05/12/2013

A salvação segundo Jesus Cristo

Reproduzo abaixo um excelente texto do Pastor Alan Capriles sobre Salvação. Trata-se de uma reflexão profunda sobre o tema, com muitos questionamentos pertinentes.

Que Deus vos abençoe na leitura.

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Creio que todo cristão sincero já deve ter se confrontado com a seguinte questão:

"Se somente Jesus salva, o que ocorre com aqueles que nunca ouviram falar de Jesus?”

Pense um pouco sobre isso... Imagine o número incontável de pessoas que jamais ouviram falar de Cristo, seja porque nasceram antes de seu advento, ou porque viveram em lugares não alcançados pela mensagem do evangelho. Seriam quantos? Milhões? Bilhões?! Se refletirmos um pouco mais, inevitavelmente surgirá uma nova questão:

“Seria justo Deus condená-los por algo que eles ignoravam?"

Com certeza alguém dirá que Deus não condena ninguém, mas que a própria humanidade se autocondenou por seus pecados. Mas não é disso que estou falando. Refiro-me a inúmeras pessoas morrerem sem nenhuma chance de salvação. Milhões, talvez bilhões de almas perdidas por toda a eternidade, somente porque nunca ouviram falar de Jesus! Como pode haver amor, justiça e imparcialidade nisso? Será que a nossa salvação depende da sorte de termos nascido no tempo certo, no lugar certo e de termos conhecido as pessoas certas?

Por muitos anos acreditei que a teologia pudesse responder claramente assuntos dessa natureza, ou seja, de caráter divino e de implicações eternas. Mas o fato é que, ao menos no que diz respeito à questão levantada, a teologia só me trouxe respostas evasivas, frustrantes, contraditórias, meias verdades ou, em alguns casos, mentiras completas.[1] Não estou exagerando. Qualquer um que pesquise o tema da salvação na teologia tradicional perceberá que suas explicações costumam ser problemáticas.[2] Elas não somente levantam novas questões, como também criam situações constrangedoras. Por exemplo, não importa qual alternativa convencional você tenha escolhido acreditar, o resultado será sempre uma deturpação do caráter divino.[3] Ou Deus parecerá irresponsável e incompetente, permitindo que bilhões se percam somente por nunca terem ouvido falar de Jesus; ou injusto, por haver mudado as regras da salvação após o advento de Cristo (antes pelas obras e agora somente pela fé); ou ainda pior, creremos em um deus sádico, que propositalmente teria criado pessoas destinadas ao inferno, enquanto outras para o céu.[4]

Talvez pareça que eu esteja sendo cínico ou irônico, mas não é o caso. Não tenho a menor intenção de afrontar a fé de ninguém. Apenas preciso ir direto ao ponto e não vejo outra forma de abordar o assunto senão de maneira franca e direta. Sendo assim, tudo o que peço a você, leitor, é que façamos uma reflexão honesta acerca da salvação. Sejamos sinceros e reconheçamos que há algo de muito errado na teologia ortodoxa.[5]  É claro que Deus não pode ser sádico, injusto, irresponsável ou incompetente! Mas, a despeito disso, milhões de cristãos acreditam (ou fingem acreditar) que talvez Ele seja assim e tentam se conformar com essa imagem absurda e deturpada de Deus.[6]

Como posso afirmar que Deus não é assim? Ora, pelo simples fato de que o nosso senso de justiça nunca será mais elevado que o do próprio Deus que nos criou. Essa lógica deveria ser óbvia para todo aquele que crê na existência do Criador. Trata-se de uma simples verdade, que se resume nisso: não podemos ser melhores do que Deus.[7] Logo, se nos causa repúdio a ideia de que alguém seja eternamente condenado por nunca ter ouvido falar de Jesus, quanto mais o próprio Deus repudia tamanha injustiça! Portanto, se quisermos pensar coerentemente a respeito do assunto da salvação, bem como de qualquer outro assunto teológico, não podemos nos esquecer dessa premissa, que considero importante enfatizar:

“Nosso senso de justiça não pode ser maior que o do próprio Deus que nos criou.”

Sendo assim, torna-se evidente o fato de que Deus não pode ser desleal, incompetente, irresponsável e muito menos um carrasco, pois o nosso próprio senso de justiça (que é somente um reflexo da perfeita justiça de Deus) nos impede de condenar alguém ao inferno somente porque nunca tenha ouvido falar de Jesus, ou porque tenha sido evangelizado erradamente – o que não é raro acontecer.[8] Semelhantemente, seria uma tremenda injustiça que aqueles que nunca ouviram falar de Jesus fossem julgados por suas obras (e inevitavelmente condenados!) enquanto os que foram evangelizados pudessem ser salvos de outra forma, somente pela fé. Mas, caso fosse possível alguém ser salvo pelas obras, surge uma nova questão: Para que então evangelizá-los? E se, ao contrário, as obras não podem salvar, porque Deus permite que bilhões morram sem nunca terem ouvido falar de Cristo? Como se vê, não importa qual seja a resposta tradicional escolhida – ela trará consigo novas questões, ainda mais constrangedoras e ainda mais perturbadoras.

