Por Augustus Nicodemus Lopes
Texto: Salmo 88
Esse salmo termina com as palavras “trevas”. É o único salmo de lamento que
não termina com um final feliz. Os outros salmos de lamento costumam começar
tristes, mas sempre há uma virada no final. O tom sempre muda do desespero para
alegria e esperança. Neste salmo, por outro lado, existe uma dor constante no
salmista. É como se Deus estivesse ausente ou mouco ao seu clamor. Uma das
razões por qual este salmo foi incluído no Canon é para sabermos que, o que
aconteceu com este homem de Deus vai acontecer conosco também. Há muitos irmãos
e irmãs em cristo que sofrem na vida, e muito. Filhos com problemas, doenças
graves e incuráveis, dificuldades financeiras. Como Emã lidou com o sofrimento?
Olhar para isso vai nos ajudar quando o sofrimento chegar.
Emã era um homem sábio e que causava respeito nos demais, mas isso não
impediu que ele passasse por sofrimentos deste a mocidade. Isso era algo que o
acompanhava quase toda a sua vida. Era algo que fazia com que ele sentisse que
o fim dele estava próximo. Ele esperava morrer a qualquer momento. Ele fala do
abandono dos amigos, da exclusão social. Ele diz que a única companhia que ele
tinha era as trevas.
Ele diz que está sofrendo como quem tem dor nos ossos. Ele fala de seu
sofrimento como algo que lhe dá a perspectiva de morrer em breve.
Emã pede que Deus o ouça (v. 1-2)
O sofrimento teve em Emã o efeito contrário do que tem em muitas pessoas.
Ao invés de fazê-lo parar de orar, leva ele a orar mais. Ele quer que a oração
dele chegue à presença de Deus. Parece que o sofrimento maior dele estava na
ausência da presença de Deus. Os puritanos falavam disto como “a noite escura
da alma”. O silencio de Deus durante o sofrimento torna o sofrimento pior
ainda.
Emã descreve seu sofrimento a Deus (v. 3-5)
A palavra “farto”, usada por Emã, traz a ideia de farto de comida, como
alguém que comeu tanto que não consegue mais nem olhar para a comida para não
explodir, tem a ideia de que ele não aguenta mais sofrer. Ele chegou ao seu
limite. Ele se sente como um soldado ferido que era lançado junto dos mortos na
batalha, pois iria perecer em pouco tempo.
Emã diz que foi Deus quem fez isso com ele (v. 6-9)
No meio do sofrimento, ele se volta para Deus e diz: “eu sei que foi o
Senhor que fez isso”. Para um judeu crente, o Deus de Israel era o Deus que
tinha governo sobre todas as coisas. Um judeu não teria problema nenhum em
dizer que seu sofrimento vem da parte do próprio Deus. Essa é uma passagem
importante em nosso país, pois rouba de nós o conforto de saber que é Deus quem
nos dá o sofrimento. Que conforto há em achar que é o diabo quem nos causa os
males? O sofrimento nos é causado por aquele que é o bom Pai sobre nossas
vidas. Saber que Deus está por traz de tudo o que nos toca, ao invés de nos
abater, nos dá conforto. Se é ele quem nos faz entrar, é ele quem nos faz sair.
Emã argumenta com Deus (v. 10-12)
Ele começa a questionar os motivos de Deus fazer tudo aquilo com ele. Ele
diz que, se morrer, como ele louvaria a Deus nesta terra? Como ele seria
pregador da bondade aqui na terra? Se ele morresse, Deus perderia uma
testemunha dele nesta terra. Você teria um argumento deste tipo com Deus? Se
você dissesse: “Deus, se eu morrer, o Senhor vai perder tal coisa”, Deus
responderia: “nem faz diferença”?
Recapitulação de tudo (v. 13-18)
Ele fala novamente da oração. Quanto mais ele sofre, mais ele ora. Ele fala
novamente da consciência da ausência de Deus. É Deus ocultar o rosto que mais
dói em Emã. Novamente, ele faz uma descrição do seu sofrimento. Ele nem sabia
direito o que fazer, pois ele sentia que Deus o havia abandonado. Emã fala que
a Ira de Deus o circunda como alguém que está morrendo afogado, que possui água
por todos os lados: ele possuía a ira de Deus acima, abaixo, de um lado e do
outro – e sem possuir um único ombro para chorar.
Aplicações
Este não foi um momento na vida de Emã, mas parece que isto reflete toda a
vida dele. Muitos crentes de verdade, irmãos em Cristo, que não conseguem
encontrar um momento de alívio, porque a dor está presente na vida deles todos
os momentos.
O fato de que você é crente não quer dizer que você vai ser sempre feliz,
alegre e tranquilo neste mundo;
Deus não tem o compromisso de fazer com que seus momentos de paz e
tranquilidade durem a vida inteira e todos os momentos de sua vida;
Não existe melhor professor de oração do que o sofrimento;
Deus nem sempre responde as oração imediatamente, nem sempre ele alivia a
dor e o sofrimento e nem sempre que ele vem nos responder, ele faz da maneira
como queremos;
Existe uma grande semelhança entre o sofrimento de Emã com o sofrimento do
Messias na Cruz. Lá, Jesus gritou algo parecido com o que o salmista gritou:
“Deus meu, porque me desamparaste?”. Não fique amargurado com Deus por causa do
sofrimento. Nós somos discípulos do crucificado. Precisamos aprender a sofrer.
Esse texto me faz lembrar de um telefonema de alguém (muito próximo a mim) que dizia assim para alguém da família no outro lado da linha: pode começar a dar glórias a Deus pq mamãe já saiu da UTI. (hã?!)
ResponderExcluirVejo essa cultura do Deus eterno provedor entre aqueles que se acham muito corretinhos, como se fosse um toma lá dá cá onde 'por um lado eu sou um religioso obediente e tu (Deus), por outro lado faz as minhas vontades'. São os mesmos que usam erroneamente o versículo 'tudo posso naquele que me fortalece' sem ler o contexto que diz, na verdade 'tudo posso SUPORTAR naquele que me fortalece. Veja a conotação completamente diferente que no primeiro confere um falso 'poder' ao homem, quando, na verdade, pelo segundo, conforme o contexto, sabemos com quem está todo o poder e quem, de fato, tudo pode!
É verdade Regina...
ExcluirEu mesmo muitas vezes ouvi pregações "vitoriosas" nesta parte do "Tudo posso naquele que me fortalece", como também naquela parte "que diremos pois sobre essas coisas, se Deus é por nós, quem será contra nós".
Depois de anos, ao ler esta segunda parte no contexto, entendi que se refere ao amor que Deus nos amou, através do sacrifício feito por Cristo, tirando de sobre nós toda a acusação de nossos pecados, mesmo sendo aquelas feitas pelo diabo contra nós.
Confesso que entender esta parte no contexto, me quebrantou muito mais e me fez ser muito mais grato do que o discurso triunfalista pregado fora do contexto.
Abs!!