31/01/2013

Deus é Sempre o Mesmo - Isto Significa que Ele sempre Age da mesma Forma?


Apesar da Bíblia nos ensinar que Deus é imutável -- Ele é o mesmo hoje, ontem e para sempre -- não podemos perder de vista o fato de que as Escrituras nos ensinam que Deus nem sempre age da mesma forma em todas as épocas. Este é o problema com muitas pessoas. Elas pensam que Deus deve agir hoje exatamente como agiu no período bíblico pois Ele é o mesmo, sempre. Mas, será que a imutabilidade de Deus é uma espécie de promessa de que ele sempre agirá da mesma forma na história dos homens?

Todos concordamos, por exemplo, que Deus é capaz de criar outra vez mundos, sóis e estrelas; entretanto, segundo as Escrituras, ele já cessou da sua obra de criação. Todos concordamos que Deus poderia hoje criar mundos do nada exatamente como fez no princípio, mas nenhum de nós espera realmente que ele faça isso e nem ora por isso. O fato de que nosso Deus é o mesmo hoje, ontem e para sempre não significa que ele sempre terá de criar mundos. A criação do mundo é um exemplo de uma manifestação sobrenatural do poder divino que não se repete na História. Essa constatação é, no mínimo, um precedentepara considerarmos a possibilidade de que Deus pode cessar de agir de determinadas formas na história.


Há outros precedentes na Bíblia de atividades sobrenaturais que cessaram. Um deles é o dos profetas do Antigo Testamento. O Senhor Jesus afirmou que João foi o maior e último deles (Mt 11.13; Lc 16.16). Os profetas do Antigo Testamento são encarados pelos escritores do Novo como um grupo definido e fechado, freqüentemente referidos como “os profetas” (ver Mt 11.13; 23.29; 1Ts 2.15; Hb 11.32; Tg 5.10; 1Pe 1.10-12), cujos escritos são mencionados ao lado da Lei, escrita por Moisés. O autor de Hebreus declara que a atividade dos profetas do Antigo Testamento já havia cessado, fazendo parte do modo antigo de Deus se revelar ao seu povo, sendo substituída por uma revelação maior e mais excelente, que foi aquela através de Cristo (Hb 1.1-2). Os profetas antigos são considerados, já no tempo do Novo Testamento, como homens santos, inspirados por Deus, a quem foi revelado o mistério de Cristo, revelação essa que ganhou forma escrita (2Pd 1.20-21).

Semelhantemente, não temos mais homens com os poderes concedidos aos apóstolos, os legítimos sucessores dos antigos profetas, de inspiração e infalibilidade, de realizar curas tão extraordinárias. O ofício apostólico, restrito aos Doze e à Paulo, cessou quando eles morreram. A igreja não nomeou ou elegeu outros apóstolos para substituir os que iam morrendo. E com os apóstolos parece haver cessado aqueles dons relacionados com o ofício apostólico, como por exemplo, o dom de curar.

Todos nós cremos que Deus poderia hoje levantar pessoas assim, outra vez e inspirá-los de modo a escreverem de forma inerrante a sua revelação ao povo, mas todos nós entendemos claramente pelas próprias Escrituras que essa atividade sobrenatural cessou. As Escrituras já estão completas. Não esperamos que hoje novas Escrituras sejam produzidas. Assim, a inspiração dos profetas antigos – e semelhantemente, a dos apóstolos – é mais um exemplo de atividade sobrenatural que ocorreu num determinado período da história da salvação e que, havendo cumprido seu propósito, encerrou-se. É mais um precedente em favor do que estamos argumentando, que Deus não age sempre do mesmo modo.

Ninguém hoje espera mais que Deus chame uma pessoa e lhe faça as mesmas promessas que fez a Abraão, de que o Salvador do mundo nasceria de sua semente. Ninguém espera hoje que o Filho de Deus, outra vez, se faça homem no ventre de uma virgem e que morra outra vez na cruz pelos pecados do seu povo. Teoricamente, Deus, que é o mesmo ontem, hoje e para sempre, poderia fazer todas estas coisas acontecerem outra vez, mas certamente não as fará mais. Elas aconteceram de uma vez para sempre, cumprindo um propósito único e definido na história da redenção.

