19/10/2014

Remédios na natureza faz peixes machos ficarem femininos

Por: BBC Brasil

Nós, seres humanos, tomamos paracetamol para dor de cabeça, contraceptivos para evitar a gravidez e Prozac para a depressão.

Mas para onde vão os resíduos destas substâncias uma vez cumprida a sua função?

O corpo humano elimina muitos dos medicamentos que ingerimos através da urina. A urina vai para os esgotos e, depois de atravessar um sistema imperfeito de purificação, os resíduos desembocam nos rios que alimentam o planeta.


Embora as concentrações de drogas na água sejam baixas, as conseqüências destas para os ecossistemas não deixam de ser preocupantes: desde peixes machos que adquirem características femininas até aves selvagens que perdem a vontade de comer, além de populações inteiras de peixes e outros organismos aquáticos dizimadas.

Diversos estudos sobre o impacto da poluição farmacêutica sobre a vida selvagem apontam que o uso crescente de drogas projetadas para serem biologicamente ativas em baixas doses pode estar causando uma crise global da vida selvagem.

"As populações de muitas espécies que vivem em paisagens alteradas pelo homem estão encolhendo por razões que não podemos explicar completamente", disse a pesquisadora Kathryn Arnold, da Universidade de York, na Inglaterra.

"Acreditamos que é hora de explorar novas áreas, como a poluição farmacêutica."

Machos femininos

Para os seres humanos, no entanto, a presença de drogas em baixa concentração na água não é um problema: seria necessário tomar entre 10 milhões e 20 milhões de litros de água da torneira para ingerir medicação suficiente para, digamos, aliviar uma dor de cabeça.

No caso dos peixes, a história é outra.

O biólogo John Stumper, da universidade britânica de Brunel, foi um dos primeiros a estudar os peixes machos com características femininas descobertos na década de 90.

"A primeira coisa que descobrimos foi que havia muitos peixes nos rios que tinham proteína do sangue que é comumente conhecida como a gema. A síntese desta proteína no fígado é controlada pelo (hormônio) estrogênio", disse a Stumper à BBC.

Ele explica que mesmo os peixes machos - que não produzem quantidades significativas de estrogênio e, portanto, não têm gema - apresentavam uma alta concentração dessa proteína. "Especialmente aqueles que habitavam os rios perto de uma estação de tratamento ", notou Stumper.

"Uma vez que eram os machos que estavam se tornando mais femininos e não o contrário (fêmeas adotando características mais masculinas), achamos que a causa poderia ser o estrogênio."

Stumper estava certo: estudos posteriores confirmaram que essas mudanças estavam relacionadas à presença de resíduos de contraceptivos na água.

"Em nível molecular, os peixes são extremamente semelhantes a nós", disse o biólogo. Assim, quase todos os fármacos para seres humanos têm um efeito sobre os peixes.

Impactos

De acordo com um relatório da Agência Federal Ambiental da Alemanha, as drogas para os seres humanos que mais causam desequilíbrios ambientais são os hormônios, antibióticos, analgésicos, antidepressivos e drogas para combater o câncer.

Entre os medicamentos veterinários, o relatório destaca os hormônios, antibióticos e parasiticidas.

Assim como os hormônios sexuais sintéticos, os antidepressivos se dissolvem em gordura, não na água. Por isso, podem entrar na corrente sanguínea dos organismos expostos à água contaminada.

Leia mais: Conheça cinco animais transgênicos e entenda argumentos contra e a favor de seu uso

Um estudo de Kathryn Arnold que deve ser publicado no fim deste mês sugere que este fator está afetando o comportamento e a capacidade dos estorninhos, um tipo de pássaro, de se alimentar.

Arnold e colegas da Universidade de York analisaram como o Prozac impacta essas aves, que se alimentam de lagartas, vermes e moscas em áreas próximas a estações de tratamento de resíduos.

Estes organismos, por sua vez, se alimentam de alimentos encontrados na área - em geral, contendo altos níveis de fármacos, principalmente Prozac.

"No inverno, as aves tendem a consumir um bom café da manhã, beliscar ao longo do dia e comer bem antes de escurecer", disse a pesquisadora.

Sob o efeito do antidepressivo, elas não faziam isso: em vez de duas grandes refeições, elas comiam esporadicamente ao longo do dia e, no cômputo geral, comiam menos.

"Esse comportamento pode afetar o seu peso, os riscos que decidem correr ou não para obter alimentos e como se socializam", afirma a cientista.

"São variações pequenas e sutis mudanças que vão se somando e, no fim, podem comprometer a sobrevivência de uma espécie."

Uso excessivo?

Se o problema tem origem na água de resíduos, talvez a solução passe por reduzir a presença de farmacêuticos que vai parar em rios e córregos.

