Por Maurício
Zágari
Muitas pessoas cobram de mim, há
bastante tempo, um posicionamento: você é arminiano ou calvinista? Por que você
nunca postou um texto sobre o assunto? Até quando vai ficar em cima do muro? A
verdade é que tenho fugido como posso de responder isso. A sensação que tenho
quando essas cobranças ocorrem é que estão me perguntando se sou de Paulo ou de
Apolo, como se ser uma coisa ou outra me definisse como cristão. Como se minha
posição soteriológica me classificasse como amigo ou inimigo, como um cara
legal ou não, como um sábio ou um ignorante ou mesmo como um “nosso” ou um
“deles”. Diante de tantas cobranças, suspirei fundo, abaixei a cabeça e decidi,
então e finalmente (e muito a contragosto, confesso, pois não gostaria de
entrar nessa polêmica), expor como vejo o assunto. Espero que, de algum modo,
essa exposição abençoe alguém – porque, senão, não faria sentido escrever sobre
isso.
Para quem não está familiarizado com os
termos, em síntese podemos dizer que arminianismo é a doutrina da salvação que
defende que o homem tem a capacidade de aceitar ou rejeitar a graça de Deus.
Assim, uma pessoa teria coparticipação ativa na sua salvação. Já o calvinismo é
a doutrina da salvação que defende que ela depende única e exclusivamente de
Deus, que elege e predestina os salvos e os resgata por uma graça irresistível.
Presbiterianos são calvinistas e batistas são arminianos, por exemplo. Você
pode encontrar um resumo das duas teorias AQUI. A Bíblia dá base para defender ambas,
há passagens de dar nó na cabeça dos adeptos das duas linhas (naturalmente há
explicações de um e outro lado para cada uma) e por isso a discussão é
interminável – tanto que já dura, literalmente, séculos. E, em minha opinião,
seguirá até a segunda vinda de Jesus.
Do mesmo modo que um locutor de jogos
de futebol esconde de todos para que time torce, como forma de evitar
preconceitos caso esteja narrando uma partida da equipe do seu coração, escondo
como posso minha crença soteriológica. Isso é proposital. Pois o ser humano
está tão acostumado a julgar o próximo por conceitos pré-concebidos que, se
expuser aquilo em que creio, muitos simplesmente passarão a ler tudo o que
escrevo à luz de um rótulo. “Ah, ele só disse isso porque é calvinista” ou “Não
dê atenção, ele escreveu isso porque é arminiano”. E, por culpa desse assunto
periférico da fé, muito do que é central se perderia devido a partidarismos. E,
como a Igreja infelizmente está a anos-luz de Cristo quando o assunto é perdoar,
muitos que discordassem da minha crença me veriam como um pecador sem perdão e
sem utilidade para todo o sempre – exceto se me convertesse à outra linha
teológica, claro. E isso se aplica a mim e a todo mundo, pois existe um
preconceito generalizado daqueles que defendem uma linha contra os que defendem
a outra.
Além disso, tive algumas experiências
com irmãos que ficaram profundamente transtornados com essa discussão. Um amigo
queridíssimo me confessou que ficou com a fé abalada por causa dessa desse
assunto tão pouco relevante na caminhada de fé de um cristão. Algum tempo
atrás, uma leitora do APENAS me contactou pedindo que assistisse a um vídeo de
um conhecido pastor em que ele falava sobre o assunto. Ao final de seu texto,
ela fez seu apelo: “Por favor, me ajude. Estou muito confusa”. Será que esse é
o papel do Evangelho? Confundir e abalar a fé dos cristãos? Não deveria ser
aproximá-los de Cristo, aliviar seus fardos, apontar para a eternidade e
glorificar Deus? Por tudo o que tenho visto e vivido, penso que essa discussão
é muito pouco proveitosa nesse sentido.
(A partir deste ponto, todas as
ilustrações que você verá neste post tirei da internet e exemplificam como esse
debate tem sido marcado pela agressividade e/ou o sarcasmo. Algumas buscam
explorar o humor, mas, embora eu as tenha inserido neste artigo a título de
ilustração, nenhuma me faz rir.)
