03/02/2014

Justiça se faz com Amor

Por Ed Rene Kivitz (via Facebook)

“Quando eu falo da pobreza todos me chamam de cristão, mas quando eu falo da causas da pobreza me chamam de comunista. Quando eu falo que os ricos devem ajudar os pobres me chamam de santo. Mas quando eu falo que os pobres têm que lutar pelos seus direitos, me chamam de subversivo”. Estas palavras de Dom Hélder Câmara retratam ainda hoje a opinião de muita gente. Mas atribuir a luta pelos direitos dos pobres e o engajamento pela justiça social aos ideários ideológicos da esquerda implica desonestidade intelectual, ignorância ou má fé. 

Sendo verdadeiro que praticar a justiça é dar a alguém aquilo que lhe é de direito, precisamos nos perguntar de onde vem o direito humano de ter direitos. A resposta da tradição judaico-cristã se encontra já na primeira página da Bíblia Sagrada: “criou Deus o homem à sua imagem e semelhança” [Gênesis 1.26,27].

A tradição rabínica ensina que, ao criar um só homem, Deus criou todos os homens. Em cada ser humano está toda a raça humana. A noção da igualdade intrínseca entre todos os seres humanos é a base de sustentação de todos os direitos humanos. Todo mundo tem direito a ter direito. O direito de um ser humano é direito de todos os seres humanos. 

Portadora da imago Dei, a vida humana tem valor divino, e, justamente por isso, Deus é seu maior guardião: “Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus foi o homem criado” [Gênesis 9.5,6]. 

A justiça, nos termos de equidade entre todos os seres humanos, é usada para afirmar a identidade de Deus e apresentá-lo a Israel. Timothy Keller enxergou que “o Deus da Bíblia se diferenciou dos deuses de todas as outras nações como um Deus que defende os fracos e faz justiça aos pobres”: “Pois o Senhor, o seu Deus, é o Deus dos deuses e o Soberano dos soberanos, o grande Deus, poderoso e temível [...] que defende a causa do órfão e da viúva e ama o estrangeiro, dando-lhe alimento e roupa” [Deuteronômio 10.17-19], e também: “Ele defende a causa dos oprimidos e dá alimento aos famintos. O Senhor liberta os presos, o Senhor dá vista aos cegos, o Senhor levanta os abatidos, o Senhor ama os justos” [Salmo 146.7,8].

A justiça social é expressão cúltica e devocional requerida por Deus: “O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajuda ao próximo?” [Isaías 58.6,7].

A justiça social é marca distintiva dos justos de Deus: "Suponhamos que haja um certo justo que faz o que é certo e direito [...] Ele não oprime a ninguém, mas devolve o que tomou como garantia num empréstimo. Não comete roubos, mas dá a comida aos famintos e fornece roupas para os despidos. Ele não empresta visando lucro nem cobra juros. Ele retém a sua mão para não cometer erro e julga com justiça entre dois homens [...] Aquele homem é justo” [Ezequiel 18.5-9]. Jó foi apresentado na Bíblia não apenas como um homem bom, mas como justo (tzadik), que praticava a justiça (tzedaká).

A justiça social é critério para o julgamento das sociedades e das nações: “Ora, este foi o pecado de sua irmã Sodoma: Ela e suas filhas eram arrogantes, tinham fartura de comida e viviam despreocupadas; não ajudavam os pobres e os necessitados” [Ezequiel 16.49]. Também Jesus sublinhou a justiça social como régua para juízo: “Eu tive fome, e vocês não me deram de comer; tive sede, e nada me deram para beber; fui estrangeiro, e vocês não me acolheram; necessitei de roupas, e vocês não me vestiram; estive enfermo e preso, e vocês não me visitaram” [Mateus 25.31-46].

O cuidado dos órfãos, das viúvas, dos pobres e dos estrangeiros, isto é, pessoas em situação de vulnerabilidade, não é opcional diante de Deus: “Assim diz o Senhor: Administrem a justiça e o direito: livrem o explorado das mãos do opressor. Não oprimam nem maltratem o estrangeiro, o órfão ou a viúva; nem derramem sangue inocente neste lugar” [Jeremias 22.3].

