por Iara Du Pont
Hoje pedi água de garrafão. Eu sempre fico
desconfiada, não sei se tem garantia ou não, as vezes eu olho o garrafão e fico
pensando se a água não vem de alguma torneira.
Ao contrário dos franceses que podem garantir
a procedência de sua água Evian, os garrafões de São Paulo sempre me deixam com
uma sensação estranha. Também fico indignada com o preço, sete reais, como
se eu não tivesse direito a essa água,que não é propriedade de ninguém, acho um
absurdo de cara principalmente porque somos o país com mais água potável do
mundo.
E nunca vem o mesmo rapaz entregar. Eu
converso demais, minha mãe diz que parou de sair comigo quando eu tinha quatro
anos, porque eu puxava papo com todo mundo, em qualquer lugar. Mas eu pergunto
mesmo, fico curiosa e ao perceber que nunca era o mesmo rapaz que entregava a
água perguntei o porquê. Fiquei sabendo que a empresa que contrata eles paga
mal, um salário mínimo, de segunda a sexta, das oito da manhã as seis da tarde.
Eles não tem equipamentos de segurança, uma espécie de pinças para segurar o
garrafão sem ter que jogar nas costas, não tem faixas para usar na coluna e não
tem carros nem motos, só bicicletas e são obrigados a entregar água em um
bairro cheio de ladeiras, aqui eu sempre falo, tem que ser alpinista pra sair
de casa, porque tem que subir ladeira e descer como profissional. Também é um
lugar cheio de prédios velhos, sem elevador,e eles têm que subir 4,5,andares
carregando o garrafão, e a cada dez casas, uma dá gorjeta.
Teve um entregador que era atleta, na
primeira semana chegou aqui cantando, feliz com o emprego de carteira assinada,
mas pensava que carregar garrafões daria mais resistência para sua profissão de
skatista. Duas semanas depois me avisou que já não voltaria, devido a falta de
equipamento, ele estava cheio de lesões, então não trabalharia mais nisso.
E hoje ao abrir a porta levei um susto, um
rapaz com dreads, abaixo do ombro, e com uns colares. Perguntei da onde era e
me disse que era da Austrália. Não acreditei, perguntei senão tinha escorregado
de algum barco e chegou aqui. Me disse que não, que estava fazendo um doutorado
em países de terceiro mundo sobre sub-empregos, então chegava nos lugares, ia
morar em uma parte pobre e pegava os piores empregos.
Achei mesmo que ele estava brincando, então
me contou que tinha estado na Guatemala há uns meses e agora ficaria no Brasil,
perguntei por quanto tempo e veio a resposta mais inacreditável:
-Eu não volto mais, vou ficar aqui.
Trocar Austrália pelo Brasil? Pois é, são
essas coisas que parecem impulsos de juventude, aquela idade que tudo parece
leve e folclórico.
Diante do meu assombro, ele me contou um
pouco o porquê de sua decisão. Ao chegar ao Brasil tinha um casal de amigos
brasileiros que o hospedou em um apartamento em Perdizes. Ele ficou ali um mês
e disse que não conheceu ninguém, além do porteiro. E como tinha que fazer seu
trabalho se mudou a um barraco em Heliópolis, sozinho, com uma mochila nas
costas. No mesmo dia vizinhos vieram falar com ele e saber quem era. Quando ele
contou que era estudante, os vizinhos logo se preocuparam em ajudar. Emprestaram
um fogão, colchão e geladeira. Depois ele comprou a televisão. Recebeu o
apelido de `Alemão ´ e em poucos dias todos os chamavam assim na rua. Também
ofereciam carona, caso ele precisasse. Todos os fins de semana alguém batia na
porta e o chamava para um pagode, uma farra por ali. Começou a participar de
churrascos e dos mutirões de amigos para construir lajes ou o que estivessem
precisando. Uma senhora lava sua roupa, mas ele diz que é comum ela levar um
bolo, alguma coisa para comer se vê que ele não comeu nada.
A mulherada também gosta do exótico, pelo o
que eu entendi.
