03/10/2014

Como o caminho do Evangelho virou Cristianismo

O que será que Jesus tinha em mente quando disse aos seus discípulos que permanecessem em Jerusalém até que do alto fossem revestidos de poder?

Esperava Ele que após o derramar do Espírito eles ficassem Jerusalém? Que ali fizessem uma base? Que o lugar se tornasse um centro de decisões? Que ficassem e tentassem converter o judaísmo à fé de Jesus? Que buscassem tornar fariseus em discípulos fariseus? E fazer sacerdotes saduceus (a classe sacerdotal) tornarem-se discípulos sacerdotes? Será que Ele desejava que dali para frente o que quer que acontecesse em qualquer lugar tivesse que ser referendado pelo poder dos discípulos de Jerusalém? E que toda e qualquer expressão dos novos discípulos, de outros lugares, tivesse que ter o carimbo de autenticação feito no cartório de Jerusalém?


Paulo vai até eles, “aos de Jerusalém”, apenas duas vezes. Na primeira, vai constrangido pela bobagem dos motivos da ida, mas vai assim mesmo, buscando paz e a diminuição da opressão que ele mesmo sentia na pele, sendo sempre perseguido ou por fariseus em “missão” no estrangeiro, ou por cristãos judaizantes. Assim, em Jerusalém, Paulo consegue uma carta com algumas concessões para os cristãos gentios. Para Paulo era apenas uma tentativa de diminuir o conflito, mas, certamente, era uma carta básica demais para as alturas de entendimento pelas quais o espírito de Paulo já planava ao sabor do vento da Graça. Na segunda vez que lá esteve também fez de tudo para acalmar os “líderes de Jerusalém”, e até se submeteu a um “voto”, e raspou a cabeça, e foi fazer orações no templo, até que foi apanhado pelas autoridades judaicas que se deixaram levar pelas provocações de judaizantes que encontraram a Paulo na cidade, e que já o perseguiam desde há muito; e, assim, alegraram-se com a possibilidade de matar aquele piolho contra as paredes pedradas de Jerusalém.

Paulo acabou preso, tendo que se defender sozinho, sem contar com uma única voz apostólica a seu favor, e sem nenhuma aparente ação de Tiago — o líder de Jerusalém — ou de seus seguidores; e foi deixado à sorte e aos humores dos judeus.

Para mim, o desconforto de Paulo com a igreja de Jerusalém — e a ação deles em relação a Paulo — bem expressa o que ele cria que não deveria ter acontecido jamais. Paulo queria ver seus compatriotas convertidos e crendo em Jesus, mas não desejava que a fé tivesse um centro físico de decisões, um vaticano, que, efetivamente, foi aquilo no que a incipiente igreja de Jerusalém desejou fazer de si mesma: um centro de decisões para os demais cristãos.

Ora, a ordem de Jesus era para que se pregasse também em Jerusalém, mas que de lá se fosse pela judéia, por Samaria, e até aos confins da terra. Eles, todavia, ficaram, ficaram, e ficaram em Jerusalém. E de lá só começaram a sair quando da perseguição de Estevão, tempos depois. E logo retornaram; e logo lá se re-estabeleceram, a ponto de Tiago se orgulhar, dizendo a Paulo: “Vê, irmão, quanto milhares de milhares há entre nós que crêem, e são todos zelosos da lei”. O que para Tiago era uma alegria e uma vitória da fé, para Paulo, era, todavia, uma derrocada.

É insistente a rejeição de Paulo com relação ao papel cartorial e papal que a igreja de Jerusalém evocava para si mesma. O centro do poder!

Esta é uma demonstração simples de como o “poder do Espírito” — “permanecei na cidade até que do alto sejais revestidos de poder!” — pode, rapidamente, se transformar em poder político-religioso, mesmo que o argumento seja tão supostamente nobre quanto dizer: “É para regular a fé”.

Eu comecei fazendo a seguinte pergunta: O que será que Jesus tinha em mente quando disse aos seus discípulos que permanecessem em Jerusalém até que do alto fossem revestidos de poder?

Na minha opinião, Ele esperava que tudo quanto Ele havia dito antes acerca de como se deveria proceder, de cidade em cidade, fosse, agora, não mais “treinado”, como antes Ele os fizera experimentar — Mateus e Lucas narram esse eventos preparatórios —, mas sim, que agora, tudo aquilo fosse vivido como uma ação continua, num fluxo ininterrupto, num vai-e-vem constante, e como um poder que nunca tivesse um trono, nem uma cidade santa, nem um vaticano, nem um centro de poder.