Antes de prosseguir, devo confessar que não é nada fácil escrever essas linhas. Suponho que leitores desatentos questionarão minha fé e aqueles que não me conhecem pessoalmente duvidarão de minhas corretas intenções. Fanáticos religiosos provavelmente me condenarão pelo que revelarei aqui, mas, como disse Lutero, “fazer algo contra a própria consciência não é seguro e nem saudável”.[9] Desta forma, decido por não mais ocultar minhas convicções acerca da salvação, convicções das quais fui persuadido após anos de investigação, muita oração e profunda meditação em Cristo. Não que a verdade esteja escondida ou distante de cada um de nós, mas o fato é que nós mesmos a soterramos debaixo de dogmas que nos apressamos em aceitar.[10] E depois nos tornamos apenas mais um entre milhões de acomodados que não tem disposição ou coragem para questionar as incoerências da religião em que dizem crer. Feita essa ressalva, arrisco-me a compartilhar a descoberta que desvendou por completo o que chamo de enigma da salvação:

“Se somente Jesus salva, o que ocorre com aqueles que nunca ouviram falar de Jesus? Seria justo Deus condená-los por algo que eles ignoravam?”

Essa intrigante questão começou a ser elucidada somente quando me dei conta daquilo que deveria ser óbvio para qualquer cristão: se de fato cremos que Jesus é a encarnação da verdade, deveríamos examinar primeiramente o que ele nos ensinou acerca da salvação e não o que outrosacrescentaram acerca do assunto. Estranhamente, não é o que tem feito a maioria dos teólogos, razão pela qual seus escritos não puderam me ajudar na solução desse problema. Ora, o que esses teólogos deveriam fazer (mas não fazem) é simplesmente isto: investigar o que é a salvação segundo os ensinamentos de Cristo – baseados no que o próprio Jesus disse – ao invés de se prenderem ao que disse Agostinho, Tomás de Aquino, Calvino, ou qualquer outro pensador do cristianismo. Não os estou desprezando, pois eles tiveram seus méritos e muitos de seus escritos são admiráveis, porém não infalíveis. A palavra final é a de Cristo – ou, pelo menos, é como deveria ser para quem se declara cristão.

Percebi então que a análise da salvação segundo Jesus Cristo exigiria uma especial releitura dos evangelhos – uma releitura desprovida de preconceitos dogmáticos e com particular atenção às passagens concernentes à salvação. E foi durante essa maravilhosa empreitada que a solução começou a surgir, lenta e progressivamente, tal como a luz do alvorecer, que nos faz enxergar o que se ocultava pela escuridão. Para minha surpresa, alívio e angústia, deparei-me com ensinamentos de Cristo que, quando lidos sem as lentes do dogmatismo religioso, me pareceram novos e reveladores.[11] São versículos bastante claros e que – se estão mesmo dizendo o que parecem dizer – nos apontam o caminho da salvação, com implicações que antes eu não havia me dado conta![12] Como exemplo, convido você a meditar nas seguintes asseverações de Cristo:
“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.” (Mateus 5:7)

“Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus.” (Mateus 5:8)

“Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.” 
(Mateus 5:9)

“Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.” (Mateus 5:10)

“Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos.” (Mateus 5:44-45)

“Se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará” 
(Mateus 6:14)

“Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e com a medida com que tiverdes medido vos medirão também.” 
(Mateus 7:1-2)

“Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. Porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me hospedastes; estava nu, e me vestistes; enfermo, e me visitastes; preso, e fostes ver-me. Então, perguntarão os justos: Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e te demos de beber? E quando te vimos forasteiro e te hospedamos? Ou nu e te vestimos? E quando te vimos enfermo ou preso e te fomos visitar? O Rei, respondendo, lhes dirá: Em verdade vos afirmo que, sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.” (Mateus 25:34-40)

“Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus.” (Lucas 6:35)

“Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (Lucas 6:37)

“Faze isto e viverás.” (Lucas 10:28) [Onde “isto” é a prática do amor ao próximo e “viverás” tem o sentido de salvação, como se pode comprovar examinando-se o contexto: Lc 10:25-28]

“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.” (Mateus 7:21 – Comparar com João 15:12, passagem na qual o Senhor declara que sua vontade é que nos amemos uns aos outros)
Espero que você não tenha ignorado a leitura dos versículos acima e nem desprezado as suas implicações. Todos eles tratam de sermos perdoados por Deus, de entrarmos em seu reino, de sermos seus filhos, de termos vida, de sermos salvos! São versículos que tratam da nossa salvação.[13] A lista que acabo de apresentar não é exaustiva, mas é suficiente para tornar claro que, segundo Jesus Cristo, a salvação nada tem a ver com a crença em dogmas, ou com estar filiado nesta ou naquela religião, pois o assentimento intelectual não é o que mais importa.[14] A salvação, segundo Jesus Cristo, é muito mais uma questão de ser do que de saber, tem muito mais a ver com quem você é do que com aquilo em que você acredita.

O que estou afirmando não é de particular interpretação. Qualquer um que se dedique a ler os evangelhos com o mesmo desprendimento, ou seja, como se nada soubesse acerca de teologia, também perceberá aquilo que se tornou evidente para mim: que, tanto por suas palavras quanto por suas ações, Jesus nos ensinou que a salvação não consiste em crenças, mas em permanecermos no amor de Deus. Não falo daquele amor pejorativo, que costuma ser sentimental e interesseiro, mas do amor puro, sublime, abnegado, prático, que resulta em ações de misericórdia, humildade, arrependimento e perdão. Esse é o verdadeiro amor, manifestado de modo pleno na pessoa de Cristo, precisamente porque o amor é a essência do próprio Deus.[15]

Perceba que esse amor, do qual estou falando, está implícito em cada um dos versículos acima. Caso não o tenha notado, recomendo e insisto que você pare agora mesmo e releia cada um dos ensinamentos de Cristo que destaquei. Observe que o amor é o fator de motivação comum a todos esses versículos que tratam da salvação. Quem ama se arrepende do mal, não julga, não condena, perdoa, pede perdão, age com misericórdia e compaixão, promove a paz, compartilha o que tem...

