03/12/2012

Sergio

Por: HP

Assisti ontem ao documentário “Sergio” que relata a vida de Sérgio Vieira de Mello, brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, que foi Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Seu pai foi diplomata brasileiro, tendo Sérgio, quando criança, acompanhado seu pai em missões pelo mundo. Concluiu seus estudos pela Universidade de Paris-Sorbonne, sendo doutor pela mesma universidade. Tornou-se funcionário da ONU em 1969 e serviu em missões humanitárias e de manutenção da paz em lugares como Bangladesh, Sudão, Chipre, Moçambique, Peru. Entre 1991 e 1996 foi enviado ao Camboja, conseguindo ser o primeiro e único representante da ONU a ter conversações com o Khmer Vermelho, partido comunista que tinha como líder Pol Pot que foi responsável por um genocídio de cerca de dois milhões de cambojanos. Por este fato, Sérgio foi reconhecido dentro da ONU como grande diplomata, alcançando em 1998 o posto de Secretário-geral-adjunto para Assuntos Humanitários das Nações Unidas. Como negociador da ONU atuou em alguns dos principais conflitos mundiais - Bangladesh, Camboja, Líbano, Bósnia e Herzegovina, Kosovo, Ruanda e Timor-Leste, entre 1999 e 2002, quando se mostraria inflexível nas denúncias dos crimes indonésios e por fim organizou o país para suas primeiras eleições livres. Em 12 de setembro de 2002, foi nomeado Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos.

Em 2003, Sérgio foi escalado para chefiar as operações da ONU no Iraque. No dia 19 de Agosto de 2003, um caminhão bomba foi detonado do lado de fora do Hotel Canal que estava sendo usado como sede da ONU em Bagdá há mais de uma década. 150 pessoas ficaram feridas e dentre os 22 mortos, Sérgio foi um deles.

Para muitos, o brasileiro era a personificação do que a ONU poderia e deveria ser: com uma disposição fora do comum para ir ao campo de ação, corajoso, carismático, flexível, pragmático e muito eficiente na negociação com governos corruptos e ditadores sanguinários, em busca da paz.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, afirmava que Vieira de Mello era "a pessoa certa para resolver qualquer problema". Foi o primeiro brasileiro a atingir o alto escalão da ONU.

Conheci a história de Sérgio na época da sua morte. Foram amplamente divulgados no Brasil pela mídia os feitos do “ilustre filho da nação”, até então desconhecido. Por ler a respeito, via nos ideais de Sérgio um grande caráter cristão, de amor ao próximo, de respeito, de busca de paz e bem as nações. Achava Sérgio um exemplo a ser seguido por todos.

No momento da explosão, Sérgio estava com Gil Loescher que servia como Especialista de políticas internacionais para refugiados do Departamento de Estado Norte-Americano. Os dois foram soterrados e posteriormente encontrados por Bill Van Zehle, soldado de reserva norte-americano e posteriormente por Andre Valentine um paramédico do Corpo de Bombeiros de Nova York que lutaram bravamente para salvarem Sérgio.

No documentário de ontem, foi coletado inúmeros depoimentos de colegas, parentes, amigos e também dos soldados que ajudaram nos resgates. Foi impressionante ouvir depoimentos de pessoas como Condoleezza Rice, Secretária de Estado dos Estados Unidos no governo Bush, bem como Tony Blair, primeiro ministro do Reino Unido a respeito das características de Sérgio. Mas os depoimentos que mais me marcaram foram de Van Zehle, e de Valentine. Nesses depoimentos, Van Zehle disse que Sérgio e Gil se encontravam perfeitamente lúcidos, e Sérgio a todo o momento se importava em saber como estavam os colegas, e dizia que a missão não poderia acabar.

Como o acesso era difícil, não havia ferramentas apropriadas, o resgate se tornou demorado. Van Zehle e Valentine lutaram muito para resgatá-los. Fiquei impressionado com a fé e encorajamento que Valentine dava a Sérgio e Gil. A todo o momento, ele dizia que sairiam de lá com vida.

A dado momento, Valentine segurou a mão de Gil e fez uma oração a Deus. Valentine disse que Gil aceitou a oração e alguns minutos mais Gil conseguiu sair dos escombros, sendo posteriormente levado ao hospital, tendo sido amputadas as duas pernas. Gil hoje leciona na Universidade de Oxford no Reino Unido.

Sérgio estava num ponto com acesso mais difícil. Num certo momento, Valentine também disse a Sérgio para ter fé em Deus que o tiraria de lá. Nesse momento Sérgio começou a gritar, dizendo que não cria em Deus e que toda esta desgraça aconteceu por causa de Deus. Valentine disse que Sérgio gritou outras coisas sobre Deus que ele não iria repetir por "serem palavras muito pesadas". “Sérgio não acreditou que Jesus tinha nos enviado lá como anjos para resgatá-lo”, concluiu. Van Zehle testemunhou tudo e disse: “Não sou uma pessoa de fé ou oração, mas nunca tinha visto uma pessoa se rebelar tanto por causa de uma simples oração.”

Após alguns minutos Sérgio ficou quieto. Van Zehle foi checar a pulsação. Sérgio havia morrido. 

As duas últimas pessoas que estiveram próximas a ele serviram de testemunha para uma confissão: Um grande homem que teve uma vida toda de bondade, de amor ao próximo, que levou a paz a muitos, não quis ter paz com o Criador.


4 comentários:

  1. HP

    Ainda assim, vendo o Sérgio Vieira de Mello 'xingando' Deus até o último suspiro, eu me recuso a acreditar que foi 'por isso' que ele morreu.