Nesse sentido, penso que levantar essa
bandeira simplesmente não traria nenhum benefício para mim, para você que me lê
e para o Reino de Deus. Porque, no frigir dos ovos, isso terá uma importância
pequena (repare que eu não disse “inexistente”, mas “pequena”) na nossa vida
cristã, e tiro por mim: todos os pecados que cometi após minha conversão foram
cometidos apesar de eu crer nisso ou naquilo. Todos a quem perdoei e que me
perdoaram independeram de eu ser calvinista ou arminiano. Meu nível de
intimidade com Deus nunca esteve atrelado a isso. Minha pecaminosidade ou minha
santidade nunca dependeram de me posicionar sobre o assunto. Minha redenção
idem. Aquilo em que creio é muito pouco importante diante da grandeza de Deus,
até porque já errei tanto que posso estar errado naquilo em que creio também.
Já revi tantos conceitos ao longo de minha vida que publicamente prefiro ficar
quieto.
A única certeza que possuo é que Jesus
de Nazaré, o Verbo vivo, é Senhor da minha vida e Salvador da minha alma,
estendeu-me a graça e me resgatou de todos os mares de lama em que já nadei,
perdoando meus pecados por mérito da Cruz e da Cruz somente. Isso eu afirmo,
reafirmo e defendo como certeza inabalável. A Ele a glória, a mim a
misericórdia e a graça divinas por ser essa desgraça ambulante que sou. Disso
tenho absoluta convicção; em todo o resto posso estar errado e o que vai além
seria mera vaidade minha.
De tanto ser cobrado para expor minha
posição, em minha mais recente leitura dos evangelhos dei uma atenção especial
ao posicionamento de Jesus sobre o tema. É muito interessante que, embora Ele
fale sobre questões que remetem ao assunto, em nenhum momento crer ou não na
eleição divina está sob seus holofotes, menos ainda fazer disso o centro
de nossas atenções. Ele expõe fatos relacionados, mas você jamais o vê exigindo
que seus seguidores tornem-se defensores de um ou outro pensamento: o que Cristo
faz é expor a graça de Deus, a necessidade de arrependimento e a importância da
permanência em santidade. É como se Ele não desse muita importância a levar
ninguém a se definir em público nessa ou naquela posição. Leia você mesmo os
evangelhos e repare isso.
Por outro lado, lemos sobre temas que
constantemente são reforçados pelo Senhor: arrependimento, perdão divino,
unidade e união da Igreja, a importância de estendermos o perdão uns aos
outros, o amor como coluna vertebral da fé, a mortificação de nossos impulsos
em favor da natureza de Cristo em nós, a transitoriedade da vida, a vida
eterna, a missão do Cordeiro, a pessoa de Deus… e por aí vai. Assim, o Mestre
fala pouco ou quase nada sobre ser ou não eleito, sobre ter ou não
livre-arbítrio, mas insiste o tempo inteiro em como é fundamental dar a outra
face, amar o inimigo, não devolver mal com mal, abençoarmos como judeus os
samaritanos que cruzam nosso caminho, a prevalência de Deus sobre tudo e do
próximo sobre nós mesmos, a paz, a mansidão, a justiça celestial – até sobre o
inferno e os demônios Ele fala mais do que sobre eleição divina, acredite.
Enfim, se fôssemos tabular os temas abordados por Jesus veríamos que
“calvinismo x arminianismo” (ou “eleição x livre-arbítrio”) estaria lá no pé da
página. Dá o que pensar.
Ao final dessa leitura dos evangelhos,
a sensação que tive foi como se Jesus dissesse: “Que tal agora aproveitarmos
nosso tempo para falar sobre o que é mais importante?”.