Da mesma forma, Deus não parece estar disposto a realizar, outra vez, os grandes milagres do passado, que se encontram registrados no Antigo Testamento. Não esperamos como uma possibilidade, mesmo que remota, que Deus hoje abra mares, à vista de todo um exército de incrédulos, para seu povo passar, num momento de crise. É claro que elepoderia fazê-lo, mas não temos qualquer garantia ou promessa que ele o fará. Ou ainda, esperamos realmente que Deus hoje sustente um povo por 40 anos com pão do céu e água da rocha e com sandálias que não se acabam no deserto? Ou que faça o sol parar no firmamento por um dia inteiro? Ou levantar líderes dotados de força física sobrenatural como Sansão? Não há nenhuma promessa de que Deus fará isso sempre – ou, outra vez. E de fato, até onde sei, não há registro na História de que esses fatos aconteceram outra vez. Tais eventos miraculosos foram realizados num determinado período da História e com um propósito definido, que já se concretizou. Não é uma questão de termos fé ou de orarmos por estas coisas. Deus simplesmente não nos promete que as fará outra vez. Entretanto, ele permanece sendo o Deus onipotente e Todo-Poderoso de sempre. Apenas, em sua sabedoria, ele tem formas diferentes de agir em épocas diferentes.

Portanto, o argumento de que Deus hoje age exatamente da mesma forma como agiu no período bíblico carece de fundamentação exegética e ignora a evidência bíblica de que o Senhor age de acordo com um plano, cujas etapas se completam dentro de períodos definidos da História. Precisamos ter cuidado antes de dizer que tudo o que ocorria no culto das igrejas do período apostólico deverá ocorrer hoje, se tão somente estivermos abertos, buscando com fé. Não podemos deixar o propósito de Deus fora da questão.


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Após esta explicação acima, perguntei ao Rev. Augustus a seguinte questão:

Reverendo,

Sobre o cessar do dom da cura, me veio uma dúvida. Quem curava, Deus ou os apóstolos?

Pois se Deus curava, por intermédio dos apóstolos, entendo que Deus pode curar atualmente, através da unção ministrada pelos presbíteros da igreja, mencionada em Tiago 5:14-15.
Também em Efésios 4:8, é dito que foi dado "dons aos homens", mas não cita que foi dado dons apenas aos apóstolos. Ágabo, que não era dos doze, foi chamado de profeta em Atos 21:10, inclusive profetizando que Paulo (sendo Paulo apóstolo), seria preso ao chegar em Jerusalém.

Parece haver uma diferença na categoria de "profeta"? Visto que João Batista foi o maior e último deles e alguns anos depois surge um homem profeta chamado Ágabo. Seria João o último (e maior) profeta a falar sobre Cristo, mas haveria outras profecias como aquela de anunciar os planos de Deus na vida de alguém, como acontecido entre Ágabo e Paulo?

Menciono essas passagens pois entendo que atualmente há muita falsidade vestida de "profetas", "apóstolos" e "milagres", porém creio que ainda há manifestar genuíno do Espírito Santo no meio da Igreja, como escrito em Efésios 4:11-12, que "para aperfeiçoamento dos santos, para obra do ministério e edificação do corpo de Cristo, foram dados uns para apóstolos, outros para profetas, outro para evangelistas e outros para pastores e doutores".

Em tempo: Entendo e sou de acordo que não haja mais "apóstolos", pois havia a necessidade destes terem visto em vida o Senhor Jesus, porém entendo que pode haver atualmente profetas, como atualmente há evangelistas, pastores e doutores.

Aprecio tua opinião a respeito do meu comentário. Estou em processo de contínuo aprendizado na Palavra de Deus.

Abraço.



Cordialmente obtive a resposta:

Vou tentar responder às suas perguntas:

"Pois se Deus curava, por intermédio dos apóstolos, entendo que Deus pode curar atualmente, através da unção ministrada pelos presbíteros da igreja, mencionada em Tiago 5:14-15".

Sem dúvida. Mas os apóstolos tinham o dom de curar, que consistia no poder de comandar as curas, e elas acontecerem, sempre, sem falhar uma única vez. E às vezes, as pessoas curadas nem tinham fé, como o coxo na entrada do templo, que queria apenas uma esmola de Pedro e João.

Os presbíteros podem orar pela cura dos doentes, mas a oração da fé é algo que é dado por Deus quando ele quer curar. Presbíteros têm orado por milhares de doentes que não ficaram curados. Este não era o caso dos apóstolos, que tinham o dom de curar.