Tudo o que Jesus queria era que os discípulos continuassem discípulos e que os apóstolos fossem os servos de todos. sem haver nem alguém maior, e, muito menos, um lugar mais santo, ou um centro de poder.

Eu vejo Paulo sendo acusado de ter criado o cristianismo. Que terrível acusação!

Não, não acusem Paulo disso. Pode-se dizer que dele vieram as elaborações e as conclusões “teológicas” acerca do significado daquilo que entre eles havia acontecido como fato histórico, mas que não tinha ainda tido sua síntese reflexiva e aplicativa feita por ninguém antes. Os apóstolos pregavam a salvação no nome de Jesus, mas não sabiam das implicações mais profundas da fé, e nem tampouco acerca da desconstrução religiosa que tal fé, sendo discernida, provocaria.

Acusem sim os “pais da igreja” e seus “mestres” de haverem feito doutrinas sobre as afirmações de Paulo, e de terem usado suas revelações acerca do “mistério antes oculto, agora, porém, revelado de uma vez por todas”, em um pacote de doutrinas que vieram a moldar o pensar do cristianismo, embora a prática religiosa posterior dos cristãos seja tão-somente filha do casamento da igreja de Jerusalém com as autoridades do templo, e com os legalismos dos fariseus “convertidos à fé”. A isso, posteriormente, se fez sincretismo, incorporando noções dos cultos de mistério dos gregos, abrindo-se também para as influências gnósticas, e adotando o método grego — mais precisamente o Aristotélico — a fim de ser o “modo científico” da igreja pensar e fazer teologia e suas filhas: as doutrinas.

Jesus não havia dito apenas “fiquem”. Mas sim “fiquem até que sejais revestidos de poder”.

Jesus esperava que o poder do Espírito os fizesse sair em desassombro pelo mundo, pregando a Palavra da Boa Nova, ensinando singelamente os discípulos a serem de Jesus em suas próprias casas e culturas. Desse modo, se teria sempre um movimento hebreu, crescente, progressivo, livre, levado pelo vento, guiado pelo Espírito, e completamente semelhante ao que eles haviam vivido com Jesus durante o caminho, naqueles três anos de estrada que construíram o Evangelho ao ar livre, nas praias da Galiléia, nos desertos da Judéia, nas passagens por Samaria, nas terras de Decápolis, e nas regiões onde os cachorrinhos, debaixo da mesa, aguardavam as migalhas que poderiam saciar a fome de toda a Terra.

Alguém, com razão, diria que tal projeto não seria possível, visto que ninguém consegue viver sem um centro de poder. Entretanto, parece que ainda não se discerniu que o convite de Jesus é contrário a toda lógica de poder, e não propõe nada que não seja Hoje, e que não obriga a ninguém a pavimentar o futuro de Deus na Terra mediante a construção de algo duradouro.

Para Jesus o algo duradouro era justamente aquilo que não se poderia pegar, nem fixar, nem pontuar, nem ser objeto de vistas turísticas, dada a sua impermanência num chão marcado pelas urinas dos mandões. Ele esperava que os discípulos fossem como o Mestre, e que aqueles anos de caminho não ficassem cristalizados nas páginas dos registros dos evangelhos, mas que se tornassem um modo de ser de seus discípulos.

Jesus não era pragmático. Se o fosse, teria logo se mudado para Roma, ou teria aceitado o convite dos gregos, conforme João 12. Se Jesus fosse pragmático jamais teríamos o Evangelho. Isso porque o Evangelho propõe o caminho inviável, e que só se faz possível quando os homens são capazes de esquecer todas as suas formas de controle e poder.

O poder dos discípulos, paradoxalmente, está em não ter poder. E o convite para que se morra a fim de que se tenha vida é também valido para a igreja, que, ao contrário do discípulo, quer mandar na vida, e controlar os homens e o mundo. Assim, pretendendo salvar a sua vida neste mundo, a igreja não só perde a sua própria vida, mas deixa de ganhar o mundo.

O que Jesus queria era uma multidão de seres-sal-e-luz se espalhando pela Terra e se diluindo em sabores e luzes que só seriam sentidos mas não pontuados, jamais se tornando uma Salina ou uma Usina de luz cristã a ser visitadas pelos curiosos.

O reino é como o fermento escondido...até que pervade toda a massa da humanidade...sem ninguém saber como...e sem que ninguém possa dar glória a mais ninguém, senão ao Pai que está nos céus.