Ele ficou intrigado e fascinado com a vida
social da comunidade e resolveu não voltar mais para seu país.
Eu insisti que Austrália deve ser Austrália, eu
não conheço, mas deve ser um país melhor. Ele no auge do seu idealismo diz que
Austrália não têm o que ele procura para viver, noção de comunidade. Na
Austrália ele diz que os amigos se reúnem para fumar maconha e ficar na praia, aqui
os amigos se reúnem para ajudar um ao outro, seja fazendo uma laje, algum
serviço, alguma coisa a favor da comunidade e o depois, seja o churrasco, a
pelada, a cerveja, vem de recompensa, mas o que move as pessoas é a idéia de um
ajudar o outro.
A única coisa que o moço diz ter um pouco de
medo é do serviço público de saúde. Teve um problema na mão e acabou em uma
fila de hospital público. Mesmo assim diz que não é culpa de ninguém se o
hospital não tinha médicos de plantão e até lá ficou surpreso, porque algum
desconhecido ao ver ele na fila do hospital foi buscar um copo de água, já que
pelo calor o rapaz estava passando mal. Não deu certa essa experiência e ele
foi obrigado a procurar um hospital particular e mandar as contas para os pais.
Eu não resisti e avisei que apesar de parecer
muito folclórico e cheio de amor uma favela é uma comunidade abandonada pelo
Estado, um lugar onde as pessoas tem todos os seus direitos anulados e não é um
lugar cheio de flores, as pessoas se viram para construir suas coisas porque
estão abandonadas, não é uma sociedade alternativa, as pessoas não estão ali
porque querem, mas sim porque o poder público empurrou e isolou essas pessoas e
tirou um a um todos os seus direitos mais básicos, como o acesso a saneamento
básico e luz. E se existem favelas no Brasil é porque somos um país desigual e
sem vergonha na cara, capaz de mandar um ser humano morar em um lugar perigoso,
afastado e sem o básico. Favelas representam o quanto somos um país atrasado.
E o rapaz me disse que essa é razão dele
querer morar no Brasil e sonhar em ser brasileiro, porque o brasileiro apesar
de abandonado pelo Estado não é revoltado, nem cheio de mágoas, pelo contrário,
tenta se virar nos trinta.
Me contou de algumas comunidades em países
piores que o Brasil, onde as pessoas estão tristes, morrendo de fome, de sede, de
tudo. Ele disse que não teve essa impressão aqui, por isso mesmo acredita que
se algum país pode dar exemplo e mostrar como sair da merda, é o Brasil, porque
o povo se une naturalmente e consegue se mexer. Nisso ele tem razão, se essas
pessoas fossem orientadas e apoiadas, o Brasil seria uma potência porque o
brasileiro é de meter a mão na massa e não reclamar, ainda faz cantando.
O rapaz quer ser útil em uma comunidade onde
as pessoas são úteis e ativas, então resolveu ficar aqui. Viu até no brasileiro
um socialismo no DNA, segundo ele aqui as pessoas se preocupam pelo outro, querem
que o outro também tenha sua casa, por isso se prontificam a ajudar a
construir. Ao contrário do mundo onde as pessoas se isolam e são egoístas, brasileiro
gosta de convidar os amigos e dividir o que têm.
Ele diz que na Austrália é comum as pessoas
quererem construir um milhão de coisas na sua casa, lugar para malhar, lugar
pra isso ou pra aquilo, mas aqui brasileiro sonha com casa grande e pátio para
fazer churrasco para os amigos.
Por isso se apaixonou pelo país e quer ter
filhos aqui. E me disse - Ricos eles podem aprender a ser em qualquer lugar,
mas `gente ´ eles só vão aprender a ser aqui.
Comentário pessoal:
Engraçado…
Quando ele morou
"um mês no apartamento em Perdizes não conheceu ninguém além do
porteiro".
Já na favela, no mesmo
dia já teve contato com outras pessoas.
Dois povos morando na
mesma cidade?
Porque o pessoal de
Perdizes é idêntico aos australianos que constroem uma academia dentro de casa?
