alguns casos, mentiras
completas.[1] Não estou exagerando. Qualquer um que pesquise o tema da salvação
na teologia tradicional perceberá que suas explicações costumam ser
problemáticas.[2] Elas não somente levantam novas questões, como também criam
situações constrangedoras. Por exemplo, não importa qual alternativa
convencional você tenha escolhido acreditar, o resultado será sempre uma
deturpação do caráter divino.[3] Ou Deus parecerá irresponsável e incompetente,
permitindo que bilhões se percam somente por nunca terem ouvido falar de Jesus;
ou injusto, por haver mudado as regras da salvação após o advento de Cristo
(antes pelas obras e agora somente pela fé); ou ainda pior, creremos em um deus
sádico, que propositalmente teria criado pessoas destinadas ao inferno,
enquanto outras para o céu.[4]
Talvez pareça que eu esteja sendo
cínico ou irônico, mas não é o caso. Não tenho a menor intenção de afrontar a
fé de ninguém. Apenas preciso ir direto ao ponto e não vejo outra forma de
abordar o assunto senão de maneira franca e direta. Sendo assim, tudo o que
peço a você, leitor, é que façamos uma reflexão honesta acerca da salvação.
Sejamos sinceros e reconheçamos que há algo de muito errado na teologia
ortodoxa.[5] É claro que Deus não pode ser sádico, injusto, irresponsável
ou incompetente! Mas, a despeito disso, milhões de cristãos acreditam (ou
fingem acreditar) que talvez Ele seja assim e tentam se conformar com essa
imagem absurda e deturpada de Deus.[6]
Como posso afirmar que Deus não é
assim? Ora, pelo simples fato de que o nosso senso de justiça nunca será mais
elevado que o do próprio Deus que nos criou. Essa lógica deveria ser óbvia para
todo aquele que crê na existência do Criador. Trata-se de uma simples verdade,
que se resume nisso: não podemos ser melhores do que Deus.[7] Logo, se nos
causa repúdio a ideia de que alguém seja eternamente condenado por nunca ter
ouvido falar de Jesus, quanto mais o próprio Deus repudia tamanha injustiça!
Portanto, se quisermos pensar coerentemente a respeito do assunto da salvação,
bem como de qualquer outro assunto teológico, não podemos nos esquecer dessa
premissa, que considero importante enfatizar:
“Nosso senso de justiça não pode
ser maior que o do próprio Deus que nos criou.”
Sendo assim, torna-se evidente o
fato de que Deus não pode ser desleal, incompetente, irresponsável e muito
menos um carrasco, pois o nosso próprio senso de justiça (que é somente um
reflexo da perfeita justiça de Deus) nos impede de condenar alguém ao inferno
somente porque nunca tenha ouvido falar de Jesus, ou porque tenha sido
evangelizado erradamente – o que não é raro acontecer.[8] Semelhantemente,
seria uma tremenda injustiça que aqueles que nunca ouviram falar de Jesus
fossem julgados por suas obras (e inevitavelmente condenados!) enquanto os que
foram evangelizados pudessem ser salvos de outra forma, somente pela fé. Mas,
caso fosse possível alguém ser salvo pelas obras, surge uma nova questão: Para
que então evangelizá-los? E se, ao contrário, as obras não podem salvar, porque
Deus permite que bilhões morram sem nunca terem ouvido falar de Cristo? Como se
vê, não importa qual seja a resposta tradicional escolhida – ela trará consigo
novas questões, ainda mais constrangedoras e ainda mais perturbadoras.
Antes de prosseguir, devo
confessar que não é nada fácil escrever essas linhas. Suponho que leitores
desatentos questionarão minha fé e aqueles que não me conhecem pessoalmente
duvidarão de minhas corretas intenções. Fanáticos religiosos provavelmente me
condenarão pelo que revelarei aqui, mas, como disse Lutero, “fazer algo
contra a própria consciência não é seguro e nem saudável”.[9] Desta forma,
decido por não mais ocultar minhas convicções acerca da salvação, convicções
das quais fui persuadido após anos de investigação, muita oração e profunda
meditação em Cristo. Não que a verdade esteja escondida ou distante de cada um
de nós, mas o fato é que nós mesmos a soterramos debaixo de dogmas que nos
apressamos em aceitar.[10] E depois nos tornamos apenas mais um entre milhões
de acomodados que não tem disposição ou coragem para questionar as incoerências
da religião em que dizem crer. Feita essa ressalva, arrisco-me a compartilhar a
descoberta que desvendou por completo o que chamo de enigma da
salvação:
“Se somente Jesus salva, o que
ocorre com aqueles que nunca ouviram falar de Jesus? Seria justo Deus
condená-los por algo que eles ignoravam?”
Essa intrigante questão começou a
ser elucidada somente quando me dei conta daquilo que deveria ser óbvio para
qualquer cristão: se de fato cremos que Jesus é a encarnação da verdade,
deveríamos examinar primeiramente o que ele nos ensinou acerca
da salvação e não o que outrosacrescentaram acerca do assunto.
Estranhamente, não é o que tem feito a maioria dos teólogos, razão pela qual
seus escritos não puderam me ajudar na solução desse problema. Ora, o que esses
teólogos deveriam fazer (mas não fazem) é simplesmente isto: investigar o que é
a salvação segundo os ensinamentos de Cristo – baseados no que o próprio Jesus
disse – ao invés de se prenderem ao que disse Agostinho, Tomás de Aquino,
Calvino, ou qualquer outro pensador do cristianismo. Não os estou desprezando,
pois eles tiveram seus méritos e muitos de seus escritos são admiráveis, porém
não infalíveis. A palavra final é a de Cristo – ou, pelo
menos, é como deveria ser para quem se declara cristão.