Sendo assim, podemos aventar que qualquer pessoa que se permita guiar pelo amor permanecerá no caminho da vida, pois estará seguindo a Cristo, que é o Caminho. E tal fato, de atender ao chamado do amor, pode ocorrer a qualquer um, em qualquer época e lugar, mesmo com aqueles que jamais tenham ouvido falar de Jesus! Em contrapartida, todos que rejeitaram andar no caminho do amor são indesculpáveis perante Deus, pois ainda que não tenham ouvido falar de Cristo, ouviram sua voz em seu próprio coração, chamando-os ao arrependimento, à tolerância, ao perdão e à compaixão.

Sei muito bem que, a princípio, tal pensamento parecerá heresia. Mas somente a princípio, pois quando nos lembramos da grandiosidade do Cristo nossa mente se abre para compreendermos tamanha verdade. O problema é que quase sempre nos esquecemos disso! Receio que o nome Jesus tenha se tornado tão comum aos nossos ouvidos ocidentais, e tão limitado pelo próprio cristianismo, que talvez seja necessário relembrarmos a dimensão de sua pessoa. Sendo assim, considero importante fazermos um breve parêntese para relembrarmos quem é o Cristo.

Se pensarmos em Jesus apenas como alguém que esteve no mundo durante pouco mais de trinta anos, e limitado ao território da Palestina, cometeremos um grande e terrível equívoco. Bem, ao menos no que diz respeito à salvação. Não é por acaso que o evangelho segundo João, o mais místico dos evangelhos, esclareça o assunto logo em seu início. O Jesus ao qual esse autor se refere não é somente o Nazareno, mas é na verdade o Logos de Deus [16] que age no mundo desde a sua criação: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez.” (João 1:3) Sendo assim, João introduz seu evangelho nos recordando que não é o conhecimento histórico do Jesus de Nazaré que nos salva,[17] mas a permanência em sua essência divina,[18] a qual o fez reconhecido como Cristo, o Ungido de Deus. É fundamental que não esqueçamos dessa premissa, a qual considero importante destacar:

Não é o conhecimento histórico do Jesus de Nazaré que nos salva, mas a permanência em sua essência divina, que é o mais puro amor.

O mesmo autor também nos recorda que o Logos – geralmente traduzido como Verbo – é o próprio Deus e que Deus é amor (João 1:1 e 1João 4:8). Mais adiante, em sua primeira epístola, João simplificará a salvação numa única e surpreendente frase: “Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (1João 4:16) Se esse versículo está mesmo dizendo o que parece dizer, qualquer um que permanecer no amor permanecerá em Deus e, ainda que não saiba, Deus permanecerá nele! Mas, como pode ser isso?

Creio que o Eclesiastes nos dá uma boa pista. Ao mesmo tempo em que esse livro bíblico nos recorda o evidente fato de que um dia nossa carne retornará ao pó, o Eclesiastes também revela algo surpreendente: que o nosso espírito voltará para Deus, que o deu (Eclesiastes 12:7). Logo, nossa origem está em Deus! E quem é Deus? Ora, segundo João, Deus é amor – fato que ele insiste afirmar! E alguém se atreve a dizer que João estava equivocado? Desta forma, o amor é a nossa verdadeira essência, a porção de Deus em cada ser humano. Ainda que o Logos, o Verbo de Deus, só tenha se revelado plenamente na pessoa de Jesus, o fato é que todos os homens, em todas as épocas e lugares, nasceram com uma parcela do mesmo Ser, que é amor, e tiveram a chance de permanecer vivendo em sua presença, ou seja, guiados pelo amor.[19]

De fato, o mesmo Cristo que proclamou ser a luz do mundo, afirmou que nós também somos a luz do mundo! (Mateus 5:14 e João 8:12) A plenitude da luz divina foi revelada em Jesus Cristo, mas ela também brilha, com maior ou menor intensidade, em cada um de nós. Se nós não o desprezarmos, o amor de Deus nos iluminará cada dia mais, tornando-nos uma bênção e abençoando a todos ao nosso redor. Essa luz divina que há em cada um de nós precisa brilhar, pois que é a razão maior do nosso existir (Mateus 5:16). O problema é que, na medida em que crescemos e nos envolvemos com as coisas desse mundo, ficamos sujeitos a nos afastarmos desse amor, assim como na parábola daquele filho pródigo, o qual trocou o amor do Pai por prazeres efêmeros e ilusórios. Mas um dia ele caiu em si, se arrependeu e humildemente passou a trilhar o caminho de volta. De igual forma, a partir do momento em que nos damos conta de que a ganância, o egoísmo e o orgulho contaminaram nosso coração, obscurecendo a luminescência do amor de Deus, tudo que devemos fazer é retornar ao princípio, à pureza de quando éramos pequeninos, pois, como disse Jesus, “dos tais é o reino de Deus”(Marcos 10:14). Logo, não pode haver salvação sem um coração livre de malignidade, razão pela qual o Senhor também advertiu:“Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.”(Mateus 18:3) Deste modo, estou convencido de que esse processo de conversão, ou seja, de seguir pelo caminho de retorno a Deus, não é outra coisa senão trilhar o apertado caminho do amor  – o caminho sobremodo excelente do qual nos falou Paulo de Tarso (1Coríntios 12:31;13:1-13). Por outro lado, a indiferença e o ódio representam o largo caminho das trevas e da autodestruição.

Dito isso, podemos concluir que Deus não lança ninguém no inferno, mas é o próprio ser humano que mergulha no tormento ao rejeitar o amor no qual deveria viver, deixando assim de andar nesse caminho de salvação.[20] Mas aquele que permanece no amor permanece em Deus e, enquanto assim permanecer, continuará salvo. Jesus salientou essa verdade durante todo o seu ministério, tanto por palavras quanto por ações. Cristo nos ensinou o tempo todo um só caminho de salvação: o caminho do amor, sendo ele mesmo, Jesus, a expressão máxima desse amor. Quem não ama está errando o alvo da sua existência, está se perdendo, pois não tem a Deus, que é amor.

