Adaptado
de Jesse Johnson
Traduzido
por Filipe Schulz
João Marcos talvez tenha sido o primeiro filho de crente. Sua mãe, Maria,
era viúva, e João Marcos era, provavelmente, um adolescente na época do
Pentecostes. A igreja de Jerusalém se reunia de casa em casa, mas as maiores
reuniões ocorriam na casa de Marcos. Por ter crescido sem um pai, e por Pedro
ser o pastor da igreja da casa de Marcos (pelo menos durante sua adolescência),
os dois tinham um relacionamento especial. Pedro o chamava de seu próprio filho
(1 Pedro 5.13).
João Marcos assistiu de perto muito do drama e dos
perigos que a igreja primitiva experimentou. Quando Pedro foi preso e
milagrosamente solto, a igreja estava reunida na casa de Marcos, orando pela
salvação de Pedro. De fato, quando o anjo resgatou Pedro, ele se viu livre, nas
ruas de Jerusalém, procurado pelas autoridades, no meio da noite. Buscando
abrigo, ele foi diretamente para o local da reunião de oração, bateu na porta
da casa de Marcos e, como muitos conhecem a história, teve que esperar um pouco
do lado de fora enquanto os de dentro demoravam a acreditar que Deus tinha
realmente respondido suas orações.
Foi após esse evento que Marcos participou da primeira
expedição missionária autorizada pela igreja. Houve outros missionários antes,
é claro, mas esses haviam ido para o campo por causa da perseguição, não de
forma planejada. Dessa vez era diferente. A igreja se reuniu e separou Paulo e
Barnabé para ir aos gentios. E enviaram João Marcos com eles. Talvez porque ele
tinha dois nomes (“João”, um nome judeu e “Marcos”, grego – Atos 12.25 deixa
esse fator implícito), e talvez porque ele era primo de Barnabé (Colossenses
4.10), ele foi enviado para ser o assistente de Paulo e Barnabé (literalmente,
um servo – Atos 13.15).
A viagem passou por Chipre, Perge, Icônio e Atália.
Igrejas foram plantadas de formas até dramáticas (leia Atos 13 e 14). Mas
também houve muitas dificuldades e perseguições. Eles experimentaram
espancamentos, fome e rejeição, e isso tudo parece ter sido demais para Marcos,
que os deixou e retornou a Jerusalém.
Alguém pode se perguntar qual foi a reação de Marcos à
recepção que Paulo e Barnabé tiveram após a viagem. Quando os dois retornaram a
Jerusalém, foram tratados como heróis de guerra. Eles voltaram contando
história de como Deus estava alcançando os gentios e as maravilhas que eles
experimentaram. Ficamos pensando se Marcos compartilhava dessa alegria ou se
ficou desapontado de não estar com eles quando voltaram.
Após o concílio de Atos 15, a igreja decidiu
recomissionar Paulo e Barnabé e enviá-los novamente para fortalecer as igrejas.
Essa seria a última conversa entre Paulo e Barnabé da qual temos registro.
Barnabé insistiu que seu primo tivesse uma segunda chance e lhe fosse dada a
oportunidade de servi-los novamente. Paulo recusou veementemente. Ele se recusou
a viajar com Marcos novamente, por temer que ele desertasse mais uma vez. Os
dois estavam tão firmes em suas posições que seguiram caminhos diferentes. Os
presbíteros da igreja ficaram do lado de Paulo e o comissionaram (juntamente
com Silas), enquanto Barnabé e Marcos seguiram seu caminho discretamente.
É interessante que, por meio dessa separação, Deus
trabalhava providencialmente. Paulo perdeu João Marcos, mas ganhou Silas. Além
disso, dois versículos após a separação de Marcos e Paulo, o apóstolo conheceu
Timóteo, que se tornou seu filho na fé. Além disso, Lucas ganhou certa
proeminência (note, no livro de Atos, a mudança da terceira pessoa para a
primeira). Por meio dessa separação, o Espírito Santo não só aproximou Timóteo
e Paulo, mas também assegurou que Lucas e Marcos escreveriam dois evangelhos
separadamente.
O Senhor pode ter afastado Marcos de Paulo, mas não havia
concluído sua obra nele. De alguma forma, ele se juntou a Pedro novamente. Você
consegue imaginar alguém melhor que Pedro para discipular João Marcos? F. F.