Percebi então que a análise da
salvação segundo Jesus Cristo exigiria uma especial releitura dos evangelhos –
uma releitura desprovida de preconceitos dogmáticos e com particular atenção às
passagens concernentes à salvação. E foi durante essa maravilhosa empreitada
que a solução começou a surgir, lenta e progressivamente, tal como a luz do
alvorecer, que nos faz enxergar o que se ocultava pela escuridão. Para minha
surpresa, alívio e angústia, deparei-me com ensinamentos de Cristo que, quando
lidos sem as lentes do dogmatismo religioso, me pareceram novos e
reveladores.[11] São versículos bastante claros e que – se estão mesmo dizendo
o que parecem dizer – nos apontam o caminho da salvação, com implicações que
antes eu não havia me dado conta![12] Como exemplo, convido você a meditar nas
seguintes asseverações de Cristo:
“Bem-aventurados os
misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” (Mateus 5:7)
“Bem-aventurados os limpos de
coração, porque verão a Deus.” (Mateus 5:8)
“Bem-aventurados os pacificadores,
porque serão chamados filhos de Deus.”
(Mateus 5:9)
“Bem-aventurados os perseguidos
por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.” (Mateus 5:10)
“Eu, porém, vos digo: amai os
vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do
vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir
chuvas sobre justos e injustos.” (Mateus 5:44-45)
“Se perdoardes aos homens as suas
ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará”
(Mateus 6:14)
“Não julgueis, para que não
sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com
a medida com que tiverdes medido vos medirão também.”
(Mateus 7:1-2)
“Então, dirá o Rei aos que
estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino
que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes
de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes;
estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me.
Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te
demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e
te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te
fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre
que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus
25:34-40)
“Amai, porém, os vossos inimigos,
fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso
galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os
ingratos e maus.” (Lucas 6:35)
“Não julgueis e não sereis
julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados”
(Lucas 6:37)
“Faze isto e viverás.” (Lucas
10:28) [Onde “isto” é a prática do amor ao próximo e “viverás” tem o sentido de
salvação, como se pode comprovar examinando-se o contexto: Lc 10:25-28]
“Nem todo o que me diz: Senhor,
Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que
está nos céus.” (Mateus 7:21 – Comparar com João 15:12, passagem na qual o
Senhor declara que sua vontade é que nos amemos uns aos outros)
Espero que você não tenha
ignorado a leitura dos versículos acima e nem desprezado as suas implicações.
Todos eles tratam de sermos perdoados por Deus, de entrarmos em seu reino, de
sermos seus filhos, de termos vida, de sermos salvos! São versículos que tratam
da nossa salvação.[13] A lista que acabo de apresentar não é exaustiva, mas é
suficiente para tornar claro que, segundo Jesus Cristo, a salvação nada tem a
ver com a crença em dogmas, ou com estar filiado nesta ou naquela religião,
pois o assentimento intelectual não é o que mais importa.[14] A salvação,
segundo Jesus Cristo, é muito mais uma questão de ser do que
de saber, tem muito mais a ver com quem você é do que com
aquilo em que você acredita.
O que estou afirmando não é de
particular interpretação. Qualquer um que se dedique a ler os evangelhos com o
mesmo desprendimento, ou seja, como se nada soubesse acerca de teologia, também
perceberá aquilo que se tornou evidente para mim: que, tanto por suas palavras
quanto por suas ações, Jesus nos ensinou que a salvação não consiste em
crenças, mas em permanecermos no amor de Deus. Não falo daquele amor
pejorativo, que costuma ser sentimental e interesseiro, mas do amor puro,
sublime, abnegado, prático, que resulta em ações de misericórdia, humildade,
arrependimento e perdão. Esse é o verdadeiro amor, manifestado de modo pleno na
pessoa de Cristo, precisamente porque o amor é a essência do próprio Deus.[15]
Perceba que esse amor, do qual
estou falando, está implícito em cada um dos versículos acima. Caso não o tenha
notado, recomendo e insisto que você pare agora mesmo e releia cada um dos
ensinamentos de Cristo que destaquei. Observe que o amor é o fator de motivação
comum a todos esses versículos que tratam da salvação. Quem ama se arrepende do
mal, não julga, não condena, perdoa, pede perdão, age com misericórdia e
compaixão, promove a paz, compartilha o que tem...
Sendo assim, podemos aventar que
qualquer pessoa que se permita guiar pelo amor permanecerá no caminho da vida,
pois estará seguindo a Cristo, que é o Caminho. E tal fato, de
atender ao chamado do amor, pode ocorrer a qualquer um, em qualquer época e
lugar, mesmo com aqueles que jamais tenham ouvido falar de Jesus! Em
contrapartida, todos que rejeitaram andar no caminho do amor são indesculpáveis
perante Deus, pois ainda que não tenham ouvido falar de Cristo, ouviram sua voz
em seu próprio coração, chamando-os ao arrependimento, à tolerância, ao perdão
e à compaixão.
Sei muito bem que, a princípio,
tal pensamento parecerá heresia. Mas somente a princípio, pois quando nos
lembramos da grandiosidade do Cristo nossa mente se abre para compreendermos
tamanha verdade. O problema é que quase sempre nos esquecemos disso! Receio que
o nome Jesus tenha se tornado tão comum aos nossos ouvidos ocidentais, e tão
limitado pelo próprio cristianismo, que talvez seja necessário relembrarmos a
dimensão de sua pessoa. Sendo assim, considero importante fazermos um breve
parêntese para relembrarmos quem é o Cristo.
