Para ele, a vida não poderia
estar pior.
Sabia de seu destino desde
criança: não só por tradição, mas por medida de segurança, todo rei de outra
linhagem que assume um trono, procura qualquer descendente do que foi deposto
para matá-lo. Que poderoso gostaria de dormir sabendo que alguém, em algum
lugar, poderia querer vingar o parente deposto, assassinando-o, exigindo para
si mesmo a coroa? Quem sabe liderar uma rebelião para reclamar o trono, dele
por direito?
Um dia seria entregue ao rei.
E ele era consciente: seria seu fim. Dormia e acordava todos os dias de sua
vida na expectativa que o encontrassem.
Era ele de linhagem nobre?
Sim, neto de rei, filho de príncipe, embora vivesse como mendigo, de favor na
casa de um certo Maquir. Ficara aleijado das pernas quando era de colo, durante
a fuga, quando invasores inimigos estrangeiros chegaram e a matança de seus
parentes aconteceu: a babá deixou-o cair e nunca o tratou. Sua higiene,
alimentação, locomoção, em tudo dependia da boa vontade de quem o suportava, em
meio a poeira e gritaria dos frequentadores do mercado central, onde conseguia
esmolas que um ou outro davam.
Naquela manhã ainda não havia
comido, ninguém se aventurou a dar-lhe ao menos um pão seco ou alguma tâmara
que não fosse fazer falta na mesa daqueles que ali gastavam. Quando os oficiais
apareceram e se aproximaram, pensou que lhe dariam alguma moeda, mas
perguntaram pelo nome e filiação, e então, o aleijado já sabia. Não demoraram a
perceber que ele era aleijado das pernas, os ossos calcificaram tortos por
falta de tratamento e agora, quando tentava andar, numa subida e descida
frenética de corpo, as mãos precisam auxiliá-lo.
Agora, Estava a caminho de sua
condenação, finalmente. E com fome.
– Quem sabe o rei, ao me ver,
percebe que não represento perigo algum? – pensou ele, enquanto era escoltado
ao palácio. Buscava em sua memória algum traço de esperança, mas não conseguia
lembrar nada que pudesse dar forças para isso. Apesar de sua vida miserável,
alimentando-se das migalhas e sobras, morrer não lhe parecia uma opção desejável.
Pelo menos, o medo desse esperado encontro não precisaria mais o acompanhar
para sempre.
Se ele merecia ser morto? Além
dos pequenos furtos feitos nas bancas e armazéns por onde perambulava? Ele era
do sangue daquele que representava risco ao atual comando do reino. Ele era a
possibilidade de rebelião e isso, se levado adiante, gera guerra, e perdas de
vida, dor, choro.
Chegou ao palácio, e com
estranha gentileza por parte dos oficiais, foi carregado pelas escadarias a
sala onde o rei despachava.
– Vergonha Despedaçada! –
disse o rei, sorrindo ao vê-lo.
Seu nome é esse. Traduzi para
que você entendesse melhor o que era sua vida. Algumas pessoas possuem belos
nomes. Nomes de reis ou de grandes personalidades. Ele não: A tradução - do
hebraico – de seu nome era essa: Vergonha Despedaçada, ou Mefibosete.
Ele recuou. O que está
acontecendo? – pensou. Por que o rei parece estar feliz em me ver?
– Não tenha medo, Mefibosete –
disse o rei – Serei bom com você. Meu tratado foi com seu pai, e a este acordo
sou fiel. Um pacto que supera, e muito, os pactos de sangue. A você entrego os
bens que pertenciam a seu avô: terras, propriedades.
– Quem sou eu, esse cão
vagabundo, para que o rei se agrade da minha vida? Olhe! Um aleijado….
– Em você vai algo que homem
nenhum pode oferecer: a realização de uma promessa ao seu sangue, seu pai
Jônatas, meu amigo. Eu o vejo quando olho para você….
Mefibosete não entendia tanta
generosidade, não conheceu esse tipo de presente exagerado por saber que não
tinha nada para oferecer em troca. Tudo aquilo tinha que ter um preço.
– Tem algo que exijo que você
faça. - disse o rei.
Mefibosete sentiu a alma
congelar: o que o rei exigiria por tamanha oferta? Lá vem, finalmente. a conta
de tamanha paga. O rei responde:
– Quero que comas a minha
mesa. – disse o Rei Davi – Comerás entre meus filhos, e tudo que estiver na
minha mesa, é seu também.
O dia começou como um dia
qualquer, regado do medo cotidiano de que um dia seria pego e pagar o preço por
ter o sangue que lhe daria a pena capital. Acabou o dia abandonando as vestes
de indigente, jantando a mesa com o homem mais poderoso do país e dormindo na
mansão que um dia julgou ser um sonho que nunca mais voltaria.
Um dia estamos nos revirando
nas porcarias que vida nos ofereceu, com o medo disfarçado de quem sabe que não
faz o que deveria. Sabemos que adiamos o inevitável, tentando imaginar como
faremos quando o dia de pagarmos a dívida chegar.
Mefibosete agora mancava entre
príncipes e princesas, e em seu prato havia o mesmo que o supremo governador de
um país tinha.
Para ele foi mais fácil: não
tinha como fugir, não tinha como pagar, não tinha como devolver. Da parte dele
não havia nada o que fazer e por isso, esperar calado seu decreto diante de um
rei - que diziam ser justo – é o que lhe cabia.
O apóstolo Paulo conta que
Deus é por nós. Sabemos o que merecemos quando tomamos consciência de nossas
misérias pessoais, de como mancamos entre mentiras e mesquinharias, na
calcificação torta de ideias torpes e egocêntricas. Só então, saberemos o que
fazer quando chegar o dia repentino e formos diante daquele que pode julgar,
condenar e aniquilar:
Calar e esperar o veredito.
Não há reivindicação, nem
direitos: e o que fiz de bom? Era minha obrigação desde que estou inserido numa
sociedade que se denomina “humana”.
Pela Graça, quem sabe, Ele
possa olhar-nos e, em vez de ver o miserável indigente cheio de mesquinhas
necessidades, enxergue aquele que morreu por você e diga: “Não vejo um cão
vagabundo que quer destruir meu Reino com traições: vejo nos seus olhos alguém
muito amado, no qual selei meu pacto com sangue numa cruz”.
A pequena trágica parábola
viva de Mefibosete nos conta que o rei não tem apenas a intenção de nos
absolver, de nos deixar vivos:
Devolver aquilo que um dia nos
fez humanos e dignos, e exige que nos deleitemos em sua mesa, junto aos
príncipes e princesas de seu Reino.
Difícil entender as ideias
desse Rei mas nada disso é novidade. Embora essa Graça não seja tão simples de
ser aceita por pessoas que ainda não reconheceram o Mefibosete que nelas
habita.
Baseado na Bíblia, 2 Samuel 9.
Baseado na Bíblia, 2 Samuel 9.
Nossa...esse texto caiu dos céus...
ResponderExcluirAo acordar hoje pensei " Senhor, que situação miserável a minha"
Sou pecador, tento fazer o que é bom, mas não consigo, sofro por isso
Ao ler esse texto...lembrei-me que minha esperança é Cristo.
Nilton
:-)
ExcluirCoisa boa saber disso Nilton.
Que Deus te abençoe cada vez mais!!