Qual é o momento mais importante da nossa caminhada de
fé? Para uns, é o instante da conversão. Para outros, é o dia do batismo. Há
também os que consideram o momento mais importante a hora da morte, quando
finalmente darão o glorioso passo de entrada na casa do Pai. Cada pessoa elege
aquele ponto da trajetória com o Senhor que mais marcou sua vida. Tenho também
o meu. Claro que sei que todos esses momentos são fundamentais e memoráveis,
mas entendo que a conversão e a morte, por exemplo, são os momentos mais
importantes de nossa vida. Mas em se tratando da caminhada de fé, ou
seja, do bom combate, da nossa trajetória de vida com Jesus, há um dia em que
tudo muda e, por isso, o tenho guardado num lugar especial do coração. É quando
cai a ficha e você, como Paulo, exclama: “Miserável homem que sou!”.
Naturalmente, na hora da conversão
existe uma dose dessa percepção. É quando, pela ação do Espírito Santo, nos
enxergamos como condenados ao inferno e dissociados de Deus e, assim, somos
rendidos ao Evangelho da graça. Mas há uma diferença entre se perceber um pecador perdido e se perceber um cristão miserável. Pois muitos são convertidos a Cristo,
ganham a cidadania do Reino dos Céus, são adotados como filhos de Deus e, a
partir daí, deveriam passar a viver de acordo com a natureza de Jesus, sendo
mansos e humildes. Mas a realidade nos mostra que muitos e muitos são os que
começam a se considerar quase super-heróis. Mais que vencedores. Vitoriosos.
Filhos do Rei. Tanques blindados. Bombas atômicas a serviço dos céus, prontos
para arrebentar com os ímpios e com os “menos espirituais”. Vestem
uma capa de grandeza e passam a considerar o resto da humanidade parte de um
segundo escalão de pessoas. É como se manifesta um pecado muito comum a nós
cristãos: a soberba espiritual.
Já vi muitos assim. Arrogantes. Impiedosos.
Cujo maior prazer é apontar o cisco no olho do outro. E confesso: eu mesmo já
fui assim. Pois não entendia que todo homem de Deus é, antes de tudo, também um
homem. Humano. E, como tal, cheio de falhas, crenças equivocadas, arrogância,
vaidade e montes e montes e montes de defeitos. Se você é um cristão sincero,
olhará para dentro de si e verá o quão problemático e falho é. Mas eu me via
como “o eleito”, “o escolhido”. Algo à parte dos demais, tão espiritualmente
certo em tudo e muito superior aos cristãos “menos santos”. Falava dos que
cometiam pecados (diferentes dos meus, pois eu também sempre pecava) como
fracos, frios, fariseus, lobos em pele de ovelha, crentes em quem não se pode
confiar. Eu era o tal. Eles eram o joio. Que tremendo bobo eu era só rindo de
mim.
Porque um dia a realidade despencou na
minha cabeça como uma bigorna. E foi quando as escamas caíram de meus olhos e
enxerguei que, mesmo sendo cristão há muitos anos, continuava sendo um
miserável. Que não era melhor do que ninguém. Que meus dons, talentos,
ministérios, qualidades, santidade e tudo o mais que havia em mim não era
mérito meu, mas do Pai das luzes. Ele me concedeu como empréstimo, não sou dono
de nada e posso perdê-los a qualquer hora. Por outro lado, o pecado que cometo
é sim mérito (ou demérito) meu. Ou seja: no dia em que você, como cristão, vê
claramente que tudo o que tem de bom vem de Deus e o que tem de mau vem de si…
aí exclama: “Miserável homem que eu sou!”.
Passei a amar muito mais o apóstolo
Paulo quando compreendi como nunca antes o que ele diz em Romanos 7.14ss: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu,
todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo
compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que
detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste
caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu
sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o
bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro,
mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou
eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem,
encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem
interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei
que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do
pecado que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará do
corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que
eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a
carne, da lei do pecado”.
Prestou muita atenção ao que leu agora?
Paulo – o grande apóstolo Paulo, o homem que foi arrebatado e viu o Céu ainda
em vida – vivenciou esse magnífico momento: como cristão, mesmo já com anos de
convertido, enxergou o que tantos e tantos em nossas igrejas ainda nãos viram:
que nós…
1. Somos carnais
2. Somos vendidos à escravidão do pecado
3. Agimos de modo incompreensível aos nossos próprios
olhos
4. Fazemos o que detestamos e não o que preferiríamos
5. Somos habitação do pecado (que percepção assustadora,
pois sabemos que também somos habitação do Espírito Santo)
6. Somos fantoches do pecado, que nos leva a agir
contrariando o que cremos e o que queremos viver
7. Temos membros obedientes a uma lei que guerreia contra
a lei da nossa mente
8. Somos prisioneiros da lei do pecado que está em nossos
membros
9. Mesmo salvos, somos miseráveis – pois vivemos dominados
pelo pecado
Em outras palavras, mesmo cristãos nós
somos miseráveis, pois vivemos o tempo todo sob a sombra de nossa própria
pecaminosidade. O dicionário revela o que “miserável” significa: desprezível,
torpe, vil, insignificante, reles, ínfimo, desgraçado, infeliz, mísero. Uau.