Se pensarmos em Jesus apenas como
alguém que esteve no mundo durante pouco mais de trinta anos, e limitado ao
território da Palestina, cometeremos um grande e terrível equívoco. Bem, ao
menos no que diz respeito à salvação. Não é por acaso que o evangelho segundo
João, o mais místico dos evangelhos, esclareça o assunto logo em seu início. O
Jesus ao qual esse autor se refere não é somente o Nazareno, mas é na verdade o Logos de
Deus [16] que age no mundo desde a sua criação: “Todas as coisas foram
feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.” (João
1:3) Sendo assim, João introduz seu evangelho nos recordando que não é
o conhecimento histórico do Jesus de Nazaré que nos salva,[17] mas a
permanência em sua essência divina,[18] a qual o fez reconhecido como Cristo, o
Ungido de Deus. É fundamental que não esqueçamos dessa premissa, a qual
considero importante destacar:
Não é o conhecimento histórico do
Jesus de Nazaré que nos salva, mas a permanência em sua essência divina, que é
o mais puro amor.
O mesmo autor também nos recorda
que o Logos – geralmente traduzido como Verbo – é o próprio Deus e que Deus é
amor (João 1:1 e 1João 4:8). Mais adiante, em sua primeira epístola, João
simplificará a salvação numa única e surpreendente frase: “Deus é amor,
e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (1João 4:16) Se
esse versículo está mesmo dizendo o que parece dizer, qualquer um que
permanecer no amor permanecerá em Deus e, ainda que não saiba, Deus permanecerá
nele! Mas, como pode ser isso?
Creio que o Eclesiastes nos dá
uma boa pista. Ao mesmo tempo em que esse livro bíblico nos recorda o evidente
fato de que um dia nossa carne retornará ao pó, o Eclesiastes também revela
algo surpreendente: que o nosso espírito voltará para Deus, que o deu
(Eclesiastes 12:7). Logo, nossa origem está em Deus! E quem é Deus? Ora,
segundo João, Deus é amor – fato que ele insiste afirmar! E alguém se atreve a
dizer que João estava equivocado? Desta forma, o amor é a nossa verdadeira essência,
a porção de Deus em cada ser humano. Ainda que o Logos, o Verbo de Deus, só
tenha se revelado plenamente na pessoa de Jesus, o fato é que todos os homens,
em todas as épocas e lugares, nasceram com uma parcela do mesmo Ser, que é
amor, e tiveram a chance de permanecer vivendo em sua presença, ou seja,
guiados pelo amor.[19]
De fato, o mesmo Cristo que
proclamou ser a luz do mundo, afirmou que nós também somos a luz do mundo!
(Mateus 5:14 e João 8:12) A plenitude da luz divina foi revelada em Jesus
Cristo, mas ela também brilha, com maior ou menor intensidade, em cada um de
nós. Se nós não o desprezarmos, o amor de Deus nos iluminará cada dia mais,
tornando-nos uma bênção e abençoando a todos ao nosso redor. Essa luz divina
que há em cada um de nós precisa brilhar, pois que é a razão maior do nosso
existir (Mateus 5:16). O problema é que, na medida em que crescemos e nos
envolvemos com as coisas desse mundo, ficamos sujeitos a nos afastarmos desse
amor, assim como na parábola daquele filho pródigo, o qual trocou o amor do Pai
por prazeres efêmeros e ilusórios. Mas um dia ele caiu em si, se arrependeu e
humildemente passou a trilhar o caminho de volta. De igual forma, a partir do
momento em que nos damos conta de que a ganância, o egoísmo e o orgulho
contaminaram nosso coração, obscurecendo a luminescência do amor de Deus, tudo
que devemos fazer é retornar ao princípio, à pureza de quando éramos
pequeninos, pois, como disse Jesus, “dos tais é o reino de Deus”(Marcos
10:14). Logo, não pode haver salvação sem um coração livre de
malignidade, razão pela qual o Senhor também advertiu:“Em verdade vos digo
que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum
entrareis no reino dos céus.”(Mateus 18:3) Deste modo, estou
convencido de que esse processo de conversão, ou seja, de seguir pelo caminho
de retorno a Deus, não é outra coisa senão trilhar o apertado caminho do amor
– o caminho sobremodo excelente do qual nos falou Paulo
de Tarso (1Coríntios 12:31;13:1-13). Por outro lado, a indiferença e o ódio
representam o largo caminho das trevas e da autodestruição.
Dito isso, podemos concluir que
Deus não lança ninguém no inferno, mas é o próprio ser humano que mergulha no
tormento ao rejeitar o amor no qual deveria viver, deixando assim de andar
nesse caminho de salvação.[20] Mas aquele que permanece no amor permanece em
Deus e, enquanto assim permanecer, continuará salvo. Jesus salientou essa
verdade durante todo o seu ministério, tanto por palavras quanto por ações.
Cristo nos ensinou o tempo todo um só caminho de salvação: o caminho do amor,
sendo ele mesmo, Jesus, a expressão máxima desse amor. Quem não ama está
errando o alvo da sua existência, está se perdendo, pois não tem a Deus, que é
amor.