Pode-se, por exemplo, desenvolver métodos mais eficientes de tratamento da água. Mas esta pode ser uma solução cara e gerar um gasto de energia muito elevado.

Ole Phal, professor da Universidade de Glasgow Caledonian, defende uma abordagem que inclua uma discussão sobre a produção e o uso de medicamentos.

"Estamos tomando (medicamentos) demais? Estamos utilizando-os corretamente? Existe alguma maneira de se desfazer deles que seja mais benéfica para o meio ambiente?", questiona Phal.

"Precisamos refletir sobre o nosso uso de drogas farmacêuticas."


4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Irmão HP , achei este link na Internet , só que os prejudicados são os humanos:

    Achei este link na Internet

    http://g1.globo.com/mundo/noticia/2010/04/frango-com-hormonio-afeta-virilidade-e-cabelo-afirma-presidente-da-bolivia.html

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  3. Querido Irmão HP,
    Interessante tema abordado em seu blog. Tenho pensado bastante ultimamente sobre as conseqüências dos avanços científicos em nossa sociedade contemporânea. Na busca de comodidade e imediatismo o ser humano vem cavando a própria cova. Vejo assim no tocante à produção de alimentos que está intrinsecamente ligada à química farmacêutica.
    Temos na terra inúmeras plantas que Deus nos deixou às quais podemos utilizá-las de forma terapêutica sem necessidade de manipulação laboratorial, seja por meio de infusões, compressas, ungüentos, homeopatia... porém para resolver as coisas rápidas em nosso mundo moderno criou-se um aparato imenso de remédios, pra hipocondríaco algum botar defeito (é muito mais prático tomar um comprimido e pronto!), todavia aí surgem conseqüências, como as explícitas no artigo.
    Da mesma forma ocorre na agricultura, sou Engenheiro Agrônomo e na agricultura enfrentamos um dilema parecido. A forma convencional de produção de alimentos que conhecemos pós revolução verde é fundamentada pelo uso de adubos químicos solúveis e inúmeras aplicações de agrotóxicos em todos os estágios da cultura. E repare só: As mesmas empresas que desenvolvem cultivares transgênicos (já com baixa resistência à pragas e doenças) são as mesmas que fornecem os agrotóxicos e são as mesmas que monopolizam os ramos de remédios (a fim de tratar as doenças conseqüentes do consumo dos alimentos envenenados).
    Os Organismos geneticamente modificados (OGM's) são outro ponto. Não há estudos precisos que comprovem que tais não fazem mal à saúde, para se ter uma ideia, poucos países no mundo plantam soja transgênica, aí na Europa há grandes restrições aos OGM's. A soja transgênica é resultado de uma manipulação genética onde é inserido um gene de uma bactéria na planta. O Homem chegou a alterar ao ponto de misturar os códigos genéticos do reino animal e do reino vegetal...
    Como um cristão me vejo nesse dilema, por mais que faça meu trabalho de forma correta, não sei se estarei fazendo o correto, pois estarei prejudicando o meio ambiente e pior, envenenando as pessoas...
    Compreendo que o Ser humano precisa dar uma volta de 180 graus e retornar às suas origens, buscando uma forma mais natural de viver, porém isso é uma utopia, nesse mundo moderno que vivemos cada vez mais se faz necessário o imediatismo sem pensar nas consequências para as gerações futuras. O mundo jás no maligno, infelizmente acho que só tende à piorar até a volta do nosso Senhor Jesus Cristo.
    Desculpe-me pelo desabafo, caso compreenda que estou fugindo do tópico proposto, pode excluir a postagem, compreenderei, sem ressentimentos rsrsrs
    Grande abraço. Que Deus o abençoe.

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    1. André, tua postagem trouxe mais luz ao tema.

      Confesso que são coisas que me perturbam também. O simples uso de mais água do que o necessário ou energia também.

      Tenho colocado até timer no modem Wifi, para que fique ligado apenas durante o tempo que estou em casa...

      Tem horas que fico imaginando a quantidade de carros produzidos, celulares(!) e o pior, tipo, a reciclagem é mínima...

      Frutas e legumes produzidos no Brasil, sendo consumidos na Europa! Tipo, isso é algo racional? Eu sinceramente não acho.
      Lembro da época de infância que só encontrava bananas e morangos quando era época. Hoje encontramos morangos e bananas sempre nos mercados...

      Enfim... também sei que nunca antes na história da humanidade houve uma sociedade mais preocupada com reciclagem, uso consciente etc. Mas o problema é que já somos 7 bilhões... então mesmo que sejamos mais conscientes, nunca conseguiremos consumir apenas a metade que necessitamos...

      É um debate profundo que deveria ser feito por todos e não apenas por políticos ou cientistas...

      Um abraço!

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