Por: Carlos
Moreira
É difícil, no meio
profissional, você fazer amizades. E falo de amizade mesmo, cara brother, não
apenas parceiro, por causa de oportunidades pois, como se sabe, colega, todo
mundo tem... E quando o seu mercado é muito competitivo, a coisa fica ainda
mais improvável. Não raro, é neguinho querendo lhe passar a perna, ocupar o
espaço que nem se sabe se seria seu.
Nessa impossibilidade, sobram,
no meu caso, os “amigos” de igreja. E aqui não vai uma crítica a ninguém e, por
favor, se você conviveu comigo nestes últimos 30 anos, não se magoe nem tome o
texto como uma indireta. Na verdade, a coisa é muito pessoal, acontece comigo,
mas, tenho absoluta certeza, jamais acontecerá com você. A minha leitura dos
fatos, em definitivo, não implica em eu ter razão, mas me dá o direito de
sentir assim.
Amigo de igreja é foda... Não
sei, mas tenho a impressão que esse tipo de relacionamento, que tem como pano
de fundo a religião, parece que trava as pessoas. E no meu caso, que sou
pastor, que vivo na “vitrine”, pregando, aconselhando, ensinando, visitando e
assistindo pessoas, a coisa torna-se ainda mais artificial.
O “amigo” de igreja é um amigo
temporal. Sim, a amizade nascida na ambiência do “sagrado” não resiste à
mudança de lugar, de denominação, de convicções. Crente tem de pensar tudo
igual, como se fosse produção em série. A divergência provoca um tipo de náusea
existencial que, mais cedo ou mais tarde, expurga o indivíduo da confraria.
Outra coisa incômoda, no
“amigo” de igreja, é que ele só quer falar sobre temas “espirituais”. Fica pior
quando você carrega esse status de “guru-pastor”. Aí é ainda mais traumático.
Crente, quando se junta, tende a só querer tratar de doutrina, até mesa de bar
vira púlpito, e uma fala mansa logo se transforma em desfile de homiléticas
toscas e exegeses de gaveta.
Para ser sincero, tem certos
assuntos, em roda de “amigo” de igreja, que parecem ser proibidos. Eu penso
que, no fundo, ninguém quer se expor. Quem vai falar intimidades, ou fraquezas,
nesse meio? Mazelas, então, nem pensar! Em roda de crente, tem que se manter a
“ordem e a decência” afinal, cada um quer preservar a sua postura incólume. Aí
tudo fica pálido e plástico, você sufoca de tantas amenidades.
É curioso, mas existe certa
dificuldade de encontrar um “amigo” de igreja que vá num bar, num campo de
futebol ou numa boate. Crente gosta de encontro, de seminário, de acampamento e
de reuniões, muitas reuniões... Além do mais, pela enorme bitolação, as falas
são sempre dietéticas, será, então, improvável uma reflexão sobre política ou
poesia.
O “amigo de igreja”,
desgraçadamente, também é pouco sensível. Isso, me parece, está ligado às
questões do platonismo cristão, que dissociou a vida espiritual da vida
material. As pessoas choram no louvor, mas não conseguem se aperceber que, ao
seu lado, há alguém deprimido. Triste, mas as coisas sensíveis ficaram todas no
mundo das idéias, e aí, solidão, medo, ansiedade e dor, sentimentos do mundo
real, de gente de carne e osso, e não apenas de mente e espírito, acabam
passando despercebidos.
Eu fico pensando como seria
uma igreja com gente boa de Deus, sem frescuras, sem intrigas, sem melindres.
Um lugar de encontro humano, de carinho, de partilha, de abraço. Sim, um “Clube
da Esquina”, numa esquina qualquer da vida, onde dois ou três se juntassem para
celebrar, dar risada do trágico, citar poetas, discutir futebol, criticar
político safado, coisas que bons amigos fazem quando se encontram.
Se você tem amigos "do
mundo", sugiro preservá-los. Eles podem não ter pedigree espiritual, mas
são ótimos em dias nublados e noites frias. Amizade, não implica religiosidade,
um bom ateu, que lhe diga verdades agudas e seja solidário na dor, terá mais
serventia que um "irmão" que lhe saúda com a paz no domingo e lhe dá as
costas na saída do "culto".
Quem sabe chegará um tempo
onde a igreja terá a mesma devoção pelo humano que tem pelo divino. Sim, eu
penso que isso não só é preciso, mas também possível, afinal, amar a Deus sobre
todas as coisas só faz sentido quando se ama ao próximo como a si mesmo.
Me refleti nesse texto. Tem horas que penso em "vazar" quando chega a irmandade. É bem isso aí encima mesmo, fico no vácuo. Ou quando discordo de alguma coisa, tenho que aguentar as "ladainhas" ou quase brigar, bem desgastante.
ResponderExcluirNo meu serviço, toco umas músicas no anfiteatro onde dou palestras. E toco muito rock, bem do estilo que ouvia, menos quando saco uma letra diretamente anticristã ou demonóloga demais. Outro dia um rapaz de outra denominação, quase tão bitolada como a minha, rs, entrou lá e ouviu Deep Purple. Pra quê? Descascou em mim como se eu tivesse afastando em vez de atrair para Cristo.
Interessante que, com tudo que ouço ao meu redor, na minha denominação (a CCB!), volta e meia um irmão ou irmã "enxerga" a luz de Cristo em mim. Fico contente, pois pelos padrões deles sou considerado um fraco, mundano, sei lá o que mais. Fico contente.
Mas ontem saí pesado do culto, o que me consolava era que toda hora eu repetia em pensamento que estava ali cultuando a Deus, que cada louvor meu era para Ele. Mais uma pregação exclusivista, "roupista", focando bem na parte mais adorada pela denominação. Me senti pesado. Porém, feliz em perceber que estava louvando a Deus em meio à tempestade de ignorância bíblica. Interessante é que meu "discípulo" ontem estava ávido por conhecimento, hehe, não sei se isso incomodou o "pastor".
Queria ter amigos, mas desconfio de todo mundo, até de quem diz pensar parecido comigo
Me refleti nesse texto.
Deus abençoe.