Como não poderia deixar de ser,
tal ensinamento de Cristo também se reflete nas epístolas:
“A ninguém fiqueis devendo coisa
alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo
tem cumprido a lei. Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não
cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o
próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor.” (Romanos 13:8-10)
“E eu passo a mostrar-vos ainda
um caminho sobremodo excelente. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos
anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que
retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e
toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes,
se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus
bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser
queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. [...] Agora, pois,
permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o
amor.” (1 Coríntios 13:1-3,13)
“Portanto, despojando-vos de toda
impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós
implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma. Tornai-vos, pois,
praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” (Tiago
1:21-22)
“Se vós, contudo, observais a lei
régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem”
(Tiago 2:8)
“Porque o juízo é sem
misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia
triunfa sobre o juízo.” (Tiago 2:13)
“Meus irmãos, qual é o proveito,
se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé
salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados
do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz,
aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo,
qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está
morta.” [Onde “obras” são atitudes práticas de amor ao próximo] (Tiago 2:14-17)
“Aquele que não ama não conhece a
Deus, pois Deus é amor.” (1 João 4:8)
“Ninguém jamais viu a Deus; se
amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós,
aperfeiçoado.” (1 João 4:12)
“Deus é amor, e aquele que
permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele.” (1 João 4:16)
“Se alguém disser: Amo a Deus, e
odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê,
não pode amar a Deus, a quem não vê. Ora, temos, da parte dele, este
mandamento: que aquele que ama a Deus ame também a seu irmão.” (1 João 4:20-21)
Há muitos outros versículos que
não estão aqui relacionados, posto que tornariam minha tese por demais extensa.
E, devo enfatizar, minha tese resume-se nisto: Jesus nos ensinou, tanto por
suas palavras quanto por suas ações, que o caminho da salvação é o amor. Não
qualquer tipo de amor, mas o amor ágape, ou seja, o amor de Deus em
nós. Por ser uma palavra grega que expressa o amor na prática, o termo ágape aparece
traduzido como caridade em algumas versões mais antigas. No
entanto, ágape é algo muito mais profundo do que apenas caridade. Como disse
Paulo,“ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres [...] se
não tiver amor, nada disso me aproveitará.” Portanto, não é meramente
o fazer caridade que nos salva, mas o amor desinteressado que nos move a
fazê-lo. Isso precisa ser enfatizado: Não somos salvos pelas obras, mas somos
salvos por Deus, que é amor, o qual nos motiva a praticar boas obras. Paulo nos
revela as características desse amor divino, o qual existe (ou que deveria
existir) em cada um de nós e no qual devemos permanecer (ou retornar, no caso
de estar esquecido): “O amor [ágape] é paciente, é benigno; o amor não
arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz
inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se
ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade;
tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba.” (1
Coríntios 13:4-8)
Somos salvos por esse verdadeiro
e puro amor, que é a própria essência de Deus. Do contrário, não poderia estar
escrito que “aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus,
nele” (1 João 4:16). Leia novamente esse versículo. Procure meditar em
sua profundidade e, principalmente, em suas implicações, que são surpreendentes! “Aquele
que permanece no amor...”declarou João, e não aquele que permanece numa
determinada instituição religiosa, ou numa crença intelectual qualquer.
Certamente por esse motivo Jesus não se importava tanto com o credo das
pessoas, mas preocupava-se apenas em conduzi-las ao verdadeiro amor de Deus,
sendo ele mesmo, Jesus, a maior expressão e prova desse amor. O que digo pode
ser facilmente comprovado pela simples releitura dos diálogos evangelísticos de
Jesus nos evangelhos.[21]
Sei que a tese que defendo também
origina novos questionamentos. A seguir, tentarei esclarecer possíveis dúvidas
que o leitor talvez já esteja se fazendo.
Mas e a salvação pela fé? Não há contradição aqui. O
problema é que o conceito de fé costuma ser equivocado. Fé em Deus, ou em
Cristo, significa estar em sintonia com a sua vontade. E a sua
vontade, como vimos, resume-se na prática do amor. Sendo assim, a fé é o
instrumento pelo qual somos motivados a amar. Se eu não confiasse no amor de
Deus que há em mim eu não continuaria amando. Quem segue o amor tem fé em Deus,
ainda que não se dê conta disso. Logo, a fé salvadora não é a fé intelectual
que alguém diz possuir, mas é a fé prática que podemos perceber através das
obras de amor. Por isso Tiago escreveu que “uma pessoa é justificada
por obras e não por fé somente.” (Tiago 2:24) Muitos confundem fé com
crença – e suspeita-se que Tiago não estivesse criticando a fé, mas a crença
que erradamente chamam de fé. Para Tiago, a verdadeira fé evidencia-se nas
obras. A crença, por outro lado, está em meramente acreditar que Jesus existiu,
mas a fé consiste em seguir seus ensinamentos, que se resumem na prática do
amor. Somente alguém que está em sintonia com o amor de Deus consegue amar até
o seu inimigo, porque esse alguém sabe, no seu íntimo, que o bem vence o mal e
que o amor vence o ódio.
Mas e o arrependimento de
pecados? Mais
uma vez, não há contradição aqui. O verdadeiro amor sempre nos conduz ao
arrependimento. Quem ama se arrepende do mal, quer tenha sido esse mal cometido
contra o próximo, ou contra si mesmo. Sem amor não há arrependimento e sem
arrependimento não há salvação.
Mas e o sacrifício de Jesus na
cruz? De
maneira alguma a salvação pelo amor anula a mensagem da cruz, ou nossa
justificação pelo sangue de Cristo. Em primeiro lugar, o sacrifício de Jesus
foi a maior prova do amor de Deus pela humanidade! Não há nada que possa
superar tamanha prova de amor. Se Jesus houvesse recuado seu amor não seria
perfeito, pois ele não teria nos amado até o fim (João 13:1). Mas ele não
recuou e tornou-se, por seu exemplo sacrificial, o caminho seguro para nossa
salvação. O amor como caminho de salvação não anula a cruz de Cristo, muito
pelo contrário, a cruz é o maior emblema do amor de Deus. Mas o sacrifício de
Jesus perde o sentido se não compreendermos que ele morreu daquela forma por
amor e para nos servir de inspiração em amar ao próximo. João compreendeu
perfeitamente essa verdade: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a
sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos.” (1João 3:16)
Mas e a redenção por meio do
sangue de Jesus? Esse é um ponto delicado, no qual me detive meditando e
orando por muito mais tempo. Não tenho a menor dúvida de que Cristo seja o
cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. As escrituras bíblicas afirmam
isso de maneira muito direta, não se trata de uma questão de interpretação. No
entanto, creio que o conceito de que só há possibilidade de salvação para quem
souber o que Jesus fez para nos redimir é um conceito equivocado. Acreditar
nisso é condenar milhões (talvez bilhões) de almas ao inferno somente porque
nunca sequer ouviram o nome de Cristo. Ora, para que o evangelho seja realmente
uma boa nova o sangue de Jesus precisa dar oportunidade de salvação a toda a
humanidade, mesmo àqueles que nunca ouviram falar dele. Do contrário, que
chance de salvação haveria para os que nasceram antes de Cristo, ou para os que
vivem nos lugares mais inóspitos, aonde nunca chegou o evangelho? Logo, é o
sangue de Jesus derramado na cruz que possibilita salvação a todos que andarem
no caminho apontado pelo próprio Cristo, ou seja, o estreito caminho do amor.
