Recentemente minha atenção foi
despertada para este assunto por um ativista gay que veio aqui no blog
Tempora-Mores questionar minha afirmação de que o padrão bíblico é o casamento
heterossexual e monogâmico. “Como assim?” questionou o sábio e entendido ativista
(que se declarou ex-evangélico), “no Antigo Testamento temos a poligamia como
modelo de casamento usado por homens como Abraão, Davi e Salomão, e o silêncio
cúmplice de Deus sobre suas mulheres e concubinas”. E soltou sua conclusão, que
da mesma forma que Deus no passado alterou o padrão de casamento, da monogamia
para a poligamia, podia também em nossos dias alterar o casamento heterossexual
para homoafetivo. Então, tá.
Como eu não havia antecipado este
argumento no post sobre teologia gay, achei que deveria dar alguma atenção
ao mesmo e escrever algo sobre poligamia. Aos fatos, então.
Encontramos no Antigo Testamento
diversos exemplos de poligamia. Os
mais conhecidos são estes:
·
Lameque – duas esposas: Ada e Zilá (Gn 4.19).
·
Patriarca Abraão – três esposas: Sara, Agar, Quetura e
várias concubinas (Gn 16.1-3; 25.1-6).
·
Esaú – três esposas: Judite, Basemate e Maalate (Gn
26.34-35 e 28.9).
·
Patriarca Jacó – duas esposas: Raquel e Lia, e duas
concubinas: Bila e Zilpa (Gn 29.21-35).
·
Elcana – duas esposas: Ana e Penina (1Sm 1.1-2).
·
Juiz Gideão – muitas esposas e concubinas (Jz 8.30).
·
Rei Davi – oito esposas: Mical, Abigail, Ainoã, Maaca,
Hagite, Abital, Eglá, Bate-seba e mais outras mulheres e concubinas (1Sm
25.40-43; 2Sm 3.2-5; 5.13; 2Cr 14.3).
·
Rei Salomão – a filha de Faraó, setecentas outras esposas
e trezentas concubinas (1Rs 3.1; 11.1-3).
·
Rei Acabe – uma esposa: Jezabel e outras mulheres e
concubinas (1Rs 16.31; 20.2-5).
·
Rei Abias – catorze mulheres (2Cr 13:21).
·
Rei Roboão – duas esposas: Maalate, Maaca, mais dezoito
outras mulheres e sessenta concubinas (2Cr 11.21).
·
Rei Joás – duas mulheres (2Cr 24.1-3).
·
Rei Joaquim – muitas mulheres (2Cr 24.15).
Estes fatos levantam várias perguntas,
sendo a mais importante esta: Deus sancionou e aprovou estes casamentos
poligâmicos? Se não, por que não há uma proibição clara da parte dele? Seu
silêncio significa que o modelo de casamento pode variar com a cultura –
monogâmico, heterossexual, poligâmico, homossexual – e que isto pouco importa
para Deus? Em resposta ofereço os seguintes pontos como resultado do meu
entendimento destes textos acima e de outros referentes à poligamia no Antigo e
Novo Testamento.
1. Sem dúvida alguma, o padrão divino
para o casamento sempre foi a monogamia heterossexual, isto é, um homem e uma
mulher: “Disse mais o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei
uma auxiliadora que lhe seja idônea... Por isso, deixa o homem pai e mãe e se
une à sua mulher, tornando- se os dois uma só carne” (Gn 2.18-25).
2. O desvio deste padrão ocorreu
somente depois da queda de Adão e Eva (Gn 3), começando com Lameque, o
assassino vingativo, filho de Caim (Gn 4). Depois dele, a poligamia foi
praticada por diversos motivos. Entre os exemplos de poligamia no Antigo Testamento,
encontramos alguns que eram políticos, ou seja, para selar tratados
internacionais, como Salomão que se casou com a filha de Faraó (1Rs 3.1) e
Acabe que casou com Jezabel, filha do rei dos sidônios (1Rs 16.31), além das
mulheres que já tinham. Há outros casos em que o desejo de ter filhos e
preservar a descendência parece ter motivado a aquisição de mais uma esposa ou
concubina, no caso da esterilidade da primeira esposa, como foi o caso de Sarai
ter trazido sua serva egípcia Agar para Abraão (Gn 16.1-4), costume praticado
no Antigo Oriente. Provavelmente foi o mesmo caso de Elcana, casado com Ana
(estéril) e depois com Penina (1Sm 1.1-2). Havia também o desejo de ter muitos
filhos em caso de guerra (cf. Jz 8.30; 2Sm 3.2-5; 1Cr 7.4, 11.23, etc.). Nenhum
destes casos, porém, justifica a poligamia, pois se trata de um desvio do
padrão monogâmico.