Como não poderia deixar de ser, tal ensinamento de Cristo também se reflete nas epístolas:
“A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei. Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. O amor não pratica o mal contra o próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor.” (Romanos 13:8-10)

“E eu passo a mostrar-vos ainda um caminho sobremodo excelente. Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei.  E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. [...] Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três; porém o maior destes é o amor.” (1 Coríntios 13:1-3,13)

“Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma.  Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” (Tiago 1:21-22)

“Se vós, contudo, observais a lei régia segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, fazeis bem” (Tiago 2:8)

“Porque o juízo é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o juízo.” (Tiago 2:13)

“Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta.” [Onde “obras” são atitudes práticas de amor ao próximo] (Tiago 2:14-17)

“Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor.” (1 João 4:8)

“Ninguém jamais viu a Deus; se amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós, e o seu amor é, em nós, aperfeiçoado.” (1 João 4:12)

“Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele.” (1 João 4:16)

“Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Ora, temos, da parte dele, este mandamento: que aquele que ama a Deus ame também a seu irmão.” (1 João 4:20-21)
Há muitos outros versículos que não estão aqui relacionados, posto que tornariam minha tese por demais extensa. E, devo enfatizar, minha tese resume-se nisto: Jesus nos ensinou, tanto por suas palavras quanto por suas ações, que o caminho da salvação é o amor. Não qualquer tipo de amor, mas o amor ágape, ou seja, o amor de Deus em nós. Por ser uma palavra grega que expressa o amor na prática, o termo ágape aparece traduzido como caridade em algumas versões mais antigas. No entanto, ágape é algo muito mais profundo do que apenas caridade. Como disse Paulo,“ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres [...] se não tiver amor, nada disso me aproveitará.” Portanto, não é meramente o fazer caridade que nos salva, mas o amor desinteressado que nos move a fazê-lo. Isso precisa ser enfatizado: Não somos salvos pelas obras, mas somos salvos por Deus, que é amor, o qual nos motiva a praticar boas obras. Paulo nos revela as características desse amor divino, o qual existe (ou que deveria existir) em cada um de nós e no qual devemos permanecer (ou retornar, no caso de estar esquecido): “O amor [ágape] é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba.” (1 Coríntios 13:4-8)

Somos salvos por esse verdadeiro e puro amor, que é a própria essência de Deus. Do contrário, não poderia estar escrito que “aquele que permanece no amor permanece em Deus, e Deus, nele” (1 João 4:16). Leia novamente esse versículo. Procure meditar em sua profundidade e, principalmente, em suas implicações, que são surpreendentes! “Aquele que permanece no amor...”declarou João, e não aquele que permanece numa determinada instituição religiosa, ou numa crença intelectual qualquer. Certamente por esse motivo Jesus não se importava tanto com o credo das pessoas, mas preocupava-se apenas em conduzi-las ao verdadeiro amor de Deus, sendo ele mesmo, Jesus, a maior expressão e prova desse amor. O que digo pode ser facilmente comprovado pela simples releitura dos diálogos evangelísticos de Jesus nos evangelhos.[21]

Sei que a tese que defendo também origina novos questionamentos. A seguir, tentarei esclarecer possíveis dúvidas que o leitor talvez já esteja se fazendo.
Mas e a salvação pela fé? Não há contradição aqui. O problema é que o conceito de fé costuma ser equivocado. Fé em Deus, ou em Cristo, significa estar em sintonia com a sua vontade. E a sua vontade, como vimos, resume-se na prática do amor. Sendo assim, a fé é o instrumento pelo qual somos motivados a amar. Se eu não confiasse no amor de Deus que há em mim eu não continuaria amando. Quem segue o amor tem fé em Deus, ainda que não se dê conta disso. Logo, a fé salvadora não é a fé intelectual que alguém diz possuir, mas é a fé prática que podemos perceber através das obras de amor. Por isso Tiago escreveu que “uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente.” (Tiago 2:24) Muitos confundem fé com crença – e suspeita-se que Tiago não estivesse criticando a fé, mas a crença que erradamente chamam de fé. Para Tiago, a verdadeira fé evidencia-se nas obras. A crença, por outro lado, está em meramente acreditar que Jesus existiu, mas a fé consiste em seguir seus ensinamentos, que se resumem na prática do amor. Somente alguém que está em sintonia com o amor de Deus consegue amar até o seu inimigo, porque esse alguém sabe, no seu íntimo, que o bem vence o mal e que o amor vence o ódio.

Mas e o arrependimento de pecados? Mais uma vez, não há contradição aqui. O verdadeiro amor sempre nos conduz ao arrependimento. Quem ama se arrepende do mal, quer tenha sido esse mal cometido contra o próximo, ou contra si mesmo. Sem amor não há arrependimento e sem arrependimento não há salvação.