Ele morreu a nossa morte para que todos os que andarem segundo ele andou possam
ter vida, mesmo aqueles que nunca sequer ouviram seu nome. Isso não quer dizer
que todos estejam salvos, mas sim que há possibilidade de salvação para todos
que se arrependerem do mal e persistirem na prática do amor. E, graças a Deus,
há pessoas assim em todas as partes do mundo, bem como em todas as épocas da
história humana – pessoas que foram redimidas pelo sangue de Jesus, mesmo que
jamais tenham se dado conta disso. Isso sim é uma boa nova!
Mas e os escritos de Paulo? Ora, Paulo, ao negar a salvação
pelas obras, não negou que o amor seja o caminho da salvação. Nós é que não
temos compreendido muito bem suas cartas, de modo que tem sido cada vez maior o
número de teólogos que admitem essa possibilidade. Nessa nova perspectiva sobre
Paulo o que se analisa é o sentido que a palavra “obras” tinha na mente desse
apóstolo. O que muitos teólogos atualmente suspeitam é que Paulo não estaria se
referindo a obras de amor, mas a obras de religiosidade. Não fosse assim ele
mesmo seria contraditório. Paulo nunca negou a salvação pelo amor, do contrário
jamais poderia ele ter dito que o amor é o caminho sobremodo excelente, tão
excelente que o próprio Paulo o exaltou acima da própria fé (1 Coríntios
13:2,13). A compreensão disso acaba com a desarmonia entre as cartas de Paulo e
a carta de Tiago, o qual escreveu que “uma pessoa é justificada por
obras e não por fé somente.” (Tiago 2:24) Enquanto Paulo combatia as
obras de religiosidade, Tiago defendia as obras de amor. Portanto, não há desarmonia
entre eles.
Mas e o reino de Deus? Antes de tudo, precisamos
esclarecer que a proclamação feita por Jesus de que “o reino de Deus [ou reino
dos céus] está próximo” significava que esse reino é “acessível” aos homens
quebrantados de coração, que se arrependem do mal. Não significa próximo no
sentido de tempo, mas no sentido de estar ao nosso alcance. Por
isso ele dizia que o reino estava mais próximo de uns do que de outros. O
convite a entrarmos no reino de Deus, ou reino dos céus, é o convite a uma vida
centrada no amor de Deus. Onde o amor impera, Deus reina. Sendo assim, o reino
dos céus não é algo que se deva esperar somente para depois da morte, mas uma
realidade que começamos a experimentar em vida! Por isso Jesus disse ao
intérprete da Lei que ele não estava longe do reino de Deus. E por que não
estava longe? Não porque fosse morrer em breve, mas porque esse escriba havia
compreendido que o amor é a vontade de Deus para os homens. Agora faltava
apenas que ele vivesse esse amor, passando da teoria para a prática -“Faze
isto e viverás”! (Lucas 10:28)
Mas o caminho da salvação não é
apertado? Em
momento algum argumentei que o amor é um caminho largo. Muito pelo contrário!
Largo é o caminho de uma religiosidade hipócrita, que se baseia em crenças e
confissões, mas não em atos de amor ao próximo. Não poucas vezes Jesus
demonstrou-se indignado com a hipocrisia religiosa. É bastante evidente nos
evangelhos a insistência de Cristo nas ações e não meramente nas palavras: “Por
que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando? [...] Isto vos
mando: que vos ameis uns aos outros.” (Lucas 6:46 e João 15:17)Por isso
mesmo Tiago escreveu que “se alguém supõe ser religioso, deixando de
refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã. A
religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os
órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado
do mundo.” (Tiago 1:26-27)
Mas e a necessidade de
evangelizar e de fazer missões? Ora, quanto mais compreendemos a verdadeira mensagem de
Cristo mais percebemos a urgência de se ensinar o que ele ensinou. Milhões
estão se perdendo por não viverem no caminho do amor, mesmo entre os
que se dizem cristãos. E isso é gravíssimo! A igreja precisa despertar para
o fato de que sua missão não é fazer discípulos do cristianismo, mas fazer
discípulos de Cristo.[22] Isso nada mais é do que ensinar às pessoas o que Ele
nos ensinou, ou seja, que devemos andar no caminho do amor – em arrependimento,
perdão, misericórdia – pois esse é o estreito caminho da salvação. Imagine como
seria diferente o mundo se nossos irmãos falassem do amor (e não de sua
religião) como caminho de salvação, apontando para Cristo como exemplo maior
desse amor, ao invés de julgar e condenar o próximo por ele não ser da mesma
crença religiosa! Logo, o amor é a mensagem mais urgente para todos os povos,
sendo Jesus o maior exemplo e prova do amor de Deus por toda a humanidade. O
amor - e somente o amor - ignora muralhas, ultrapassa fronteiras, despreza
rótulos, vence preconceitos, pacifica povos, ameniza sofrimentos, se perpetua
por séculos, milênios e para além da nossa era... O amor nunca falha, porque,
assim como Deus, o amor é eterno.