3. Apesar do surgimento da poligamia
cedo na história de Israel, a monogamia continuou a regra entre os israelitas e
a poligamia, a exceção. Abraão mandou seu servo conseguir uma esposa para seu
filho Isaque (Gn 24.37). Na genealogia dos descendentes de Judá, de entre
dezenas de nomes, apenas um é citado como tendo tido duas mulheres, Asur (1Cr
4.5). No livro de Provérbios encontramos o encorajamento ao casamento
monogâmico (Pv. 5.15-20; 12.4; 19.14). A ode feita à mulher virtuosa em
Provérbios 31 pressupõe que ela é a única esposa do marido felizardo. Mesmo que
Cantares tenha sido escrito por um polígamo, que foi Salomão, transparece
claramente dele que o casamento é entre um homem e uma mulher, figura da
relação de Deus com seu povo Israel. A poligamia, por razões econômicas,
acontecia quase que exclusivamente entre os ricos, como os juízes e reis.
4. Os profetas tomam o casamento
monogâmico para ilustrar a relação entre Deus e seu povo Israel (Jr 2.1-2; Os
3.1-5; Is 54.1-8; Jr 3.20). O profeta Malaquias denuncia a prática que havia em
seus dias dos judeus se separarem de sua esposa para casarem com estrangeiras,
mostrando assim que a poligamia não era o padrão estabelecido e muito menos o
padrão comum e normal em Israel (Ml 2.13-16).
5. A lei de Moisés trazia diversas
restrições e cuidados quanto à poligamia em Israel. A mulher israelita que
fosse comprada para ser a segunda esposa teria os mesmos direitos que a
primeira e seus filhos seriam igualmente herdeiros (Ex 21.7-11). O filho
primogênito, ainda que da esposa aborrecida, teria o direito de herança acima
do filho da esposa amada (Dt 21.15-17). Um homem casado não poderia casar com a
irmã da sua esposa, o que provocaria a rivalidade entre ambas (Lv 18.18; cf. Gn
30.1).
6. Vários destes exemplos de famílias
poligâmicas registrados no Antigo Testamento são acompanhados dos problemas que
o sistema inevitavelmente causava. Os judeus casados com mulheres pagãs eram
levados a adorar os deuses delas e assim pecar contra Deus. Havia uma
advertência na lei de Moisés aos futuros reis de Israel contra a poligamia
neste sentido: “Tampouco para si multiplicará mulheres, para que o seu coração
se não desvie” (Dt 17.17), conselho este que não foi seguido por Salomão, cujas
muitas mulheres pagãs o levaram à idolatria em sua velhice (1Rs 11.1-8). Foi
assim que Neemias interpretou o episódio de Salomão e suas muitas mulheres,
quando proibiu os judeus depois do cativeiro de multiplicar esposas pagãs (Ne
13.25-27).
7. Além do risco da apostasia, a
poligamia trazia profundos conflitos nas famílias poligâmicas. Havia ciúmes
entre as mulheres, que disputavam entre si o amor do marido e competiam em
número de filhos (Gn 16.4; 1Sm 1.5-8; Gn 30.1-26). Podemos ainda mencionar a
angústia que as mulheres pagãs de Esaú trouxeram a seus pais (Gn 26.34-35). O
marido acabava gostando mais de uma que da outra, favorecendo a amada e
desprezando sua rival e seus filhos (Gn 29.30; 1Sm 1.5; 2Cr 11.21), o que levou
a lei de Moisés, para amenizar esta situação, a estabelecer a lei dos filhos da
aborrecida (Dt 21.15-17). Outro problema trazido pela poligamia dos reis de
Israel era a briga entre os filhos das diversas mulheres quanto à sucessão, muito
bem exemplificada na sucessão de Davi, veja 1Reis 1.
8. No Novo Testamento na época de Jesus
a monogamia era claramente o padrão entre os judeus. Quando alguns fariseus
vieram experimentar Jesus com uma pergunta capciosa sobre o divórcio, o Senhor respondeu
tendo o casamento monogâmico como pressuposto comum e aceito: “Não tendes lido
que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e que disse: Por esta
causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois
uma só carne? De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o
que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mt 19.3-19).
9. Nas igrejas cristãs entre os
gentios, o padrão monogâmico estava já estabelecido, embora na sociedade grega
a poligamia fosse conhecida e praticada. Escrevendo aos coríntios Paulo
declara: “Quanto ao que me escrevestes, é bom que o homem não toque em mulher;
mas, por causa da impureza, cada um tenha a sua própria esposa, e cada uma, o
seu próprio marido” (1Co 7.1-2). Aos Efésios, ele compara a relação entre o
marido e a esposa à própria relação entre Cristo e sua Igreja: “Eis por que
deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os
dois uma só carne. Grande é este mistério, mas eu me refiro a Cristo e à igreja”
(Ef 5.22-33).
10. Paulo claramente proíbe que os
líderes das igrejas gentílicas fossem polígamos ou bígamos. Os
bispos/presbíteros tinham de ser “esposos de uma só mulher” (1Tm 3.2; Tt 1.3-5)
bem como os diáconos (1Tm 3.12).