Bruce comenta que é difícil imaginar um par mais apropriado para influenciar
esse homem perdido do que Pedro (que sabia uma coisa ou duas sobre o fracasso)
e Barnabé (o filho do encorajamento).
É possível que Paulo e João Marcos tenham se encontrado
novamente na Galácia, mas isso não ficou registrado. Conforme o ministério de
Paulo foi interrompido por sua prisão, ele se encontrou em companhias
interessantes. Ele disse a Filemon “Epafras, meu companheiro de prisão por
causa de Cristo Jesus, envia-lhe saudações, assim como também Marcos,
Aristarco, Demas e Lucas, meus cooperadores.” (v. 23-24). Lucas, obviamente,
permaneceu com Paulo, mas, de alguma forma, Paulo deu outra chance a Marcos
(assim como a Demas!). Paulo chamou esses homens de “meus cooperadores”, o que
não deixa de ser um avanço do título de “servo” que Marcos carregava quando
desertou, anteriormente.
E Marcos provou ser fiel até o fim. Na última epístola de
Paulo no Novo Testamento, ele estava encarando a morte muito de perto. Estava
preso, sem amigos por perto e até mesmo sem roupas apropriadas para sobreviver.
Ele se voltou a Timóteo, seu verdadeiro filho na fé, e fez alguns pedidos. Ele
pediu seu casaco, alguns livros e alguns pergaminhos (uma possível referência
aos evangelhos de Lucas e Mateus?).
Mas isso não é tudo. Ele suplicou a Timóteo:
“Procure vir logo ao meu encontro, pois Demas, amando
este mundo, abandonou-me e foi para Tessalônica [...] Só Lucas está comigo.
Traga Marcos com você, porque ele me é útil para o ministério.”
Já havia passado vinte ou mais anos desde que Paulo tinha
se separado de Barnabé por causa de João Marcos. Agora mais velho, sozinho e
ansioso por estar com o Senhor, seu último pedido é ver Marcos novamente.
Pense em tudo que mudou naqueles vinte anos. A Galácia
era a fronteira final em Atos 15, mas agora o evangelho havia chegado a Roma, à
África, a Chipre, a Corinto e a Creta. E João Marcos passou de ser aquele que
abandonou Paulo na primeira viagem missionária para ser o colaborador do
apóstolo e, finalmente, o homem que Paulo desejava encontrar antes de morrer.
É de comum acordo, geralmente, entre os teólogos, que
Marcos chegou a encontrar com Paulo em Roma, que Paulo foi solto e então viajou
até a Espanha. Marcos, entretanto, não o acompanhou. Ao invés disso, permaneceu
em Roma até a chegada de Pedro. Lá, ele serviu ao lado de Pedro (1 Pedro 5.13)
e escreveu o evangelho que leva seu nome.
Se o testemunho da igreja primitiva é válido (e eu creio
que sim), Marcos permaneceu em Roma durante o reinado de Nero, e após a partida
de Paulo, ministrou lá até o martírio de Pedro, quando foi para o norte da
África e lá encerrou seu caminho, pastoreando uma congregação. Eventualmente,
seguiu Paulo e Pedro rumo à sepultura, quando foi martirizado por Nero em
Alexandria.
Quando lemos o evangelho de Marcos, é útil lembrar que
Marcos sabia o que era ser perseguido. Ele sabia que os cristãos estavam
lutando por suas vidas sob o reinado de Nero, enfrentando feras selvagens no
coliseu. Quando ele registra as palavras de Jesus sobre as perseguições que
viriam, que Jesus não retornaria para resgatar seus seguidores até que o
evangelho tivesse alcançado todos os cantos da terra, é essencial enxergar
essas palavras vindo da pena de alguém que viu o homem que o criou como filho
ser morto por sua fé.
Mas em um nível mais pessoal, João Marcos sabia o que era
cair e o que era ser restaurado. Ele serviu ao lado de Pedro e serviu ao lado
de Demas. Ele sabia que havia dois resultados possíveis após o fracasso e
louvado seja Deus por Paulo ter ido encontrá-Lo vendo Marcos como alguém que
era “útil ao ministério”.
Então...
ResponderExcluirO livro de Atos nos aponta um Saulo sanguinário que 'respirava ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor'.