Bem, chegamos à conclusão desse
longo texto. Na realidade, ele é o resumo de algo maior que estou preparando,
uma obra literária na qual pretendo pormenorizar minha tese. Aliás, é
importante lembrar: trata-se de uma tese. Não sou o dono da verdade e nem tenho
a pretensão de sê-lo. No entanto, é a resposta mais coerente que encontrei para
o enigma da salvação, uma resposta que encontrei em Cristo, por meio de Cristo
e para glória de Cristo. Digo isso porque tenho plena convicção de que não
cheguei até aqui por mim mesmo, mas que devo tudo a Ele, que me conduziu por
sua eterna Palavra e seu santo Espírito. Assim creio. Mas pode ser – e
provavelmente será – que muitos contestem os argumentos aqui apresentados,
mesmo sendo eles tão fortemente fundamentados no que nos ensinou o próprio
Senhor Jesus Cristo. Ao fazê-lo, que tão somente os críticos não esqueçam de
que isso nos levará de volta para alternativas incômodas, obviamente
incorretas, que deturpam a imagem de Deus, fazendo-o parecer desleal,
incompetente, irresponsável, ou sádico. De minha parte, sei que Deus não pode
ser assim. Prefiro aceitar o simples e maravilhoso fato de que Deus é amor, e
que somente Ele, o divino amor, é o caminho da verdadeira vida e a resposta
para o enigma da salvação.
Alan Capriles
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P.s.: Para melhor entendimento,
aconselho a leitura de todas as notas de rodapé.
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NOTAS
[1] Que o leitor não pense que
desprezo a teologia ou que bons teólogos não tenham nada a nos ensinar. Minha
crítica se restringe, ao menos nesse texto, à ineficácia da teologia
tradicional em responder algumas questões concernentes à salvação.
[2] Um exemplo da resposta que a
teologia tradicional oferece para essa questão da salvação é o artigo "O que será dos que nunca ouviram" onde o autor conclui que
os que nunca ouviram falar de Jesus não tem a menor chance de salvação. As
incômodas e absurdas implicações dessa conclusão sequer são levantadas pelo
autor do texto, razão pela qual decidi escrever uma réplica, a qual será
publicada em breve.
[3] Aconselho a leitura de "Deus não pode ser assim", artigo onde analiso um
vídeo que satiriza o tipo de deus que essas ideias deturpadas acabam criando.
[4] Os Calvinistas certamente
contestarão essa última assertiva, alegando que Deus não criou ninguém para o
inferno, mas que foi o próprio homem que selou seu destino desde Adão e Eva.
Sendo assim, segundo eles, Deus não estaria sendo injusto, pois os homens
merecem morrer, mas, ao contrário, Deus estaria sendo misericordioso com
aqueles que ele mesmo escolheu agir com misericórdia, salvando-os por meio de
Jesus Cristo. Um exemplo clássico que os Calvinistas dão sobre isso é o
seguinte: imagine que duas pessoas lhe devam 100.000 reais, mas nenhuma
delas tem condições de lhe pagar. Você então decide perdoar uma dívida, mas não
a outra. Seria isso injustiça de sua parte? Não, pois nenhuma das duas merecia
o seu perdão. Então você não está sendo injusto com uma das pessoas, mas está
sendo misericordioso com a outra. É mais ou menos assim que os
Calvinistas pensam a esse respeito. No entanto, o problema é que se Deus agisse
dessa forma ele estaria fazendo acepção de pessoas, o que contraria a natureza
do seu caráter. Se ele quer ser misericordioso, por que perdoaria somente um e
não os dois? Pensemos um pouco. Se um homem misericordioso não faria tal
acepção de pessoas, quanto mais Deus! Mas, supondo que Deus agisse assim,
pergunto: isso não seria o mesmo que ser sádico, destinando ao inferno pessoas
que ele poderia salvar, se quisesse?
[5] Chama-se de
"ortodoxa" a visão teológica que prevaleceu no cristianismo, o que
não significa que ela esteja necessariamente certa apenas porque foi abraçada
pela maioria. Aliás, a própria Bíblia nos mostra que a maioria costuma estar
equivocada. O historiador e estudioso da religião Philipe Jenkis comenta que a
formação da ortodoxia "foi uma questão política, moldada pelo
acaso geográfico e sucesso militar. Só porque uma visão tornou-se ortodoxa não
significa que foi sempre e inevitavelmente destinada a alcançar essa
posição" (Guerras Santas, ed. Leya, pág. 19). Devo ainda
esclarecer que não estou usando esse termo para referir-me à igreja
ortodoxa, pois fazê-lo seria uma injustiça: "As igrejas
ortodoxas rejeitam o conceito agostiniano de pecado original, expressão que nem
sequer existe na patrística grega, e veem a salvação como uma escala de
melhoramento espiritual e purificação da natureza tanto humana como geral, que
foi danificada na queda." (wikipedia.org/wiki/Salvação)
[6] Como exemplo desse triste
conformismo transcrevo o comentário que alguém postou em um site reformado,
cujo artigo dava a entender que aqueles que nunca ouviram falar de Jesus
estariam condenados ao inferno:
"Hmm... Não estou dizendo
que essa interpretação da bíblia é errada, pelo contrário, é exatamente isso
que ela diz, temos que nos conformar...Mas fico pensando em alguns problemas
que emergem dessa interpretação:
- E as pessoas que nunca ouviram,
e nunca ouvirão sobre o evangelho? Ví algumas explicações de David Platt sobre
isso, e ele disse que já que somos todos pecadores, logo somos todos
merecedores do inferno e seria justo mandar essas pessoas para lá por esse
motivo. Mas, no íntimo do meu ser essa explicação não me convence. Quer dizer
que alguns são privilegiados de ouvir a palavra de Deus, nascer no país certo e
fazer parte de uma cultura certa, enquanto outros simplesmente não tem essa
oportunidade?