Jesus era herdeiro da tradição de Israel, e seus ensinos e práticas foram coerentes com a noção de justiça da Lei e dos Profetas. A referência profética que escolheu como porta de entrada para seu ministério público deixou absolutamente clara sua agenda de solidariedade divina com o pobre, oprimido e sofredor: “O Espírito do Senhor está sobre mim porque o Senhor ungiu-me para levar boas notícias aos pobres. Enviou-me para cuidar dos que estão com o coração quebrantado, anunciar liberdade aos cativos e libertação das trevas aos prisioneiros, para proclamar o ano da bondade do Senhor e o dia da vingança do nosso Deus; para consolar todos os que andam tristes, e dar a todos os que choram em Sião uma bela coroa em vez de cinzas, o óleo da alegria em vez de pranto, e um manto de louvor em vez de espírito deprimido. Eles serão chamados carvalhos de justiça, plantio do Senhor, para manifestação da sua glória” [Isaías 61.1-3]. Digno de nota é o fato de que, ao ler a profecia de Isaías na Sinagoga de Nazaré, Jesus omite a expressão “o dia da vingança” [Lucas 4:17-19]. Seguir a Jesus implica dizer sim para a justiça que se faz com amor.


8 comentários:

  1. Dom Hélder é uma referência de cristão da minha adolescência e juventude. Chamado de comunista, no seu sentido mais pejorativo, foi um dos poucos discípulos de Jesus que conheci, que mais se aproximaram do que se requer, na prática, de um cristão. E, claro, não por meio daquelas obras nojentas programadas e mecanizadas que as pessoas acumulam na intenção de obter bênçãos, bonificações e ticket celestial. Porém, num caminhar NATURAL, bondoso mas firme, sem perder o ritmo, constante e coerente, em admiráveis condutas de quem tem em si, o fruto do Espírito. Não foram poucas as pessoas, de todos os credos, que diziam sempre: 'esse homem é diferente'.

    Ah, e eu me lembrei de quando Ed René veio a Recife há uns dez anos, pregar na IECB, denominação à qual 'não pertenço' he he lá fui (novinha na fé e cheia de rigor rss) com os ouvidos preparados para ouvi-lo falar de 'como deve se portar um cristão'. E, claro, diferente daquele modelo xiita que haviam me oferecido.

    Afinal, eu havia lido 'Vivendo com Propósitos' de sua autoria e ainda estava bem fresquinho na minha mente, então imaginava que ele fosse falar sobre a falsa ideia de felicidade que assola os lugares religiosos, que ele ia falar de vida prática, que ia ser 'didático', derrubando todas aqueles conceitos doutrinários que eu havia ouvido por um bom tempo. Até me lembro que levei comigo alguns religiosos de carteirinha, para ouvir sua pregação; desses que defendem primeiro sua denominação e rituais, depois, se der, lembram de Jesus e do próximo. Achei que ele seria o pregador ideal para derrubar essa tese. (Somos uns pretensiosos, não?!)

    Imagine a minha decepção. Ele falou sobre 1Co13. E eu, transbordando daquele 'primeiro amor', achei que ele não precisava falar do óbvio ao convertido. Não entendia naquele momento que esse amor também é um EXERCÍCIO no chão da existência. Por isso, queria mesmo era que ele dissertasse como o fez tão bem no livro, para derrubar aquelas ideias engessadas nas mentes dos 'visitantes' da minha igreja.

    Só que o Espírito é livre, como diria Jesus ao legalista Nicodemus...

    Enfim, daquilo que eu pensava que já sabia, passei dias e dias 'ruminando' e ainda hoje tento aprender que o amor é ESSENCIAL, constituindo-se na BASE para uma apropriada administração de qualquer dom espiritual.

    Somos mesmos uns boçais na nossa limitada visão de 'justiça'...

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    1. Excelente comentário Rê!

      E veja quão lindo foi, o Espírito Santo te fez "ruminar" por dias a fio. Se fosse uma mensagem já conhecida, talvez não fizesse tanto impacto.

      Deus te abençoe!

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  2. Não sei ao certo, mas acho que isso se deu em 2006...

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  3. Peço desculpas pelas 2 exclusões . Erro feio de português rss...

    Lendo o texto acima me veio em memória a parábola do" mendigo Lázaro e o rico"

    Entendi que o rico não foi condenado por causa da sua riqueza e ostentação , mas por que não "olhou" para o outro , não se preocupou em ajudá-lo. E isso também está bem claro nas palavras de Jesus , como sentença de Juízo Final:


    "Tive fome e não Me destes de comer, tive sede e não Me destes de beber; era peregrino e não Me recolhestes; estava nu e não Me vestistes; enfermo e na prisão, e não fostes visitar-Me (Mateus 25, 42-43).