Há partidários desta ou daquela teoria
que são aguerridos em suas crenças, numa espécie de Fla-Flu teológico. Essa
disputa já gerou grandes e lamentáveis atritos entre amigos íntimos, como os
servos de Deus John Wesley (arminiano) e George Whitefield (calvinista). A
biografia de Wesley escrita por Mateo Lelièvre e lançada no Brasil pela editora
Vida (veja AQUI) mostra essa controvérsia em detalhes
e revela os estragos que provocou entre os dois amigos e entre seus discípulos.
Estragos gerados por uma discussão que foi apaixonada e acalorada, ao final
infrutífera e que acabou se revelando nada benéfica para nenhum dos envolvidos
ou para o Reino de Deus. Foi ao ler esse livro que tomei a decisão de nunca
tornar públicas minhas crenças pessoais nem de entrar em discussões sobre a
questão.
Sim, pois é natural que tenha minhas
convicções e elas permeiam o que procuro viver, escrever e proclamar. Mas
discutir em que creio ou não? Não importa para os outros, sou pequeno demais
para isso. Calvinistas e arminianos são meus irmãos em Cristo. Calvinistas e
arminianos creem em Jesus como Senhor e Salvador. Calvinistas e arminianos
acreditam que precisam evangelizar e discipular. Calvinistas e arminianos creem
no arrependimento, no perdão e na redenção dos pecadores. Calvinistas e
arminianos entendem que precisam ser fieis até o fim. Calvinistas e arminianos
são capazes de viver em paz sabendo que jogam no mesmo time. Já vi arminianos
tratarem com animosidade quem é adepto da predestinação e já vi reformados
(sinônimo para calvinistas) tratarem com desdém os que creem na
decisão humana sobre aceitar ou não a graça divina. Já me basta minha multidão
de pecados, não quero começar a pecar em mais esse aspecto. Pois Jesus não disse
“amemos uns aos outros, desde que sigam nossa linha teológica”. Essa disputa
anda tão feia que acredito que, se fosse contar a parábola do bom samaritano
hoje, o Senhor diria: “Um arminiano foi assaltado e deixado à beira do caminho,
quando chegou um calvinista e o ajudou…” (ou vice-versa).
Arminiano: o calvinista é seu próximo e
seu irmão. Calvinista, o arminiano é seu próximo e seu irmão. Amemo-nos.
Se temos de amar os inimigos, quanto
mais os irmãos em Cristo que pensam diferentemente de nós em aspectos
periféricos da fé. No Céu não haverá calvinistas ou arminianos: haverá
cristãos. Haverá os que foram chamados pela graça e justificados pela fé – mesmo
que entendam o mecanismo de funcionamento disso de modo equivocado. É o que
importa. Somos todos do mesmo time e precisamos parar de nos tratar como
adversários.
Aquilo em que cremos é importante sim,
pois definirá muito da nossa forma de agir, pensar e nos relacionar com Deus e
o próximo. Mas o problema surge quando nossas crenças nos levam para a esfera
do bate-boca, do desamor e da animosidade. Espero que fique claro que é sobre
isso que trata este post. Se o pé esquerdo é calvinista e o pé direito é
arminiano, o que importa é que caminhem juntos, para que o corpo vá bem em sua
jornada. E um pé ser calvinista e o outro arminiano não os torna membros de
corpos diferentes ou influencia no fato de que chegarão juntos ao mesmo
destino. Se um pé começa a bicar o outro, a cabeça sofre, o corpo em nada lucra
e os pés continuam sendo o que são – apesar de um deles estar errado.
Calvinismo não é heresia, no máximo é um equívoco. Arminianismo não é heresia,
no máximo é um equívoco. Então, por favor, rogo que gastemos menos tempo
dizendo que “a turma de lá é feia” e mais tempo afirmando que “a turma de lá
faz parte da minha turma”. Acredito que esse sim é o espírito dos ensinamentos
de Jesus.
Se sou calvinista ou arminiano?
Irrelevante. Tornar-me um militante do calvinismo ou do arminianismo? Não vejo
nenhuma razão para isso. Ser cristão e ser um militante do Evangelho do
Salvador do mundo? Isso sim faz toda a diferença.
Paz a todos vocês (calvinistas e
arminianos) que estão em Cristo,
Maurício
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