- Já ouviram falar dos
"cristãos ateus", e dos "ateus cristãos"? Basicamente são
cristãos que vivem como se Deus não existisse, e ateus que vivem como se Deus
de fato existisse. Não vejo problema algum em Deus salvando uma pessoa pela sua
postura aqui na terra (não confunda com salvação pelas obras, me refiro a
predisposição de seguir a luz que lhe foi dada), ao invés de salvá-la julgando
se ela creu ou não nas coisas certas (que por sinal, em um mundo cada vez mais
diversificado, fica extremamente difícil de diferenciar o que é verdade e o que
não é).
E ai, alguém pode me
ajudar?"
Eu tentei ajudá-lo, respondendo
ao seu comentário, mas o moderador do site "Voltemos ao Evangelho"
censurou minha resposta, mesmo estando isenta de qualquer conteúdo ofensivo ou
irônico.
[7] Sócrates, em seu
"Diálogo com Alcibíades", exemplificou essa mesma verdade, nos
lembrando de que "assim como um espelho é mais claro, mais puro e
mais brilhante do que a imagem refletida, o divino é também uma realidade mais
clara, mais pura e mais brilhante do que aquilo que há de melhor na alma."
[8] É bastante comum que pessoas
"aceitem" Jesus e desprezem seus ensinamentos, como se fosse possível
recebê-lo como Salvador, mas rejeitá-lo como Senhor. Ora, a verdadeira fé
conduz à obediência.
[9] Recorro a Martinho Lutero porque também ele foi
incompreendido em sua época e perseguido por teólogos que se diziam ortodoxos.
A citação é parte do que ele declarou na Dieta de Worms, em 22 de Janeiro de 1521.
[10] "Dogma é um
termo de origem grega que significa literalmente “o que se pensa é verdade”. Na
antiguidade, o termo estava ligado ao que parecia ser uma crença ou convicção,
um pensamento firme ou doutrina. Posteriormente passou a ter um fundamento
religioso em que caracteriza cada um dos pontos fundamentais e indiscutíveis de
uma crença religiosa. Pontos inquestionáveis, uma verdade absoluta que deve ser
ensinada com autoridade. Além do cristianismo, os dogmas estão presentes em
outras religiões como o judaísmo ou islamismo. Os princípios dogmáticos são
crenças básicas pregadas pelas religiões, que devem ser seguidas e respeitados
pelos seus membros sem nenhuma dúvida." (significados.com.br/dogma)
[11] "Para minha surpresa,
alívio e angústia" - "Surpresa" porque a verdade estava diante
de mim o tempo todo. "Alívio" porque agora sei que há possibilidade
de salvação para muitos que a religião erradamente sentenciava como perdidos. E
"angústia" porque tal descoberta contraria o ensino da teologia
ortodoxa. Por mais estranho que pareça, ao defender o que Jesus ensinou a
repeito da salvação estou incorrendo no risco de ser chamado de herege até por
aqueles que considero meus amigos. E isso é muito angustiante...
[12] O termo “caminho” era
perfeitamente compreendido pelos primeiros discípulos como a prática
cotidiana do que Cristo nos ensinou. Eles procuravam andar no
caminho, isto é, na prática do amor ao próximo - esse amor que os
caracterizava é um fato historicamente comprovado, tanto por escritores
cristãos, como Tertuliano ("Vede como se amam!"), quanto por seus
opositores, tais como Luciano de Samósata, que zombava desse amor desinteressado.
Não é por acaso que muito antes de serem apelidados de cristãos os discípulos
de Cristo eram chamados de “os do Caminho”, significando que eles
andavam (viviam) segundo o caminho (ensino) proposto por Jesus. Confira Atos 9:2; 18:25,26; 19:9,23; 24:14,22.
[13] Examinarei melhor cada um
desses versículos e suas implicações soteriológicas em artigo posterior, o qual
terá seu link aqui divulgado.
[14] Se nossa salvação dependesse do assentimento intelectual, como poderiam salvar-se aqueles que têm problemas mentais?
[15] "Ágape" é o termo
específico em grego (língua original do Novo testamento) que descreve o amor em
sua forma mais pura. É desse tipo de amor que estou tratando aqui.
Lamentavelmente a língua portuguesa não possui um termo adequado para tal
descrição, restando-nos somente a palavra amor.
[16] "Logos" é um termo
grego, que é traduzido nas versões em português como "Verbo" ou
"Palavra". "Dizer que no princípio é a Palavra, é dizer
que o que é primeiro é da ordem da relação. Entre o aleph, o incognocível e a
criação, há esta Palavra, este diálogo, este Logos que estabelece a dualidade e
no mesmo movimento convoca e torna possível a Unidade, não a unidade
indiferenciada ou fusionar, mas a unidade da relação: o Amor." (LELOUP,
Jean-Yves - O Evangelho de João - Ed. Vozes, pág. 160.)
[17] "Não é o conhecimento
histórico do Jesus de Nazaré que nos salva" - Talvez por saber disso Paulo
não tenha dado muita importância ao Jesus histórico, fato que ele parece
confirmar em 2Coríntios 5:16.
[18] Note como o verbo
"permanecer" é largamente utilizado por João, assim como Paulo usou o
termo "em Cristo" para significar a mesma coisa: uma vida em total
imersão no divino, que deve permear nossas ações e motivações.
