Não raro, tenho pesadelo. Numa noite qualquer, senti
uma botina, sem pé ou perna, apertando meu pescoço. Por mais que tentasse
gritar, não consegui expulsar o demônio invisível, desencarnado, que me
oprimia sem palavra alguma. Meses depois, sonhei prestes a falar diante de
um grande auditório e de repente me deu um branco. Por mais que tentasse
achar o esboço da palestra, continuava perdido. Acordei sereno dos dois pesadelos,
todavia. Já tive tantos sonhos ruins que eles perderam a força de meter medo.
Eu tenho medo mesmo dos vivos. A língua covarde me
arrepia; maledicência carrega uma peçonha mortal; inveja acende faísca com
potencial de incendiar floresta. O mofino, mais perigoso do que qualquer
valente, alimenta suspeita, semeia desconfiança, revolve lodo.
A certeza do religioso me assombra. Ela
é intolerante, plena de empáfia, intimidadora. O religioso se considera o
mais hábil no manuseio da verdade. Perspicaz, rotula e condena quem ainda
não a compreendeu. O carola perpetua ódio porque os contraditórios,
os que argúem, ameaçam. Intolerância religiosa faz com que o curioso mereça ser
eliminado.
Me sobressalto com a militância de quem se considera
ungido. Ver-se eleito por uma divindade representa um grande perigo.
Considerar-se cidadão de um mundo onde habita gente superior, desumaniza. O que
se autoproclama herói não passa de um iludido, um deus com pés de barro
ou, quem sabe, pirilampo que se acha maior que a estrela D’alva.
Nos Estados Unidos, um jovem pastor me desconvidou de um
compromisso. Cancelou minha palestra porque um anônimo pressionou (qual
pressão, financeira?) para que eu não fosse recebido por ele. O tal anônimo
alegou que eu seria pernicioso à comunidade. Depois, não
custou, um teólogo brasileiro afirmou que eu devia ser evitado como um heresiarca.
Antes de receber o ultimato de não mais escrever para determinada revista, os
editores publicaram cartas cobrando a exclusão da minha coluna.
Esse processo de exílio começou há alguns anos, depois
que escrevi um texto em meio à terrível tragédia da hecatombe da Ásia. A
desgraça que assolou centenas de milhares no tsunami mexeu com vários
pressupostos da minha teologia. Expus dúvidas. Economizei afirmações no
desabafo. A reação contrária veio proporcional à minha crise. Dali em diante,
despertei para uma realidade que negava aceitar: o protestantismo
brasileiro, em sua esmagadora maioria, é fundamentalista, dogmático,
intolerante, obscurantista e pré-moderno.
Alguns amigos, sabendo dos vexames que passei, se
solidarizaram comigo. Tempos desconfortáveis. Me senti constrangido,
entretanto. Não gosto de angariar apoio estratégico. Não tolero me flagrar
instrumentalizando amizades antigas. Se o preço de continuar bem quisto for
essa saia justa, não sinto necessidade de continuar bem quisto entre pessoas
que desprezo.
Depois de tudo, só temo desaprender a diferença realidade
e pesadelo. Adoecerei se não separar um do outro. Se me surpreendo sabatinado
por fundamentalistas, que raciocinam a partir de cláusulas pétreas,
estarei sonhando? Se não concateno pensamentos e acabo sem argumento para
responder processos inquisitoriais, estou diante da realidade? Imagino como
reagiria diante de um jovem que abre sua teologia sistemática volumosa, cita
vários trechos, levanta o dedo rumo ao céu e ameaça: Ricardo, você está
consciente de que em outros tempos, nós poderíamos condená-lo à fogueira? Cabisbaixo,
suando e tremendo com a intimidação, fica a dúvida: estou em alguma igreja ou
no inferno? Se tal cenário for sonho, também não sei se prefiro acordar. A
realidade pode ser bem pior que o pesadelo.
Soli Deo Gloria
Esses dias me excluíram , me expulsaram praticamente , pois meu email lá não entra mais , de um site de uma certa denominação cristã , só por que minhas opiniões eram divergentes ao afirmar que "Jesus Cristo é filho de Deus e é também Deus"! Houve intolerância no mais alto grau. Fiquei muito triste não por que tenha me sentido rejeitada , mas por que esse ato tão deselegante veio de pessoas que se intitulam cristãos. Sinceramente , fui muito mais aceita num blog de ateus (mesmo com opiniões divergentes) em comparação a esse site. E o principal mandamento que Cristo nos pediu para que colocássemos em prática que é a Caridade? Tudo bem que as opiniões são divergentes , mas não temos o direito de tratar as pessoas dessa maneira. O amor , a tolerância o respeito tem que existir em nosso meio. Não entendo isso...
ResponderExcluirMas , como o Senhor me ensinou : Oremos uns pelos outros para que Deus derrame sobre todos nós mais e mais de sua LUZ!!
ExcluirTemdias que escrevo meus comentários , e horas depois me cai um arrependimento , pois dá impressão que estou julgando. E pode ser que esteja mesmo! Não gosto disso. Não por que sou perfeita ou quero ser perfeita , mas é para não ficar pior do que já sou , tão cheia de falhas , imperfeições ... etc.
ResponderExcluirPosso não cometer o mesmo erro deste ou daquele , mas cometo outros , enfim... Se DEUS me limpou de alguma coisa que praticava antes , e vejo esse mesmo defeito no meu próximo , como posso julgá-lo ? Isso é hipocrisia! Tenho que orar por ele... e orar por mim também para me dar forças para não recuar. Lembro da pergunta do Senhor Jesus : Até que ponto voce é capaz de amar o seu próximo mesmo conhecendo os seus defeitos? Acredito que aqui na Terra (o lugar da imperfeição) É O LOCAL BEM ADEQUADO para desenvolvermos o amor "incondicional" , o mais perfeito do amor! Amar um filho incondicionalmente é facil ... agora amar os filhos de Deus!?
ExcluirAcredito que esse é o objetivo , o aperfeiçoamento : o amor incondicional , o amor de Jesus Cristo! Só por Ele!
Excluir