Os de Perdizes não fazem
parte do mesmo "povo brasileiro"?
Não sei por que mas logo que terminei de ler o texto , veio em mente a parábola da "oferta da viúva pobre"
ResponderExcluirDigo no sentido geral...
ExcluirS.
Excluir... E eu o que digo sobre 'pobre não tem qualquer vínculo com a viúva que vc cita.
Mas pelo que li no texto, conforme o raciocínio do rapaz sobre pobre se relacionar com as pessoas, e rico não.
R.
ResponderExcluirE o que me veio à mente foi: então Deus é brasileiro? (Risos)
Sei não, viu? Essa mania de associar gente pobre a gente misericordiosa é coisa de religioso pobre rss...
Mundo decaído é mundo decaído. Em qualquer lugar. O que faz a diferença é ser sal e luz. Seja onde for.
Na boa, acho que o cara poderia ser feliz lá na Austrália mesmo com esse idealismo dele.
Rsss...
ResponderExcluirEntão Regina,
O que me chamou a atenção no texto , é que aquelas pessoas apesar de poucas posses , ofereceram a ele o pouco que tinham , ou seja, havia nelas o desejo de ajudar com o que tinham. Essa " essência" nos espíritos das pessoas que achei bonito, entende?Agora, há várias interpretações para esse texto.
E o que me chamou à atenção é que essa é a visão dele. A partir de uma experiência pessoal.
ResponderExcluirSó faltou ele distorcer o que disse Jesus acerca do pobre e do rico. Se bem que isso ficou nas entrelinhas...
Então,
ResponderExcluirReferente àquela parábola de Lázaro e o homem rico. Lucas 16:19
"Havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo.....Havia também um certo mendigo chamado Lázaro que jazia cheio de chagas à porta daquele..."
Interessante , o mendigo estava bem lá na sua porta! Acredito que não era por acaso... Não seria todo esse cenário para que fosse "despertado" no rico a compaixão para com os necessitados? Não seria esse um "estímulo" para despertar aquele homem rico? Bem , todos têm necessidades , não apenas os pobres. ..
E.T. É uma parábola ,mas, que pode ser real em nossas vidas...
ExcluirMas as parábolas são justamente 'em cima' do que há no nosso cotidiano, no nosso coração na nossa vida real. Jesus usava de parábolas porque ele compreendia bem o modo de pensar das pessoas e sabia que por meio das parábolas, as pessoas teriam várias maneiras de chegar ao ponto da realidade em que vivem.
ResponderExcluirTem um texto no meu blog sobre riqueza. Dê uma lida se achar por bem. ;)
http://reginafarias.blogspot.com.br/search?q=Riqueza
Em relação à parábola que vc cita, como vc mesma diz, o foco da questão não era a riqueza, mas o coração do homem rico. E assim é na vida real, no cotidiano.
Infelizmente, o que se vê muito por aí é que não se tem o de não usar uma parábola ou um ensinamento direto de Jesus, dentro de um caso concreto, para definir algo e/ou fazer uma generalização. Por exemplo, é um equívoco dizer que toda viúva (dentro do contexto atual) é 'especial', diferenciada, abençoada pelo simples fato de ser viúva.
Voltando ao homem rico... Sei de muitos homens ricos que têm compaixão, que compartilham, que usam de misericórdia para com o pobre, assim como há pobres que não têm um pingo de solidariedade e que não repartem o pouco que têm. Não falo de ter peninha e de se achar em patamar superior (ou inferior). Falo de conscientização mesmo. Amor sem hipocrisia. De compaixão, ou seja, viver a dor do outro.
Tem váaaaaaarios exemplos de homens riquíssimos que são atuantes na sociedade, amenizando assim essa grande diferença sócio-econômica que sempre existiu no mundo, mas vou te dar só o do criador da Microsoft, o Bill Gates, que já doou bilhões só para a caridade e tem uma organização filantrópica poderosa só pra pesquisas sobre a AIDS, entre outras.