"Também em Efésios 4:8, é dito que foi dado "dons aos homens", mas não cita que foi dado dons apenas aos apóstolos. Ágabo, que não era dos doze, foi chamado de profeta em Atos 21:10, inclusive profetizando que Paulo (sendo Paulo apóstolo), seria preso ao chegar em Jerusalém".

Ninguém dentro do campo reformado ensina que os dons espirituais foram dados apenas aos apóstolos. Ninguém nega que os dons espirituais continuam sendo dados por Deus ao seu povo, para edificação da Igreja. Trata-se apenas de notar que nem sempre Deus deu os mesmos dons na Sua igreja e nem sempre agiu da mesma maneira. Creio que meu post deixa isto muito claro, correto?

O que penso é que o dom de curar e demais dons que incluiam revelação direta da parte de Deus foram dados somente aos apóstolos como parte do plano de Deus para aquela época. Hoje Deus ainda dá o dom de profecia, mas sem o elemento revelacional que havia neste dom. Deus ainda cura hoje, mas não temos apóstolos que curavam sempre que comandavam a cura.

"Parece haver uma diferença na categoria de "profeta"? Visto que João Batista foi o maior e último deles e alguns anos depois surge um homem profeta chamado Ágabo. Seria João o último (e maior) profeta a falar sobre Cristo, mas haveria outras profecias como aquela de anunciar os planos de Deus na vida de alguém, como acontecido entre Ágabo e Paulo?"

Você está corretíssimo. É preciso fazer diversas distinções entre os "profetas" mencionados na Bíblia. Os termos "profeta" e "profecia" são bem amplos e abrigam diferentes ministérios e funções. O que eu acredito é que não temos mais os profetas do AT como Isaías e Jeremias, capazes de ter revelações diretas inspiradas e inerrantes, que viraram Bíblia. Da mesma forma, profetas como Ágabo, que profetizou apenas sobre a vida de Paulo, um apóstolo que estava no centro da história da redenção, parecem ter ficado circunscritos àquela época e não os vemos mais na História da Igreja.

Mas há um elemento na profecia que acredito ter continuado, que é edificar, exortar e consolar (1Cor 14:4). Neste sentido, creio que existe o dom de profetizar hoje.

Espero ter ajudado. Ainda sobre curas, veja este post que escrevi aqui no Tempora faz um tempo:

http://tempora-mores.blogspot.com.br/2008/11/crente-fica-doente.html

Abs.


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Comentário final meu:

Vivemos tempos trabalhosos aonde tem se tornado escassas as genuínas obras do Espírito Santo. Sei que a Bíblia mostra diferentes "estágios" no agir de Deus, porém ainda creio que Deus tem poder de operar obras, maravilhas, profecias (com o intuito de anunciar Seus planos na vida de alguém) nos dias atuais. Todavia sou bastante reticente em aceitar toda e qualquer manifestação, pois creio que sim, toda manifestação de Deus na atualidade edifica, exorta e consola o Seu povo, enchendo os corações de fé e frutificando obras do Espírito Santo em nós.

Na paz.


2 comentários:

  1. HP

    Leitura extremamente esclarecedora, tanto no que vc escreve como o que diz o Nicodemus.

    Excelente essa enxuta verdade quase ao final:

    'Mas há um elemento na profecia que acredito ter continuado, que é edificar, exortar e consolar (1Cor 14:4). Neste sentido, creio que existe o dom de profetizar hoje'.

    Espero que os leitores que lideram grupos religiosos leiam (e releiam) com bastante atenção para que possam rever urgentemente os confusos e equivocados conceitos doutrinários que tanto teimam em repassar.

    Abs,

    R.

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  2. Minha ênfase especial a essa frase é porque me incomoda muuuuuito ver os falsos profetas nos seus púlpitos cheios de si mesmos, passando a ideia de que é Deus falando em suas bocas, e se achando no direito de lançar verdadeiras maldições! E isso sim, é que influencia negativamente as mentes dos mais fracos, destruindo vidas, perspectivas e sonhos de forma cruel e intransigente! Promovendo doenças psíquicas terríveis que se assemelham muuuuuito mais a macumba do que à paz e ao amor pregado na Cruz.

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