Portanto, não há dúvida, em meu
entender, que o padrão de Deus sempre foi o casamento monogâmico heterossexual,
estabelecido na criação, e que a poligamia do Antigo Testamento foi um desvio
deste padrão, em decorrência do pecado que entrou no mundo pela queda de Adão.
Em Cristo, Deus restaura o casamento à sua forma original.
Contudo, pode parecer que Deus aprovou
ou sancionou a poligamia, considerando que a lei de Moisés trazia
regulamentações referentes a ela e que não há uma proibição direta de Deus
contra a poligamia. Pode ser que nunca venhamos a entender completamente o
silêncio de Deus neste assunto, mas uma coisa é certa: ele não significa que o
assunto é indiferente para o Senhor e nem que “quem cala consente”.
1. As regulamentações da lei de Moisés
sobre a poligamia não podem ser vistas como uma aprovação tácita da parte de
Deus quanto ao casamento poligâmico, uma vez que este nunca foi o padrão por
ele estabelecido. Trata-se da misericórdia de Deus protegendo as esposas e
filhos de casamentos poligâmicos, uma amenização de uma distorção do casamento
até a chegada do Messias.
2. Deus nos revela sua vontade de
maneira gradual e progressiva nas Escrituras. No Antigo Testamento ele se
revelou em figuras, tipos, promessas. A sua revelação final e definitiva se
encontra no Novo Testamento. Antes de Cristo ele suportou sacrifícios de
animais, passou leis referentes a comidas, o sistema de escravidão e levirato,
o apedrejamento de determinados pecados, a lei de talião (olho por olho),
o divórcio por qualquer motivo, etc. A poligamia deve ser vista neste
contexto, como uma das coisas que Deus suportou na antiga dispensação e que foi
definitivamente abolida em Cristo, à semelhança de várias outras.
3. A encarnação e manifestação de
Cristo ao mundo trouxe à luz a verdade outrora oculta, agora revelada pelos
apóstolos e profetas, que Cristo é o cabeça de sua igreja, um povo único,
composto de pessoas de todas as raças, tribos e nações, como o homem é o cabeça
da mulher. E que a relação de amor-submissão entre marido e mulher é uma
expressão da relação amor-submissão entre Cristo e sua igreja. Portanto, a
partir do evento de Cristo, Deus não mais tolera nem suporta a poligamia entre
seu povo, como suportou pacientemente no período anterior à sua vinda, pois sua
vontade quanto a isto é em Cristo e sua igreja plenamente revelada. Em Cristo
restaura-se o padrão original estabelecido por Deus no jardim.
4. Deus pode demonstrar a sua vontade
sobre um assunto simplesmente registrando os males associados a ele, como é o
caso da poligamia. Apostasia, ciúmes, invejas, disputas entre mulheres e filhos
acompanham o histórico da poligamia entre os israelitas. A evidência cumulativa
depõe contra a poligamia, mesmo que Deus não tenha se pronunciado expressamente
contra ela.
5. Aqui é preciso dizer que a revelação
divina se encerrou com o cânon do Novo Testamento, onde o casamento monogâmico
é claramente estabelecido como a vontade final de Deus para seu povo e a
humanidade em geral. Portanto, não podemos aceitar que Deus, em nossos dias,
esteja mudando o conceito de casamento para incluir o casamento homossexual,
uma vez que o homossexualismo é claramente condenado em toda a Escritura
canônica e a mesma se encontra definitivamente encerrada. Sola Scriptura!
Texto longo mas bem claro e didático.
ResponderExcluirO que eu vejo acontecer, é que as pessoas usam a bíblia de maneira bem conveniente e daí tiram suas conclusões para viverem em falsa paz com suas consciências ao fazerem suas escolhas pessoais. O nome disso é manipulação.
Uma vez ouvi um pastor dizer que a Bíblia é usada como sendo a maior das prostitutas. Cada um que a use para seu bel prazer...
Regina,
ExcluirSobre as manipulações da bíblia, você já viu um vídeo na internet de um pastor que pregou que Cristo tinha uma casa na praia?
Nesta pregação, o pastor afirma que Jesus Cristo tinha uma casa de praia enorme em Cafarnaum, nos confins de Zebulom e Naftali, que segundo o pregador foi comprado com dinheiro obtido quando Jesus passou a administrar a carpintaria, pois graças ao seu poder conseguiu reduzir o prazo da entrega dos móveis fabricados e, por isso, o negócio prosperou.
Então, Jesus juntou muito dinheiro e comprou uma casa na Praia, que na interpretação do pastor teria acomodações para mais de 20 pessoas...
www.youtube.com/watch?v=O4SKKXiSlgw
Hoje eu compreendi teu comentário, Rê...
ExcluirEntão...
ResponderExcluirAcho que vou trabalhar com carpintaria. :P
Hahahha..
ExcluirSe precisar de um sócio, me chama!