Mas e o sacrifício de Jesus na cruz? De maneira alguma a salvação pelo amor anula a mensagem da cruz, ou nossa justificação pelo sangue de Cristo. Em primeiro lugar, o sacrifício de Jesus foi a maior prova do amor de Deus pela humanidade! Não há nada que possa superar tamanha prova de amor. Se Jesus houvesse recuado seu amor não seria perfeito, pois ele não teria nos amado até o fim (João 13:1). Mas ele não recuou e tornou-se, por seu exemplo sacrificial, o caminho seguro para nossa salvação. O amor como caminho de salvação não anula a cruz de Cristo, muito pelo contrário, a cruz é o maior emblema do amor de Deus. Mas o sacrifício de Jesus perde o sentido se não compreendermos que ele morreu daquela forma por amor e para nos servir de inspiração em amar ao próximo. João compreendeu perfeitamente essa verdade: “Nisto conhecemos o amor: que Cristo deu a sua vida por nós; e devemos dar nossa vida pelos irmãos.” (1João 3:16)

Mas e a redenção por meio do sangue de Jesus? Esse é um ponto delicado, no qual me detive meditando e orando por muito mais tempo. Não tenho a menor dúvida de que Cristo seja o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. As escrituras bíblicas afirmam isso de maneira muito direta, não se trata de uma questão de interpretação. No entanto, creio que o conceito de que só há possibilidade de salvação para quem souber o que Jesus fez para nos redimir é um conceito equivocado. Acreditar nisso é condenar milhões (talvez bilhões) de almas ao inferno somente porque nunca sequer ouviram o nome de Cristo. Ora, para que o evangelho seja realmente uma boa nova o sangue de Jesus precisa dar oportunidade de salvação a toda a humanidade, mesmo àqueles que nunca ouviram falar dele. Do contrário, que chance de salvação haveria para os que nasceram antes de Cristo, ou para os que vivem nos lugares mais inóspitos, aonde nunca chegou o evangelho? Logo, é o sangue de Jesus derramado na cruz que possibilita salvação a todos que andarem no caminho apontado pelo próprio Cristo, ou seja, o estreito caminho do amor. Ele morreu a nossa morte para que todos os que andarem segundo ele andou possam ter vida, mesmo aqueles que nunca sequer ouviram seu nome. Isso não quer dizer que todos estejam salvos, mas sim que há possibilidade de salvação para todos que se arrependerem do mal e persistirem na prática do amor. E, graças a Deus, há pessoas assim em todas as partes do mundo, bem como em todas as épocas da história humana – pessoas que foram redimidas pelo sangue de Jesus, mesmo que jamais tenham se dado conta disso. Isso sim é uma boa nova!

Mas e os escritos de Paulo? Ora, Paulo, ao negar a salvação pelas obras, não negou que o amor seja o caminho da salvação. Nós é que não temos compreendido muito bem suas cartas, de modo que tem sido cada vez maior o número de teólogos que admitem essa possibilidade. Nessa nova perspectiva sobre Paulo o que se analisa é o sentido que a palavra “obras” tinha na mente desse apóstolo. O que muitos teólogos atualmente suspeitam é que Paulo não estaria se referindo a obras de amor, mas a obras de religiosidade. Não fosse assim ele mesmo seria contraditório. Paulo nunca negou a salvação pelo amor, do contrário jamais poderia ele ter dito que o amor é o caminho sobremodo excelente, tão excelente que o próprio Paulo o exaltou acima da própria fé (1 Coríntios 13:2,13). A compreensão disso acaba com a desarmonia entre as cartas de Paulo e a carta de Tiago, o qual escreveu que “uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente.” (Tiago 2:24) Enquanto Paulo combatia as obras de religiosidade, Tiago defendia as obras de amor. Portanto, não há desarmonia entre eles.

Mas e o reino de Deus? Antes de tudo, precisamos esclarecer que a proclamação feita por Jesus de que “o reino de Deus [ou reino dos céus] está próximo” significava que esse reino é “acessível” aos homens quebrantados de coração, que se arrependem do mal. Não significa próximo no sentido de tempo, mas no sentido de estar ao nosso alcance. Por isso ele dizia que o reino estava mais próximo de uns do que de outros. O convite a entrarmos no reino de Deus, ou reino dos céus, é o convite a uma vida centrada no amor de Deus. Onde o amor impera, Deus reina. Sendo assim, o reino dos céus não é algo que se deva esperar somente para depois da morte, mas uma realidade que começamos a experimentar em vida! Por isso Jesus disse ao intérprete da Lei que ele não estava longe do reino de Deus. E por que não estava longe? Não porque fosse morrer em breve, mas porque esse escriba havia compreendido que o amor é a vontade de Deus para os homens. Agora faltava apenas que ele vivesse esse amor, passando da teoria para a prática -“Faze isto e viverás”! (Lucas 10:28)

Mas o caminho da salvação não é apertado? Em momento algum argumentei que o amor é um caminho largo. Muito pelo contrário! Largo é o caminho de uma religiosidade hipócrita, que se baseia em crenças e confissões, mas não em atos de amor ao próximo. Não poucas vezes Jesus demonstrou-se indignado com a hipocrisia religiosa. É bastante evidente nos evangelhos a insistência de Cristo nas ações e não meramente nas palavras: “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando? [...] Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros.” (Lucas 6:46 e João 15:17)Por isso mesmo Tiago escreveu que “se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã. A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo.” (Tiago 1:26-27)