As Escrituras nos apontam uma realidade: Deus não disse que não iria haver pobres, mas determinou que o homem de posses fizesse bom uso delas. Aliás, se Deus fosse contra riqueza, não teria feito Salomão o homem mais rico do mundo. Sabedoria seria suficiente.
Correção: Infelizmente, O QUE SE VÊ MUITO POR AÍ É O HÁBITO DE usar uma parábola ou um ensinamento direto de Jesus, dentro de um caso concreto para definir algo e/ou fazer uma generalização.
ExcluirFoi mal... É a correria. ;)
http://reginafarias.blogspot.com.br/2011/01/riqueza-bencao-ou-maldicao.html
ExcluirAcho que errei na digitação do link mais acima, melhor por esse aqui ;)
Este comentário foi removido pelo autor.
ExcluirRss...Realmente , pelo menos para mim , sábado é o dia mais corrido aqui. Vou dar uma lida no link que voce me apontou. Agora , quanto ao seu comentário acima ,também concordo contigo. Há muitos ricos que têm compaixão ;e pobres que não repartem o pouco que têm.
ExcluirEu citei Salomão, mas vc sabe que foram vários nas narrativas bíblicas que Deus encheu (literalmente) de riquezas materiais. Aliás, como tb sabemos, inspiram-se nestes ricos, os seguidores atuais da famigerada teologia da prosperidade. Afff :P
ResponderExcluirVerdade , Regina.
ResponderExcluirEm nenhum momento Jesus afirmou que o Evangelho seria uma Fonte para enriquecer o homem de bens materiais.O problema é que na época de Salomão julgavam que a recompensa do justo viria aqui na Terra mesmo , através de abundancia material. Mas , Cristo mudou essa concepção quando afirmou : "Vim para que tenhais vida , e vida em abundância" , ou seja a vida eterna. Bem como a célebre "Buscai primeiro o reino dos céus e as demais coisas serão acrescentadas" Deus não é contra a riqueza , desde que esta seja justa e usada para si e para com os outros com sabedoria.
Este comentário foi removido pelo autor.
ExcluirSabe , Regina,
ExcluirFico pensando aqui com meus botões: quantos líderes de hoje, possuem mansões extravagantes, jatinhos , carros importados , iates , etcc... E Jesus , o Rei dos reis , Senhor dos senhores, não tinha nem onde reclinar a sua cabeça e ainda por fim sofreu morte atroz na cruz!
Não estou dizendo que todo o cristão tem que ser pobre , não ter bens materiais , nada disso! Mas , o fato de ser cristão não implica numa vida cheia de prazeres, prosperidade financeira, muitos bens materiais etc... A nossa verdadeira recompensa virá na ressurreição dos justos.
O que me entristece profundamente é que, estão deixando de pregar o Evangelho da Salvação em troca da prosperidade material, fazendo com que o Evangelho perca a essência do gesto de Jesus na cruz do Calvario e fazendo com que as pessoas tenha uma visão distorcida do mesmo . Ai como dói! Oremos.
ExcluirÉ verdade, Sônia! Você disse tudo nesse seu último comentário! Precisamos de tão pouco para viver e repartir. O consumismo é que fascina o homem e o corrompe sutilmente, substituindo valores reais por falsos valores e ainda engana o homem dizendo que não tem nada de errado, que é normal, que é assim, mesmo. Cria-se uma falsa realidade e acredita-se piamente nela. E aí a gente pensa que tudo isso começou no último século, ou melhor, nas últimas décadas, com essa mídia acessível a todos, mas não foi. É da natureza humana querer sempre mais, em abusar da sorte, em desperdiçar, em ser egoísta. Em qualquer época! E o pior: por pura competição e prazer em ser 'melhor'. Salomão diz isso em Eclesiastes quando se refere à necessidade e ao valor do companheirismo e da amizade. 'Então vi que todo trabalho e toda a destreza em obras provém da inveja do homem contra o seu próximo' (4.4)
ResponderExcluirBjs.
Bem verdade , minha irmã. Bom domingo para voce e sua família. Bjs.
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