E o temperamento do convertido Paulo não mudou, apenas direcionou para outro foco. Inclusive, lendo suas cartas, observa-se que não são poucas as vezes em que ele admite ser RUDE (grosso, ignorante) nas palavras. (Diga-se de passagem que tem denominacionais que o endeusam como se fosse o próprio Jesus e tudo que ele disse em cartas como se fosse lei divina, sem atentarem para o fato de que, mesmo tendo sido designado de forma distinta, ele era um homem, portanto, FALHO).
Extremamente rigoroso nos seus conceitos, ele era um homem de temperamento difícil, o qual influenciou fortemente no seu ministério naquele contexto terrível de perseguição aos novos convertidos que pagavam com a própria vida, literalmente, por essa escolha de ser discípulo somente do Senhor.
Ele foi inflexível com o medo e a insegurança de Marcos, rejeitando-o na sua equipe. Entretanto, na minha opinião, não se pode chamar a isso de 'queda', porque, afinal, como diz a própria narrativa bíblica, ele prosseguiu com Barnabé que não perdeu a confiança nele.
A parte boa, é que mesmo tendo falhado na impressão que teve do Marcos, Paulo soube voltar atrás e admitir sua importância no ministério. E não, necessariamente, 'ao seu lado'. Sim, pois esse ministério não tem muros nem fronteiras.
Isso poderia servir de exemplo...
Gostei da leitura!
Excelente comentário Regina.
ExcluirA respeito da palavra "queda", o texto em original é em inglês. A melhor tradução talvez seria "falhar, fraquejar", penso eu.
Sabemos que os apóstolos tiveram uma contribuição importante na igreja primitiva que influencia muito a igreja atual, e é este o ponto mesmo. Somos todos humanos imperfeitos e cheios de razões próprias, por isso temos sempre que lembrarmos dos exemplos de Cristo, este sim perfeito.
Ontem o Maurício Zágari escreveu no seu blog uma frase linda: "Tenho visto que quando o assunto é perdoar, nós infelizmente estamos a anos-luz de Cristo."
É por aí mesmo...
Bom final de semana!
Exatamente! Há de se considerar a questão da tradução. Inclusive, como se sabe, tem palavras que nem tradução há, onde se substitui por algo 'meio' similar.
ResponderExcluirO interessante é que essa leitura me faz lembrar mais do tremendo vacilo de Paulo do que da eficaz atuação do Marcos. Pois que ele (Paulo) não apenas rejeitou a presença deste na sua equipe, como ainda, por causa disso, se apartou de Barnabé também. Acho que é para que eu me lembre justamente disso que vc fala, que perfeito somente Jesus e por isso, o Único Modelo a seguir.
Como falei, espero que isso sirva de exemplo! E que os líderes que se arrogam detentores da 'verdade', abaixem a bola um pouquinho e olhem pra dentro de si mesmos! Não é nenhum demérito o reconhecimento de que se falhou em algo. Triste mesmo (e abominável aos olhos de Deus!) é a arrogância espiritual e consequente falta de humildade, compaixão e misericórdia no trato com os membros da denominação que 'caem' aos olhos limitados dessa liderança religiosa.
Não foi à toa o que disse Jesus em Mateus 7: 22.23. Alguns denominacionais preferem pensar, convenientemente, que isso se refere apenas ao perfil do líder que usa o fiel pra enriquecer de forma ilícita. Ora, Jesus se refere a TODOS que, EM SEU NOME, intimidam o ingênuo com suas profetadas, seja de que tipo for a profetada.
Como vc falou em outra postagem, o peso da responsabilidade de quem lidera é muuuuito grande! E, por isso, tem que ser constantemente reavaliado. Na perspectiva de um Deus imensamente misericordioso...
Um fim de semana abençoado para todos!
R.
Regina,
ExcluirAlguns profetas, líderes, ministros, etc. da atualidade deveriam apenas pensar sobre a responsabilidade de dizer: "Deus me mandou dizer" ou "Deus te diz".
Quem é o homem, como pecador para ter ousadia de dizer "Deus fala na minha boca"? É necessário muita reverência, responsabilidade, coragem, certeza, santidade, etc. para tal.
Daí fica a pergunta: Todos fazem - ou sabem - isso?
Abraço!
Como diria a postagem anterior, a resposta é clara, simples e transparente:
ResponderExcluirAo homem cabe edificar, exortar e consolar.
O mais é pretensão!