Mas e a necessidade de evangelizar e de fazer missões? Ora, quanto mais compreendemos a verdadeira mensagem de Cristo mais percebemos a urgência de se ensinar o que ele ensinou. Milhões estão se perdendo por não viverem no caminho do amor, mesmo entre os que se dizem cristãos. E isso é gravíssimo! A igreja precisa despertar para o fato de que sua missão não é fazer discípulos do cristianismo, mas fazer discípulos de Cristo.[22] Isso nada mais é do que ensinar às pessoas o que Ele nos ensinou, ou seja, que devemos andar no caminho do amor – em arrependimento, perdão, misericórdia – pois esse é o estreito caminho da salvação. Imagine como seria diferente o mundo se nossos irmãos falassem do amor (e não de sua religião) como caminho de salvação, apontando para Cristo como exemplo maior desse amor, ao invés de julgar e condenar o próximo por ele não ser da mesma crença religiosa! Logo, o amor é a mensagem mais urgente para todos os povos, sendo Jesus o maior exemplo e prova do amor de Deus por toda a humanidade. O amor - e somente o amor - ignora muralhas, ultrapassa fronteiras, despreza rótulos, vence preconceitos, pacifica povos, ameniza sofrimentos, se perpetua por séculos, milênios e para além da nossa era... O amor nunca falha, porque, assim como Deus, o amor é eterno.
Bem, chegamos à conclusão desse longo texto. Na realidade, ele é o resumo de algo maior que estou preparando, uma obra literária na qual pretendo pormenorizar minha tese. Aliás, é importante lembrar: trata-se de uma tese. Não sou o dono da verdade e nem tenho a pretensão de sê-lo. No entanto, é a resposta mais coerente que encontrei para o enigma da salvação, uma resposta que encontrei em Cristo, por meio de Cristo e para glória de Cristo. Digo isso porque tenho plena convicção de que não cheguei até aqui por mim mesmo, mas que devo tudo a Ele, que me conduziu por sua eterna Palavra e seu santo Espírito. Assim creio. Mas pode ser – e provavelmente será – que muitos contestem os argumentos aqui apresentados, mesmo sendo eles tão fortemente fundamentados no que nos ensinou o próprio Senhor Jesus Cristo. Ao fazê-lo, que tão somente os críticos não esqueçam de que isso nos levará de volta para alternativas incômodas, obviamente incorretas, que deturpam a imagem de Deus, fazendo-o parecer desleal, incompetente, irresponsável, ou sádico. De minha parte, sei que Deus não pode ser assim. Prefiro aceitar o simples e maravilhoso fato de que Deus é amor, e que somente Ele, o divino amor, é o caminho da verdadeira vida e a resposta para o enigma da salvação. 

Alan Capriles

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P.s.: Para melhor entendimento, aconselho a leitura de todas as notas de rodapé.
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NOTAS

[1] Que o leitor não pense que desprezo a teologia ou que bons teólogos não tenham nada a nos ensinar. Minha crítica se restringe, ao menos nesse texto, à ineficácia da teologia tradicional em responder algumas questões concernentes à salvação.

[2] Um exemplo da resposta que a teologia tradicional oferece para essa questão da salvação é o artigo "O que será dos que nunca ouviram" onde o autor conclui que os que nunca ouviram falar de Jesus não tem a menor chance de salvação. As incômodas e absurdas implicações dessa conclusão sequer são levantadas pelo autor do texto, razão pela qual decidi escrever uma réplica, a qual será publicada em breve.

[3] Aconselho a leitura de "Deus não pode ser assim", artigo onde analiso um vídeo que satiriza o tipo de deus que essas ideias deturpadas acabam criando.

[4] Os Calvinistas certamente contestarão essa última assertiva, alegando que Deus não criou ninguém para o inferno, mas que foi o próprio homem que selou seu destino desde Adão e Eva. Sendo assim, segundo eles, Deus não estaria sendo injusto, pois os homens merecem morrer, mas, ao contrário, Deus estaria sendo misericordioso com aqueles que ele mesmo escolheu agir com misericórdia, salvando-os por meio de Jesus Cristo. Um exemplo clássico que os Calvinistas dão sobre isso é o seguinte: imagine que duas pessoas lhe devam 100.000 reais, mas nenhuma delas tem condições de lhe pagar. Você então decide perdoar uma dívida, mas não a outra. Seria isso injustiça de sua parte? Não, pois nenhuma das duas merecia o seu perdão. Então você não está sendo injusto com uma das pessoas, mas está sendo misericordioso com a outra. É mais ou menos assim que os Calvinistas pensam a esse respeito. No entanto, o problema é que se Deus agisse dessa forma ele estaria fazendo acepção de pessoas, o que contraria a natureza do seu caráter. Se ele quer ser misericordioso, por que perdoaria somente um e não os dois? Pensemos um pouco. Se um homem misericordioso não faria tal acepção de pessoas, quanto mais Deus! Mas, supondo que Deus agisse assim, pergunto: isso não seria o mesmo que ser sádico, destinando ao inferno pessoas que ele poderia salvar, se quisesse?

[5] Chama-se de "ortodoxa" a visão teológica que prevaleceu no cristianismo, o que não significa que ela esteja necessariamente certa apenas porque foi abraçada pela maioria. Aliás, a própria Bíblia nos mostra que a maioria costuma estar equivocada. O historiador e estudioso da religião Philipe Jenkis comenta que a formação da ortodoxia "foi uma questão política, moldada pelo acaso geográfico e sucesso militar. Só porque uma visão tornou-se ortodoxa não significa que foi sempre e inevitavelmente destinada a alcançar essa posição" (Guerras Santas, ed. Leya, pág. 19). Devo ainda esclarecer que não estou usando esse termo para referir-me à igreja ortodoxa, pois fazê-lo seria uma injustiça: "As igrejas ortodoxas rejeitam o conceito agostiniano de pecado original, expressão que nem sequer existe na patrística grega, e veem a salvação como uma escala de melhoramento espiritual e purificação da natureza tanto humana como geral, que foi danificada na queda." (wikipedia.org/wiki/Salvação)