[19] Justino Mártir, um dos
primeiros "pais da igreja", compreendia isso perfeitamente. Por
exemplo, "dizia ele que Heráclito passara sua existência em tanta
conformidade com o Logos que, assim como Sócrates, merecia ser chamado de
cristão." O entendimento que Justino alcançara acerca da salvação
em Cristo foi assim resumido por Campenhausen: "Deus havia agido
em todas as épocas e entre todos os povos. Ele havia, em todas as épocas,
revelado aos povos, fora dos limites do povo judeu, fragmentos e partes de sua
verdade. Mas em Jesus Cristo a sua razão eterna havia se manifestado de forma
definitiva. [...] Para Justino, toda a história do espírito humano se resumiu e
foi consumada em Cristo. [...] Cristo era o Logos, isto é, a própria razão
divina, a qual Deus Pai admitiu sair de si mesmo sem a diminuição do seu
próprio ser. Através dEle foi também realizada a criação do mundo. E sendo a
'Palavra' de Deus, o Logos foi capaz de no final até mesmo assumir a forma de
carne humana, a fim de ensinar aos homens a verdade e a sabedoria
perfeitas." (CAMPENHAUSEN, Hans von - Os Pais da Igreja - Ed.
CPAD, pág. 18)
[20] Aproveito para esclarecer
que não sou universalista. Meu pensamento em relação ao inferno é
que as almas que rejeitam o amor de Deus já são atormentadas e se assim
deixarem seus corpos carnais apenas continuarão nessa mesma dimensão espiritual
de tormentos, a qual chamamos de inferno. Se ao deixar o corpo em tal condição
a alma será extinta neste inferno (tal como se extingui tudo quanto é lançado
ao fogo) humildemente declaro que não sei. Apenas não vejo lógica alguma em que
almas sofram eternamente por pecados cometidos tão brevemente
- lembrando que qualquer período de tempo se torna ínfimo quando comparado à
eternidade.
[21] Pretendo analisar os
diálogos evangelísticos de Jesus em futuros artigos que, na medida em que forem
publicados, terão aqui seus links divulgados.
[22] Para uma melhor compreensão
do que quero dizer, sugiro a leitura de Discípulos de Cristo, ou Discípulos
de Cristianismo?
Quanto mais conhecimento , mais será cobrado ....
ResponderExcluirAcredito que aqueles que não conheceram Jesus Cristo aqui na Terra , o conhecerão do outro lado , pois terão suas obras julgada por Ele "naquele dia".Acredito também que se praticaram o bem , de um coração espontâneo , terão o seu galardão.Pior é aquele que conheçeu a Verdade e não colocou em prática.Todas as obras serão mostradas , sejam boas ou más diante de Jesus. O amor Dele nesse momento não faltará e nem mudará , mas , a própria pessoa ao contemplar seus atos , entrará num sofrimento infernal , por ter sido tão negligente e descuidado aqui na Terra, e não tendo mais chance de consertar os seus erros : " como fiz aquela pessoa sofre"? Por que não pedi perdão? Por que não perdoei"? E assim por diante...também se alegrará com as boas obras Tudo isso dentro do conhecimento puro que o espírito possui desde eternidades.Sentirá em si própria todo o sentimento das pessoas a qual prejudicou aqui na Terra.: as decepções , os maltratos , as ofensas ,etc O que suas vitimas sentiram , a pessoa também sentirá a dor delas.
ResponderExcluirIrmã Sônia,
ExcluirEntendo o que a irmã expôs, porém eu confesso de mim mesmo que não possuo nenhuma obra boa que mereça crédito diante de Deus.
Confesso, irmã, que sou repugnável aos olhos de Deus. Talvez aos teus eu possa ser um "santo homem de Deus", mas diante dos olhos de Deus que enxerga o coração, eu sou o pior dos pecadores. Se Hitler é sempre lembrado pelas atrocidades, eu confesso que sou pior do que ele, porque não tenho poder em minhas mãos como ele teve.
Só Jesus para me salvar, minha irmã. Só aquele sacrifício na Cruz para zerar a conta do meu pecado para com Deus.
E sobre meus contínuos pecados (que muitos chamam apenas de erros ou fraquezas), eu confesso que vou sofrendo a consequência deles...
Um abraço.
Sei que não tem nada a ver com o tópico , mas ando observando uma mudança no clima pelo mundo , que está me deixando preocupada! Tenho 53 anos e nunca tinha presenciado fenomenos de maneira tão intensa como vem ocorrendo pelo mundo: fortes tempestades, calor ou frio em demasia, fenomenos relacionado ao mar, quantidade enorme de vulcões em atividade , quedas de meteoros e sinais nos céus pelo mundo ... O planeta já não é o mesmo ! Observem , há algo estranho acontecendo com esse planeta , principalmente nos oceanos! Desculpem sair fora do contexto !
ResponderExcluirNão tem problema em compartilhar uma opiniao fora do contexto.
ExcluirEu penso que atualmente estamos sendo bombardeados por informacoes em tempo real, vindas de todo o lado do planeta.
O que antes acontecia na distante China, nunca ficávamos sabendo... Sabemos mais de assuntos mundiais do que acontece com nossos vizinhos...
O cúmulo desta velocidade de informacoes foi o tsunami no Japao. Em tempo real o mundo viu as ondas chegarem e destruírem algumas cidades japonesas.
Antigamente nunca ficaríamos sabendo de tais notícias...
Hoje, só se pararmos de assistir TV e navegarmos na internet, veremos que tudo volta ao normal. Pelo menos onde moro nao tem vulcao, nem meteoros passaram raspando. rsrsrsrs
Abs!
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