    Acredito que nada é por acaso! O segredo está no " ajudar uns aos outros" . . Aquele que tem Cristo em seu coração , mesmo não possuindo grande riqueza, já traz consigo , de forma espontânea, esse desejo de ajudar o seu irmão ou o necessitado. Tem em si ,esse senso de amor e justiça.



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    1. Bom comentário, irmã Sônia.

      E que Cristo cresça em nossos corações!

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  4. Queridos, esta experiência que vou relatar aconteceu com um irmão da igreja. Ele contou-nos várias experiências, mas, esta foi a que mais tocou profundamente o meu coração e resolvi compartilhar com os leitores.
    João (fictício) é uma pessoa que gosta muito de ajudar os necessitados. Contou-nos que, certo dia estava tirando um cochilo, quando de repente sentiu perder os sentidos e nisso teve uma visão arrebatadora. Via uma rua de paralelepípedos, e em certa altura dessa rua foi-lhe mostrado uma casinha que ficava nos fundos. Nisso, ele via correndo pelos corredores uma criancinha de aproximadamente uns 3 aninhos, de fraldinhas, com uma mamadeira. Essa criança ao se aproximar do portão, colocou para fora, entre as grades, aquela mamadeira contendo suco, e disse ansiosa: "Você trouxe o meu leitinho?" João voltou a si um tanto impressionado com aquela visão e com a certeza de que conhecia aquele local. Mas, uma dúvida entrou em seu coração: "Será que foi uma revelação divina ou foi coisa da minha cabeça? E se eu for até lá e passar vergonha?". Então em pensamento falou com Deus: "Senhor, se foi Tu que me revelou isso , permita que outro algúém também tenha a mesma visão."
    Quando foi no dia seguinte, alguém bateu em seu portão. Ele foi atender. Era um amigo seu da igreja , que lhe perguntou com uma certa euforia: "João, voce tem uma visão, naõ tem?" João respondeu-lhe: "Sim!" Seu amigo continua: "Por acaso não é uma visão sobre uma rua de paralelepípedos, uma casa, etc..." contando-lhe toda a visão que era exatamente igual a de João, que lhe responde com o coração cheio de alegria: "Sim, sim, é isso mesmo!". Então seu amigo lhe diz: "Que estamos esperando , vamos atender essa necessidade!"
    Foram ao supermercado, compraram uma caixa grande com dezenas de caixas de leite e se dirigiram ao local. Como aquele local já era familiar para João, não tiveram dificuldades em encontrá-lo.
    Tocaram a campainha e aguardaram. Nisso, vêm surgir lá no fundo do corredor uma criançinha de aproximadamente uns 3 aninhos, de fraldas , com uma mamadeira nas mãos. Quando os vê, vem correndo em direção a eles e ao aproximar-se do portão, coloca aquela mamadeira com suco para fora entre as grades e diz: "Você trouxe o meu leitinho?". Com lágrimas nos olhos, eles respondem que sim. Logo em seguida aparece um homem caminhando em direção ao portão para atendê-los. Era o pai da criança. João e seu amigo lhe contam sobre a visão. Aquele pai recebe aquela caixa de leite com lágrimas e diz que estava passando por necessidade e não tinha dinheiro suficiente para comprar diariamente o leite para o seu filho que chorava pedindo.
    Abraços e fiquem com Deus.

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    1. Irmã Sônia,

      É bonito teu relato, porém eu digo o que acontece comigo.

      Se eu tomo conhecimento de alguma situação, eu vou e faço. Afinal aprendi isto com o Senhor Jesus, que nunca dispensou ninguém com fome ou vazio.

      Se algum sentimento me toma, como esta visão (algo que nunca tive, mas já me aconteceu de vir uma pessoa em mente e o que devia fazer), eu vou e faço também.

      Eu discordo dos "sinais de confirmação". Desculpe, mas graças a Deus a primeira coisa que aprendi desde que me converti foi saber quando é Deus.

      Sei que a criança foi atendida, porém como "a confirmação" só veio no dia seguinte, a criança teve que passar mais um dia com suco, quando já poderia ter recebido o leite.

      E se isto acontecesse comigo, eu me envergonharia de não ter ido antes e me culparia pelo choro daquela criança pelo dia de atraso que eu esperei "a confirmação".

      Desculpe a sinceridade da minha resposta. Sei que a irmã é sensível, mas também sei que a irmã sabe compreender o que escrevo.

      Deus te abençoe.

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    2. Entendi irmão HP. Mas eu acho que ele pediu a confirmação , porque duvidou da visão . Ele disse que achava que era "coisa de sua cabeça" .

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