Que soco na boca do estômago de nossa soberba espiritual.
A percepção dessa realidade é
extremamente humilhante, nos põe em nosso devido lugar e nos conduz a um
ambiente espiritual de profunda submissão a Deus e desapego de nós mesmos.
Paulo teve essa percepção: mesmo sendo cristão era um miserável pecador. Alguém
que o Senhor precisava permitir ser afligido por um mensageiro de Satanás
esbofeteador, para que não se exaltasse pela grandeza das revelações que
recebeu. Um mero humano, como eu e você.
Honestamente? Quanto mais leio as
epístolas paulinas, mais admiro Paulo. E mais me apiedo dos crentes que se
apresentam como anjos de santidade. Pois não chegaram ainda ao sublime ponto de
admitir que são miseráveis. Vejo muitos que são assim. E isso gera em mim um
sentimento misto de pena com tristeza, confesso. Creio ser muito mais digno,
bíblico e honesto reconhecer com a boca no megafone: sou cristão, salvo somente
pela graça imerecida de Deus, mas ao mesmo tempo carrego o corpo dessa morte
amarrado nas costas – o que faz de mim um miserável pecador. Que depende única
e exclusivamente da misericórdia do Senhor para continuar respirando, quanto
mais entrar no Céu. Pois sei o mal que há em mim e como meu lado sombrio é
feio, disforme e animalesco. Como você se enxerga, meu irmão, minha irmã? Você
se orgulha da sua santidade ou se abate pela sua natureza humana pecadora?
Chega a ser muito entristecedor ver os
“crentes sem mácula” metendo dedos na cara “dos que pecam”, sendo que carregam
na alma lodo do pior tipo. Isso é um dos pecados mais falados e criticados por
Jesus: a hipocrisia. Já vivi nesse mundo, sei de perto o que é. E reconheço
esse meu pecado com temor diante do Pai: pequei por me achar menos pecador do
que os demais pecadores. Miserável homem que sou. Ah, que bendito dia em que o
Espírito Santo me fez reproduzir essas palavras do apóstolo Paulo! Dia em que
enxerguei que não é porque aceitei Jesus que virei um ser angelical, mas que continuo
sendo um pecador compulsivo e incorrigível, totalmente dependente da graça. A
diferença é que, sabendo da miserabilidade que existe em mim, consigo chegar
com humildade aos pés do Senhor, banhá-los em lágrimas e enxugá-los com meus
cabelos. No passado, o crentão que eu era ficaria de pé, nariz levantado, peito
estufado, ao lado do Rei dos Reis, e diria: “E aí, Paizão, tamos numa
boa, né? Sou teu eleito, meu chapa, gente boa igual a mim não há. E vamos lá
mandar esses crentes carnais pro inferno, julguemos juntos, eu e o Senhor, os
meus irmãos, pois estou a fim de ver sangue!”.
Sim, aquele foi o dia mais importante. Pois na
conversão eu fui salvo, mas me sentia o tal por isso. No batismo saí das águas
me achando o puro, o imaculado. Mas no dia em que caí em mim, vi que mesmo
salvo continuo pecando sem parar, caí de joelhos, tremi e murmurei: miserável…
homem… que… sou…
Gosto de pensar que após a morte irei
para o Céu. Não por mim, que não valho nada, mas pela Cruz. Só pela Cruz. Pela
graça. Pelo amor. Pelo perdão. Por Jesus. E, ao chegar lá, pode ser que eu ouça
“bem-vindo, servo bom e fiel”. Mas acredito muito mais que vou ouvir:
“Bem-vindo, miserável pecador. Você não tem mérito algum, mas por causa do
sacrifício de Meu Filho, Eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria
do Seu Senhor!”.
Paulo estava certo: somos miseráveis.
Eu, você, todos os cristãos. E bendito seja o Senhor, que pela graça um dia nos
chamou para sua maravilhosa luz e tempos depois iluminou a nossa realidade de
cristãos pecadores. Não é o seu caso? Então clame a Deus, na esperança de que
Ele te mostre o quão miserável você é. Acredite: é uma das maiores bênçãos para
a alma que você poderá receber ao longo de toda a sua vida.
Paz a todos vocês que estão em Cristo
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