[6] Como exemplo desse triste conformismo transcrevo o comentário que alguém postou em um site reformado, cujo artigo dava a entender que aqueles que nunca ouviram falar de Jesus estariam condenados ao inferno:
"Hmm... Não estou dizendo que essa interpretação da bíblia é errada, pelo contrário, é exatamente isso que ela diz, temos que nos conformar...Mas fico pensando em alguns problemas que emergem dessa interpretação:
- E as pessoas que nunca ouviram, e nunca ouvirão sobre o evangelho? Ví algumas explicações de David Platt sobre isso, e ele disse que já que somos todos pecadores, logo somos todos merecedores do inferno e seria justo mandar essas pessoas para lá por esse motivo. Mas, no íntimo do meu ser essa explicação não me convence. Quer dizer que alguns são privilegiados de ouvir a palavra de Deus, nascer no país certo e fazer parte de uma cultura certa, enquanto outros simplesmente não tem essa oportunidade?
- Já ouviram falar dos "cristãos ateus", e dos "ateus cristãos"? Basicamente são cristãos que vivem como se Deus não existisse, e ateus que vivem como se Deus de fato existisse. Não vejo problema algum em Deus salvando uma pessoa pela sua postura aqui na terra (não confunda com salvação pelas obras, me refiro a predisposição de seguir a luz que lhe foi dada), ao invés de salvá-la julgando se ela creu ou não nas coisas certas (que por sinal, em um mundo cada vez mais diversificado, fica extremamente difícil de diferenciar o que é verdade e o que não é).
E ai, alguém pode me ajudar?"
Eu tentei ajudá-lo, respondendo ao seu comentário, mas o moderador do site "Voltemos ao Evangelho" censurou minha resposta, mesmo estando isenta de qualquer conteúdo ofensivo ou irônico.

[7] Sócrates, em seu "Diálogo com Alcibíades", exemplificou essa mesma verdade, nos lembrando de que "assim como um espelho é mais claro, mais puro e mais brilhante do que a imagem refletida, o divino é também uma realidade mais clara, mais pura e mais brilhante do que aquilo que há de melhor na alma."

[8] É bastante comum que pessoas "aceitem" Jesus e desprezem seus ensinamentos, como se fosse possível recebê-lo como Salvador, mas rejeitá-lo como Senhor. Ora, a verdadeira fé conduz à obediência.

[9] Recorro a Martinho Lutero porque também ele foi incompreendido em sua época e perseguido por teólogos que se diziam ortodoxos. A citação é parte do que ele declarou na Dieta de Worms, em 22 de Janeiro de 1521.

[10] "Dogma é um termo de origem grega que significa literalmente “o que se pensa é verdade”. Na antiguidade, o termo estava ligado ao que parecia ser uma crença ou convicção, um pensamento firme ou doutrina. Posteriormente passou a ter um fundamento religioso em que caracteriza cada um dos pontos fundamentais e indiscutíveis de uma crença religiosa. Pontos inquestionáveis, uma verdade absoluta que deve ser ensinada com autoridade. Além do cristianismo, os dogmas estão presentes em outras religiões como o judaísmo ou islamismo. Os princípios dogmáticos são crenças básicas pregadas pelas religiões, que devem ser seguidas e respeitados pelos seus membros sem nenhuma dúvida." (significados.com.br/dogma)

[11] "Para minha surpresa, alívio e angústia" - "Surpresa" porque a verdade estava diante de mim o tempo todo. "Alívio" porque agora sei que há possibilidade de salvação para muitos que a religião erradamente sentenciava como perdidos. E "angústia" porque tal descoberta contraria o ensino da teologia ortodoxa. Por mais estranho que pareça, ao defender o que Jesus ensinou a repeito da salvação estou incorrendo no risco de ser chamado de herege até por aqueles que considero meus amigos. E isso é muito angustiante...

[12] O termo “caminho” era perfeitamente compreendido pelos primeiros discípulos como a prática cotidiana do que Cristo nos ensinou. Eles procuravam andar no caminho, isto é, na prática do amor ao próximo - esse amor que os caracterizava é um fato historicamente comprovado, tanto por escritores cristãos, como Tertuliano ("Vede como se amam!"), quanto por seus opositores, tais como Luciano de Samósata, que zombava desse amor desinteressado. Não é por acaso que muito antes de serem apelidados de cristãos os discípulos de Cristo eram chamados de “os do Caminho”, significando que eles andavam (viviam) segundo o caminho (ensino) proposto por Jesus. Confira Atos 9:2; 18:25,26; 19:9,23; 24:14,22. 

[13] Examinarei melhor cada um desses versículos e suas implicações soteriológicas em artigo posterior, o qual terá seu link aqui divulgado.

[14] Se nossa salvação dependesse do assentimento intelectual, como poderiam salvar-se aqueles que têm problemas mentais?

[15] "Ágape" é o termo específico em grego (língua original do Novo testamento) que descreve o amor em sua forma mais pura. É desse tipo de amor que estou tratando aqui. Lamentavelmente a língua portuguesa não possui um termo adequado para tal descrição, restando-nos somente a palavra amor.

[16] "Logos" é um termo grego, que é traduzido nas versões em português como "Verbo" ou "Palavra". "Dizer que no princípio é a Palavra, é dizer que o que é primeiro é da ordem da relação. Entre o aleph, o incognocível e a criação, há esta Palavra, este diálogo, este Logos que estabelece a dualidade e no mesmo movimento convoca e torna possível a Unidade, não a unidade indiferenciada ou fusionar, mas a unidade da relação: o Amor." (LELOUP, Jean-Yves - O Evangelho de João - Ed. Vozes, pág. 160.)

[17] "Não é o conhecimento histórico do Jesus de Nazaré que nos salva" - Talvez por saber disso Paulo não tenha dado muita importância ao Jesus histórico, fato que ele parece confirmar em 2Coríntios 5:16.

[18] Note como o verbo "permanecer" é largamente utilizado por João, assim como Paulo usou o termo "em Cristo" para significar a mesma coisa: uma vida em total imersão no divino, que deve permear nossas ações e motivações.

