Por:
Vlademir
Fernandes
Muito
da prática cristã ultimamente tem sido moldada a partir de alguns conceitos que
envolvem explicita ou implicitamente a noção de merecimento. A idéia de que
merecemos ou temos o direito ao favor de Deus. O que mais impressiona é que tal
afirmativa seria considerada um ultraje se aplicada a um não convertido, mas
quando é aplicada a um convertido passa a ganhar outros contornos mudando seu
status de mentira para verdade revelada.
Onde
percebemos essas idéias? Não é difícil encontrá-las por aí, no meio da
cristandade, soltas e espalhadas em meio a uma espiritualidade superficial e
mística. Um famoso pregador inicia sua oração dizendo: “Se tenho crédito
contigo, ouve mais essa oração...” um outro incita a “tomarmos posse de nossos
direitos” e esse “tomar posse” já virou jargão entre os crentes. Vez por outra
vemos pessoas dizendo “tomo posse” e ainda temos que suportar alguns
“conselhos” tipo: “tome posse da bênção irmão!”, “exija seus direitos!”,
“ordene que a situação mude!”. O fato é que essas idéias de que temos “crédito”
no céu impregnaram o povo evangélico no Brasil.
Não
conseguimos conceber o uso de tais imperativos por parte da criatura quando o
assunto é relacionamento com o Senhor e nem mesmo encontrar algum “crédito” que
possamos ter no “banco” Deus do qual possamos em determinado momento “sacar”
alguns trocados e isso porque tais conceitos não são bíblicos, simplesmente.
Talvez tais pensamentos tenham mais fundamento nos princípios psicológicos do
que teológicos e tenham adentrado na igreja junto com a “psico-teologia” que
nos inunda na ocasião. O maior problema com toda essa postura está no fato de
que considerar o “merecimento humano” colide com a dádiva da graça de Deus.
Isso
não vale apenas para não crentes, os crentes não mudam seu status (neste
sentido) após a salvação, ou seja, o crente não passa a ser merecer após a
salvação. Ele continua a não merecer as benesses de Deus. “Assim também vocês,
quando tiverem feito tudo o que lhes for ordenado, devem dizer: 'Somos servos
inúteis; apenas cumprimos o nosso dever'”. Lc 17.10. Penso que é claro esse
ensino de Cristo. Em outras palavras Ele queria dizer que é próprio do servo
servir. Não fazemos nada de extraordinário quando servimos ao Senhor a ponto de
termos merecimento a recompensas.
O
ponto chave é termos uma visão correta da graça de Deus e a partir disso sermos
moldados em nosso relacionamento. Assim, passamos a entender que pela graça
Deus dá a todos “a vida, o fôlego e as demais coisas” - At 17.25-26, Ele salva
- Ef 2.8 e Ele traz a fé - Rm At 18.27. Também entendemos que os dons do
Espírito são pela graça - 1Co 12.11, a santificação operada em nós é pela graça
- Fl 1.6, a vida cristã é desenvolvida pela graça, pois é Deus quem efetua em
nós o querer e o realizar - Fl 2.13.
Em
nenhum aspecto a obra de Deus é executada em outra base a não ser a graça. Ele
não é coagido ou pressionado a fazer nada e só realiza o “desejo” de sua
vontade. Dessa forma precisamos corrigir alguns mitos. O primeiro é pensar que
nossas muitas e longas orações “forçam” Deus a nos responder. Talvez você não
gostará do que vou dizer, mas realmente Deus não age porque estamos orando! O
pensamento é o contrário, só estamos orando porque Deus primeiramente já nos
favoreceu com sua maravilhosa graça e nos despertou para Ele. E tem mais, não
sabemos orar como convém e quem é que intercede por nós, ou seja, quem é que
ora por nós? O Espírito Santo e o Senhor Jesus Cristo, ou seja, o próprio Deus!
Isso mostra que nossas orações estão longe de, por si mesmas, serem suficientes
para conquistarem bênçãos. O segundo mito está associado a uma espécie de
humanismo. Acreditamos que nosso choro “move” o Senhor a tomar providências.
Outro engano. Muito ou pouco choro (em si mesmo) não tem grande valor. Prova
disso é que você já deve ter chorado muito e sinceramente diante do Senhor e
nada ter acontecido por diversas vezes. Muitos cristãos ficam até abalados em
sua fé quando não vêem suas lágrimas sendo enxugadas. Mas, novamente insistimos
em afirmar que Deus não é coagido a agir por causa dessas circunstâncias e às
vezes o próprio choro é providência divina. Outra crendice é pensar que aqueles
longos períodos de fome que alguns crentes dizem ser jejum acrescentam poder e
graça ao crente diante de Deus. Ledo engano. E, por último, não pensemos que
nossos dízimos e ofertas nos autorizam a exigir riquezas. Eles não são
depósitos bancários feitos em paraísos fiscais, pelo contrário, aqueles que não
entregavam o dízimo (em um tempo atrás) foram chamados de ladrões. Então, o
dízimo (contribuições) está, na verdade, mais associado a uma dívida e
obrigação do que uma aplicação que deva render a 100 por 1!
Enfim,
toda nossa existência é produto da graça de Deus em nós e não do nosso próprio
mérito. Esse posicionamento exalta ao Senhor e se coaduna com outras doutrinas
fundamentais como a Soberania (se Ele é soberano não deve nada a ninguém),
Onisciência (como aquele que conhece tudo, tem inteligência para agir em
conformidade com seu ser soberano), Onipotência (Só Ele tem todo poder para
sustentar a criação) e Providência (Ele é quem provê toda a criação).
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