Aliás, a proposta de Jesus é tão pouco pragmática que a vontade de aparecer não pode resisti-la. O sal, por exemplo, foi usado por Jesus como metáfora desse desaparecimento da igreja na terra. Tudo ao que Ele associa a metáfora do sal é ao sabor, e nada mais. O sal tem que ter sabor, se não já não presta para nada. E para que o sal salgue e dê sabor, de fato, ele tem que se dissolver nos elementos que recebem o seu benefício. O sal só salga quando morre como sal visível e se torna apenas gosto, presença, realidade, inescusável benefício, embora ninguém possa dizer onde ele está, podendo apenas dizer: “Ele está na panela. Mas onde?”

Já a Luz do mundo —vós sois!— deveria ser a ação contínua da bondade e da misericórdia, de modo completamente discreto, porém pleno de efetividade, de tal modo que os “de fora” é que ao receberem os benefícios da luz, discirnam-na como boas obras, e, assim, eles mesmos agradeçam a Deus pelos filhos da misericórdia que Ele espalhou pela Terra.

O que Jesus propõe como simplicidade total, entretanto, logo deu lugar às complexidades regimentais e aos centros de poder. Mesmo dizendo “tal não é entre vós” — referindo-se ao poder de governar dos reis e autoridades —, o que se criou desde bem logo foi aquilo que era comum, não o que era completamente incomum.

“O meu reino, agora, não é deste mundo” os fez pensar que aquele “agora” já havia passado, e que, “agora”, eles estavam livres para facilitar as coisas, ou seja: para torná-las complexas, conforme os governos da terra, deixando de lado a leveza do caminho e o verdadeiro espírito hebreu —andarilho, cruzador de fronteiras—, que havia sido também encarnado em Jesus.

O que estou dizendo? Que nada valeu a pena? É claro que não! O que estou dizendo é que o mundo ainda não acabou, e que a cada nova geração os discípulos de Jesus têm, outra vez, a chance de viver o Evangelho, simples e puro, leve e livre, dissolvido em sabores sentidos, mas sem sede física de poder, sem qualquer mandão entre nós; e que a luz do mundo pode ainda brilhar no mundo, não como uma ação da igreja, mas como fruto da bondade justa e misericordiosa de cada discípulo que não queira ser um “agente da igreja”, mas apenas um filho do amor de Deus solto nesta terra.

“E não nos reuniremos mais?” — é a pergunta angustiada de alguns.

É claro que nos reuniremos sempre. Mas tais encontros não visariam centralizar as forças e organizar as ações de poder, mas apenas renovar as alegrias da fé e da esperança, fortalecer o amor e devolver as pessoas à vida com a simplicidade do sal e da luz. Ou seja, com sabor e boas obras.

Eu sei que pareço louco para alguns. Não nasci ontem. Conheço os mecanismos de poder dos quais a “igreja” se alimenta. E também sei que apenas um punhado mínimo de pessoas tem a coragem que o Evangelho do reino demanda, que é a coragem para abrir mão do poder para liderar pela simplicidade, sem trono a nos acolher em honras.

Quem, no entanto, tiver tal coragem da simplicidade, esse conhecerá o significado de ser discípulo de Jesus no reino deste mundo, e que é o poder que nasce da fraqueza — que, aliás, é o único poder que Jesus quer ver sendo vivido pelos Seus discípulos.

Minha esperança é que pelo menos alguns poucos entendam e creiam.


Caio
Escrito em 2003

9 comentários:

  1. Na minha opinião, este foi um dos textos mais sensacionais que li nos últimos tempos.

    Muito tempo, muita energia, muitas pessoas têm sido gastas/envolvidas na "estrutura" da "Igreja".

    Hoje mesmo li uma postagem no facebook de um pastor amigo que se lamentava em não ter tempo em atender amigos que queriam conversar particularmente, porque estava ocupado na reforma do prédio da igreja e no website da instituição.

    Sem perceber, prédio e website ficaram mais importantes do que pessoas!

    Que Deus ajude "que pelo menos alguns poucos entendam e creiam" no que foi exposto no texto acima!

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  2. Caramba...

    Eu li isso em 2003 e tenho lido sempre desde então, há mais de dez anos. E cada vez mais tenho visto, assustadoramente, os títulos de autoridades religiosas sendo disseminados e ovacionados, aplaudidos, colocados no palco, onde os reverendos, os anciães, os bispos e os pastores se veem apavonados, não apenas por si mesmo, mas principalmente pelo re-alimento injetado diretamente no ego pelo seu próprio séquito que se apresenta tão adoentado quanto seus próprios líderes.