[19] Justino Mártir, um dos primeiros "pais da igreja", compreendia isso perfeitamente. Por exemplo, "dizia ele que Heráclito passara sua existência em tanta conformidade com o Logos que, assim como Sócrates, merecia ser chamado de cristão." O entendimento que Justino alcançara acerca da salvação em Cristo foi assim resumido por Campenhausen: "Deus havia agido em todas as épocas e entre todos os povos. Ele havia, em todas as épocas, revelado aos povos, fora dos limites do povo judeu, fragmentos e partes de sua verdade. Mas em Jesus Cristo a sua razão eterna havia se manifestado de forma definitiva. [...] Para Justino, toda a história do espírito humano se resumiu e foi consumada em Cristo. [...] Cristo era o Logos, isto é, a própria razão divina, a qual Deus Pai admitiu sair de si mesmo sem a diminuição do seu próprio ser. Através dEle foi também realizada a criação do mundo. E sendo a 'Palavra' de Deus, o Logos foi capaz de no final até mesmo assumir a forma de carne humana, a fim de ensinar aos homens a verdade e a sabedoria perfeitas." (CAMPENHAUSEN, Hans von - Os Pais da Igreja - Ed. CPAD, pág. 18)

[20] Aproveito para esclarecer que não sou universalista. Meu pensamento em relação ao inferno é que as almas que rejeitam o amor de Deus já são atormentadas e se assim deixarem seus corpos carnais apenas continuarão nessa mesma dimensão espiritual de tormentos, a qual chamamos de inferno. Se ao deixar o corpo em tal condição a alma será extinta neste inferno (tal como se extingui tudo quanto é lançado ao fogo) humildemente declaro que não sei. Apenas não vejo lógica alguma em que almas sofram eternamente por pecados cometidos tão brevemente - lembrando que qualquer período de tempo se torna ínfimo quando comparado à eternidade.

[21] Pretendo analisar os diálogos evangelísticos de Jesus em futuros artigos que, na medida em que forem publicados, terão aqui seus links divulgados.

[22] Para uma melhor compreensão do que quero dizer, sugiro a leitura de Discípulos de Cristo, ou Discípulos de Cristianismo?


6 comentários:

  1. Quanto mais conhecimento , mais será cobrado ....

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  2. Acredito que aqueles que não conheceram Jesus Cristo aqui na Terra , o conhecerão do outro lado , pois terão suas obras julgada por Ele "naquele dia".Acredito também que se praticaram o bem , de um coração espontâneo , terão o seu galardão.Pior é aquele que conheçeu a Verdade e não colocou em prática.Todas as obras serão mostradas , sejam boas ou más diante de Jesus. O amor Dele nesse momento não faltará e nem mudará , mas , a própria pessoa ao contemplar seus atos , entrará num sofrimento infernal , por ter sido tão negligente e descuidado aqui na Terra, e não tendo mais chance de consertar os seus erros : " como fiz aquela pessoa sofre"? Por que não pedi perdão? Por que não perdoei"? E assim por diante...também se alegrará com as boas obras Tudo isso dentro do conhecimento puro que o espírito possui desde eternidades.Sentirá em si própria todo o sentimento das pessoas a qual prejudicou aqui na Terra.: as decepções , os maltratos , as ofensas ,etc O que suas vitimas sentiram , a pessoa também sentirá a dor delas.

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    1. Irmã Sônia,

      Entendo o que a irmã expôs, porém eu confesso de mim mesmo que não possuo nenhuma obra boa que mereça crédito diante de Deus.

      Confesso, irmã, que sou repugnável aos olhos de Deus. Talvez aos teus eu possa ser um "santo homem de Deus", mas diante dos olhos de Deus que enxerga o coração, eu sou o pior dos pecadores. Se Hitler é sempre lembrado pelas atrocidades, eu confesso que sou pior do que ele, porque não tenho poder em minhas mãos como ele teve.

      Só Jesus para me salvar, minha irmã. Só aquele sacrifício na Cruz para zerar a conta do meu pecado para com Deus.

      E sobre meus contínuos pecados (que muitos chamam apenas de erros ou fraquezas), eu confesso que vou sofrendo a consequência deles...

      Um abraço.

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  3. Sei que não tem nada a ver com o tópico , mas ando observando uma mudança no clima pelo mundo , que está me deixando preocupada! Tenho 53 anos e nunca tinha presenciado fenomenos de maneira tão intensa como vem ocorrendo pelo mundo: fortes tempestades, calor ou frio em demasia, fenomenos relacionado ao mar, quantidade enorme de vulcões em atividade , quedas de meteoros e sinais nos céus pelo mundo ... O planeta já não é o mesmo ! Observem , há algo estranho acontecendo com esse planeta , principalmente nos oceanos! Desculpem sair fora do contexto !

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    1. Não tem problema em compartilhar uma opiniao fora do contexto.

      Eu penso que atualmente estamos sendo bombardeados por informacoes em tempo real, vindas de todo o lado do planeta.

      O que antes acontecia na distante China, nunca ficávamos sabendo... Sabemos mais de assuntos mundiais do que acontece com nossos vizinhos...

      O cúmulo desta velocidade de informacoes foi o tsunami no Japao. Em tempo real o mundo viu as ondas chegarem e destruírem algumas cidades japonesas.

      Antigamente nunca ficaríamos sabendo de tais notícias...

      Hoje, só se pararmos de assistir TV e navegarmos na internet, veremos que tudo volta ao normal. Pelo menos onde moro nao tem vulcao, nem meteoros passaram raspando. rsrsrsrs

      Abs!

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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Discordou de mim? Tua opinião é bem-vinda, mas seja educado. Somos todos aprendizes nesta vida, e ainda mais aprendizes de Cristo, a Palavra de Deus feito carne, que é fonte inesgotável de Vida e Verdade, o Único Caminho nosso à Deus!

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