Por Antognoni
Misael
A marca mais relevante na
vida de um cristão deve ser o amor. Dentre tantas convicções religiosas ou filosóficas não
há nada mais encantador do que a capacidade de amar. No entanto, nós cristãos
temos desaprendido o valor e o significado do amor e as suas contingências.
Isto por que o verdadeiro amor está “linkado” ao exercício do perdão. Se não
perdoamos, é porque não soubemos amar, nem tampouco temos compreendido com
clareza esse amor perfeito demonstrado na cruz por nós.
Falamos de graça de Deus
e dificilmente nos tratamos como miseráveis pecadores. Elencamo-nos como servos de Deus, mas odiamos quando
alguém nos trata com sinais de subserviência. Dizemos que um dia fomos filhos
da ira, mas nos iramos com um pobre ímpio desprovido do novo nascimento por não
compreender a nossa fé e até com os irmãos que dizemos também amar.
Falamos que somos os
‘piores dos pecadores’, mas não admitimos sequer os pecados morais e de conduta confessados pelo nosso próximo, nem tampouco
temos a coragem de revelar os nossos espinhos na carne– então eis a situação em
que a ferocidade do nosso “lado animal”, quando em ensejos perniciosos nos
vestimos com a “capa de justiceiros” e apedrejamos os que por “azar religioso”
têm seus erros expostos na “praça de nossa comunidade institucional”, sejam
eles efeminados, adúlteros, destemperados, mentirosos, caluniadores,
fornicadores, vaidosos, avarentos, orgulhosos … Algo muito parecido conosco não
é?
Se tudo que mencionei acima não ocorre de
fato, perdoem-me, devo ter me embriagado com o vício do autoexame, ou o vinho
pegou…
Mas tristemente começo a
vislumbrar algumas “moscas” que se alimentam de nossas feridas existenciais e sobrevoam por fora de nossas vestes. Elas pousam por
cima de nossas capas denominacionais, pois sabem que por baixo há feridas. Ah,
quantas feridas vejo…
Então começo a notar que
nem de perto estamos vivendo a Graça, pois em muitos casos, ainda agimos como escravos de nossa religiosidade.
Note, até teologizamos bem, mas Graça falada e não vivida é Graça morta!
Tristemente não nos vemos
como ‘iguais’ diante de Deus e insistimos em estabelecer hierarquias
espirituais; não nos tratamos
como miseráveis pecadores e a cada dia que passa, tornamos a compaixão extinta
no meio de nós. Do contrário, ainda recriamos nossos próprios altares; elegemos
nossos “santos” líderes, realizamos as nossas “romarias de cura”, “bênçãos” e
“prosperidade”, ou, sendo menos herético (talvez), vestimos a roupa de Calvino
antes de vivermos Jesus. Mesquinhamente agimos com partidarismo, orgulho,
egoísmo…
Enquanto isso, damos
brados de vitória ante a nossa melancólica demonstração de vida com Deus, ao mesmo tempo em que exaltamos os nossos famosos
pregadores ou artistas (inclusive gospel) , como se nestes todas as nossas
imprudências fossem sanadas na utópica sensação de sermos representados por
eles; todavia, o que mais me dói, é que ignoramos os que dão suas vidas nos
campos missionários mais hostis que se possa imaginar. Estes sim, deveriam ser
mais de perto os nossos referenciais de vida cristã prática e piedosa.
Então, paradoxalmente
vejo os nossos templos lotados com centenas de pessoas atraídas por métodos
carnais, edificações caríssimas repletas de carros
de luxo congestionando o estacionamento, irmãos e irmãs ostentando suas roupas
de marca e cabelos industrializados, grupos de música e dança fazendo seus
show’s de pirotecnia humanista e pregadores oferecendo Deus como uma
mercadoria. E nós… no meio desta engrenagem, como que surtando por não saber
onde resetar este projeto chamado “igreja”.
Reconheçamos, estamos doentes.
Dos neopentecostais aos
reformados; dos contempladores aos mais agitados, dos calvinistas aos
arminianos, estamos doentes…
Doentes estamos e assim
continuaremos porque não conversamos abertamente sobre nossas feridas… Disputamos a olimpíada teológica de quem tem a melhor
sistemática, hermenêutica ou exegese. E diante desta anomalia restam-nos ainda
as tristes confecções de listas de obrigações religiosas que se por acaso não
cumpridas pode acarretar (segundo os fiscais da lei) em uma nota baixa emitida
por Deus em relação nós (loucura sagaz religiosa). Logo, acentuamos nosso
status de doentes com sorriso farisaico, porém levando um peso que certamente
não nos redundará em conhecer mais de perto a Graça de Deus (pois parte deles
ainda amam a Lei e odeiam a Graça).
Por isso vejo as “moscas”
que ainda rodeiam as feridas abertas do irmão viciado em pornografia; as que rodeiam as feridas abertas do irmão atraído
compulsivamente pelos seus bens e riquezas; as que rodeiam as feridas abertas
do pastor que trai a sua esposa de forma dissimulada; as que rodeiam as feridas
abertas da irmãzinha que idolatra o seu corpo, fornica frequentemente e ainda
canta no louvor sob ministrações de arrepiar. Vejo as moscas rodeando as
feridas abertas do irmão que nunca conseguiu perdoar seus pais por terem
tentado aborta-lo na infância; as que rodeiam as feridas abertas de muitos
irmãos que, com ternos ou paletós se enganam em seus tratamentos suntuosos com
a sociedade, mas que no fundo se desesperam por não terem sua mesa repleta de
paz e comunhão com os filhos.
Caso você considere esta confissão e
desabafo, ore comigo também. Declare a nossa falência espiritual para que a
Graça de Deus seja abundante em nossas feridas. Não relute, pois é assim que
faremos valer a glória de declarar quem realmente somos: doentes, feridos,
porém mais que vencedores.
A heresia começa na 'hierarquia espiritual'.
ResponderExcluirQuem inventou isso, heim?!
Religiosos cheios de si mesmos, apavonados, sectários e líderes criticam a intervenção de Maria e a hierarquia clerical da ICAR, mas eles mesmos têm uma hierarquia ABOMINÁVEL ( ah, os bastidores!) na qual se pratica e se repete todos os dias, a velha e perniciosa pseudo compaixão, conforme os próprios conceitos de justiça tacanha e pretensiosa, com base em regras PRÓPRIAS de intransigência e inflexibilidade religiosa.
Estes mesmos que assim agem, acham pouco sua atitude reprovável aos olhos de Deus e, pra completar, se escondem por trás dos erros doutrinários de outros irmãos, apontando-os, enquanto varrem o próprio lixo pra debaixo do tapete.
Enquanto isso, Jesus continua nos dizendo, há mais de dois mil anos:
" ... se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus". (Mateus 5:20)
Enfim, como disse Jesus, só doentes e feridos (pecadores) precisam Dele. Ele veio para estes. Os que se arrogam certinhos não precisam de Jesus. E, justamente por isso, não O têm. E não sou eu que afirmo isso, quem sou eu?! Foi o próprio Jesus que disse isso de forma clara e contundente!
A parte irônica disso tudo é que estes mesmos incorruptíveis e sem pecado são os mesmos que pregam em seus púlpitos em nome de Jesus...