    E muuuuito me angustia presenciar a cada dia essas tais 'reuniões' estabelecidas por líderes mais e menos famosos. Gente que aparece na mídia, em maior ou menor escala, manipulando o Cristianismo de uma forma louca como a uma seita. Construindo seus templos em menor ou maior escalas. Reafirmando seu poder. Usando o Nome do Senhor Jesus para validar suas próprias loucuras. Criando suas salinas, construindo suas próprias usinas! Re-alimentando seus 'podres poderes'! Disseminando uma falsa luz e espalhando um sal que não se dissolve porque não se vê amor sendo espalhado como fruto dessa bondade misericordiosa citada, mas justamente essa perversa centralização de poder colocada no texto, que ao invés de produzir vida e liberdade, tem o poder de aprisionar o bando, reprimindo-o, reduzindo-o e violentando-o, ao lhe retirar a chance de ser, puro e simplesmente, um caminhante do Evangelho.

    Agora há pouco eu lia um texto escrito em uma 'timeline' do FB, onde o autor, pastor e líder de uma comunidade evangélica, se desculpa por não ter tido tipo de atender algumas pessoas que o procuraram, alegando estar muito ocupado com a construção de um templo (físico) e de um website. Caramba! Enquanto lia, imaginava a cena da parábola de Jesus sobre 'o bom samaritano'. Será que ele nem se dá conta do que está saindo da própria boca???!!! A vaidade, o ego, o orgulho, o apavonamento,o entronamento, enfim, a inversão de papéis, tudo isso o impede de enxergar seu verdadeiro lugar e papel????? Ele ficou cego pelo poder????? Ele acredita, de fato, no seu próprio poder?! Igualzinho ao Jim Jones e ao Edir Macedo???!!!

    Que coisa terrível de se constatar!

    Entretanto, apesar de toda tristeza que me invadiu quando me deparei com a mensagem do 'líder' hoje cedo, também ainda creio haver esperança... Nesse punhado citado pelo autor do texto acima. Mas há!

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  3. Nossaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, Henrique! Me arrepiei!
    Só agora li o que vc escreveu. Nem tinha visto, confesso!!!
    Estava concentrada aqui em redigir minhas considerações.
    Escrevemos quase a mesma coisa em determinado ponto de nossas falas.
    É, meu irmão... Caminhamos o mesmo Caminho!!!
    Enfim...
    Me arrepia de início, mas... Constatação óbvia!!! rsss

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    1. É Rê...

      Que Deus nos ajude sempre a sermos discípulos Dele. Um "Filipe" que era levado daqui pra ali, e dali pra acolá... Ia pra Samaria pregar, descia pra Gaza, pregava pro etíope, batizava quando encontrava um punhado de águas, de lá pra Azoto, Cesaréia... sem estruturas, sem cartas dos apóstolos, sem nada..

      Filipe e o Espírito Santo...

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  4. Essa bondade , misericórdia tem que começar em casa com os nossos , com a vizinhança , no trabalho , na faculdade , no relacionamento virtual , etc... Às vezes ,não precisamos abrir a boca para que o nome do Pai seja glorificado . Nossas atitudes também "falam" muito"! São observadas... e podem fazer com que as pessoas queiram conhecer Jesus Cristo .

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  5. Sônia, você tem toda razão. Começa com os mais próximos. Trata-se de um 'resultado' a partir do Fruto do Espírito em nós e que, de forma natural e espontânea, vai acontecendo no meio em que se vive, a começar com os mais próximos, mas que também atinge a qualquer outro semelhante.

    Infelizmente, muitos desses líderes e 'servos' que se dizem a serviço de Deus, estão tão ocupados no cumprimento da sua religiosidade que não conseguem atinar para o óbvio: que a única forma de fazerem alguém conhecer a Jesus é seguir na existência agindo como Jesus agiu.

    A prova de que tais líderes estão ocupados é com suas construções físicas e materiais, que são visíveis e numéricas, é que, eles mesmos se tornam uns zumbis, a começar dentro de casa...

    Abs...

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    1. Regina:Bonito o que você escreveu :..." de forma natural e espontânea.." sem interesses, condições , cobranças etc... tão natural como sentir sede , fome etc... Vem de dentro e jorra como um poço artesiano ... e dá de beber para muitos... Tudo isso é maravilhoso!

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Falando em amor tudo foi criado no Amor . Eis um exemplo:

    https://www.youtube.com/watch?v=7cpsX5GezrM

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