JILL
SMOLOWE - THE NEW YORK TIMES
18 Junho 2015 | 06h
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‘Sim, eu era a noiva. Mas também era uma mulher casada cujo amor pelo
primeiro marido não cessou no túmulo e não iria acabar no altar também’
Entre os conceitos
equivocados mais populares sobre a dor e sua trajetória um que particularmente
irrita pessoas que ficaram viúvas é de que, com um novo relacionamento amoroso
você deixa de sofrer.
É ridículo.
Conversando com centenas de indivíduos que ficaram viúvos, descobri que, como
eu, todos aqueles que sepultaram um companheiro amado jamais deixaram de sofrer
a sua perda. À medida que o tempo passa e a vida abre novas possibilidades e
oportunidades, a intensidade da dor diminui, torna-se mais tolerável e menos
crucial no decorrer dos dias. Mas o amor não desaparece. E esteja certo, onde
há amor, há dor.
Isto ficou claro
mesmo no dia em que me casei pela segunda vez, em 2013. Minutos antes da
singela cerimônia, repentinamente, me vi lutando para conter as lágrimas que me
impediam até de identificar minha filha Becky, e caminhei pelo longo corredor
em direção da salão onde foi realizado meu casamento com meu novo amor, Bob.
"Você tem de
parar de pensar no papai", disse minha filha.
Era isto? pensei. Ali
estava eu, frente a frente com Bob e então me dei conta: sim, era exatamente
isto. Ao ver as lágrimas pelo meu rosto, Bob também tentava conter as suas.
Como eu, ele tinha perdido sua querida esposa que morreu de um câncer. E como
eu ele tinha plena consciência de que não estaríamos ali, cercados por nossos
três filhos, se nossos consortes ainda estivessem vivos.
Discutimos tudo isto
nos meses que antecederam o nosso casamento. Mas não imaginava o quão dolorosa
aquela separação seria num momento de tamanha alegria. E também não consegui
prever a dor que senti quando o proprietário da pousada onde passamos nossa
noite de núpcias nos recebeu ruidosamente dizendo "os recém-casados
chegaram". Nesse momento percebi que a partir daquele dia as pessoas não
mais me veriam como a viúva de Joe; para o mundo eu era agora a mulher de Bob.
E assim é. Mas sou
também a esposa de Joe. O que faz de mim uma bígama.
Demorou algum tempo
para me convencer disto. Agora que estou convencida, acho bom explicar porque a
decisão de nos casarmos não provocou nenhuma efervescência na boca do meu
estômago. Ou porque não senti nenhuma pressa de dizer ao mundo: "estou
noiva!". Ou porque fingi estar entusiasmada para estar condizente com as
vendedores da loja onde comprei meu vestido de casamento. Ao mencionar em voz
baixa que o casamento em questão era o meu próprio, os gritos de "a
noiva" me deixaram embaraçada.
"Claro, eu era a
noiva. Mas também era uma mulher casada cujo amor pelo primeiro marido não
cessou no túmulo e não iria acabar no altar também. Bob sentia o mesmo com
relação à sua mulher, Leslie, o que explica porque não conseguíamos nos sentir
recém-casados após nosso casamento. Fui casada durante 24 anos; ele 37. A ideia
e o mistério do casamento não eram novidade para ambos. Esta nova união não
apagou o que cada um de nós já tivera. Apesar de a morte ter perturbado o
sentido de permanência de ambos, a dedicação e o amor pelos nossos consortes
falecidos permaneceram intactos.
Hoje, depois de cinco
anos casados, os sentimentos de Bob e os meus com relação aos nossos esposos
falecidos não mudaram. Nem queremos. E não esperamos isto um do outro. Enquanto
muitos amigos raramente evitam mencionar os nomes de Joe ou Leslie (não sei se
é porque nos casamos novamente ou porque as pessoas temem que a simples menção
dos nomes deles possa nos perturbar), entre nós conversamos o tempo todo sobre
eles. Nossa casa está repleta de fotos dos nossos primeiros casamentos.
Queremos que nossos filhos sintam-se "em casa" quando nos visitam.
Como seria possível se não houvesse lembranças dos seus outros pais?
A maior parte do
tempo sou mulher de Bob, papel bem diferente de ser a mulher de Joe. Não é que
eles sejam - é claro - duas pessoas completamente diferentes. Se o meu
casamento com Joe teve de enfrentar os desafios de construir nossas carreiras,
uma família e um patrimônio, minha união com Bob envolve outros tipos de
desafios: como desenvolver atividades que nos satisfaçam após nossa aposentadoria,
como nos colocarmos à disposição dos nossos filhos sem interferir na vida
deles, como desfrutar do nosso patrimônio construído com tanta dificuldade e ao
mesmo tempo deixar um suporte financeiro para nossos filhos. Quando penso no
futuro penso em viajar, escrever e dar aulas, em netos (espero), na mulher de
Bob (sem dúvida).
Mas não passa um dia
sem que eu me sinta também a esposa de Joe. Normalmente essa sensação é
provocada por alguma coisa relacionada a Becky, que logo mais completará 21
anos e um ano depois irá se formar na faculdade. Quero ansiosamente saber o que
será dela na vida adulta - mas o diálogo que desejo muito não é com Bob. É no
conselho de Joe que penso quando me pergunto como enfrentar essa questão: ela é
adulta agora, salvo quando não é. A tranquilidade de Joe que busco ansiosamente
quando ela me anuncia que está fazendo uma viagem de carro de 22 horas sozinha.
É a voz prudente de Joe que ouço quando percebo que estou prestes a dar um
conselho que não foi pedido.
Joe também está muito
vivo para mim de outras maneiras que não têm relação com Becky. Vejo seu
sorriso de satisfação toda vez que uso uma joia que ele me presenteou. Ouço sua
risada quando escrevo uma frase bem humorada. Sinto o cheiro do seu suor quando
me estendo no tapete do quarto para esticar e aliviar um músculo dolorido e
imagino que ele está ao meu lado, também se esticando depois de um longo
passeio de bicicleta. Sinto sua mão na minha quando me lembro de nós dois
correndo na rua para ver uma peça de teatro. Sinto seus lábios quando o tempo
frio me traz lembranças do nosso primeiro beijo na porta de casa.
Saboreio cada momento
e não quero perder nenhum deles. Toda vez que uma vívida lembrança de Joe toma
conta de mim, sinto que, embora ele tenha partido, nosso amor perdura.
Recentemente, sem
nenhuma explicação ou preâmbulo, perguntei a Bob: "Você é bígamo?"
"De maneira
nenhuma", ele respondeu.
Não é de admirar que
amo muito este meu segundo marido.
Tradução
de Terezinha Martino
Via:
Estadão
Um dos textos mais magníficos que já li nos últimos tempos.
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