    Não digo que é assim que você pensa, mas vejo muitos religiosos de carteirinha tirando conclusões assim, por isso falei. Aliás, nem se precisa morrer, é suficiente estar com uma séria doença para que os juízes de plantão já façam suas apostas insanas baseadas em um equivocado e inchado ego denominacional.

    E, menos ainda, eu arriscaria dizer que 'por isso' ele não tenha se encontrado com o Pai. E digo isso, não devido ao seu currículo, mas por ter a certeza de que apenas Deus pode estabelecer o critério de julgamento. Por mais adoradores e reverentes que sejamos ao Pai, JAMAIS alcançaremos esse entendimento. Simplesmente porque cabe unicamente a Ele.

    Como falei recentemente no meu blog, 'o mala' da cruz ao lado de Jesus foi pra o céu por ter reconhecido Seu Senhorio no último instante, mesmo tendo espalhado um mal terrível ao longo da sua existência. Considerando que esse tipo de morte era para os piores indivíduos que colocavam em perigo a vida de pessoas inocentes. Veja você o paradoxo! Isso é totalmente incompreensível para nossas limitadas mentes religiosas.

    Na mesma proporção que não podemos julgar que, alguém em terríveis crises existenciais, no último suspiro teria implacável julgamento da parte do mesmo Deus que ele acusa.

    Digo isso para que possamos refletir acerca da soberania de Deus em absolutamente TUDO e, principalmente, sobre o Seu critério de salvação. Somente isso...

    Abraço fraterno!

    R.

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    1. Oi Regina,

      Então, eu também não acredito que a morte foi um castigo por ele ter xingado a Deus, porém fiquei chocado em ver como uma pessoa que defendeu muitos valores cristãos a vida inteira pôde se rebelar de tal maneira contra Deus nos últimos momentos de sua vida.

      Eu sei que os critérios de salvação estão em Deus e a nós não cabe julgar ninguém neste critério, mas também entendo que Deus não se contradiz, tendo claro na Bíblia os critérios para salvação: arrependimento de pecados e confiar em Cristo a salvação.

      No momento que tomei conhecimento deste episódio no final da vida do Sérgio Vieira de Mello, me veio na hora a lembrança do ladrão arrependido ao lado da cruz de Cristo, sendo que as reações foram completamente contrárias quando tiveram a morte na sua frente. O ladrão demonstrou publicamente que se arrependeu de seus pecados (“E nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o que os nossos feitos mereciam; mas este nenhum mal fez.” Lc 23:41) e teve Cristo como mentor da sua salvação: (“E disse a Jesus: Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino.” Lc 23:42). Este ladrão teve ao menos duas testemunhas neste ato: O outro ladrão e o próprio Cristo.

      Já no caso do Sérgio, ele teve também duas testemunhas no final de sua vida que infelizmente viram que ele blasfemou contra Deus. Quanto Deus salvá-lo, sabemos que não é por obras, mas por fé em Cristo.

      Obrigado por participar do blog! Não economize palavras para dizer a tua opinião, para que assim possamos crescer juntos em Cristo!

      Abraço.

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  2. HP

    Sem querer ter a pretensão em analisar o 'tilti' que deu nele rss... Mas bora combinar que esse vazio angustiante que fica, é o que mais se vê no meio em que se faz tanta obra, onde se levanta tanta bandeira, onde se esforça tanto sem olhar verdadeiramente para a real perspectiva. Como diz o autor de Eclesiastes ao longo de suas experiências, essa ânsia pelo sentido da vida a partir do entendimento humano finda por causar angústia, posto que vazia.

    Por outro lado, ele não está sozinho nessa peleja vã e angustiante. Pois quantas vezes (claro que em bem menor proporção e sem midia) nos revoltamos silenciosamente, ao longo da nossa existência(e sem testemunhas), questionando Deus intimamente por Ele não tomar uma atitude diante do que achamos injusto.

    E eu percebi sua ênfase para as testemunhas, mas não quis entrar no mérito dessa discussão, por entender que é um conceito pessoal teu, mas eu ainda arrisco dizer que entendo que o testemunho que Jesus quer, o que Ele realmente valoriza, o que interessa por ser o Seu propósito, é o nosso testemunho das Suas Boas Novas, o testemunho de que, em cada um de nós que Nele cremos, Ele se revelou. É esse o 'ide' que eu entendo. Essa aliança definitiva por meio do sacrifício vicário. Essa revelação da qual somos testemunhas e devemos levar adiante é a Sua reconciliação por meio da Graça e do perdão. Uma reconciliação que nos faz reconciliados com o nosso próprio coração, no qual ficamos apaziguados, já que ele(o coração) é o nosso maior campo de batalha. Uma reconciliação com Ele para que, reconciliados com nós mesmos e, consequentemente, com o próximo, tenhamos plenitude de vida; para que nossa vida tenha sentido e já comece a ser eterna aqui mesmo na Terra. Essa é a 'ideia'. É assim que vejo. É assim que creio.

    Infelizmente, no meio evangélico, onde se dizem salvos, que se faz tanto o bem, que não se deseja o mal a (quase) ninguém, há ainda essa inquietação no peito(angústia), e justamente por não se ter encontrado essa paz que vc cita no finalzinho do seu texto. Essa paz que só tem quem, de fato, tem uma intimidade com o Pai. Por mais que a injustiça e a crueldade nos corações nos causa perplexidade. Essa paz que excede todo o entendimento. Infelizmente, como mostra tua narração, essa paz ele não teve :(

    E valeu pela generosidade da abertura e a lucidez de sempre.

    R.

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  3. O tempo passa e eu vi o quanto meu coração calvinista não enxergava misericórdia...

    E o amor com que a Regina, como uma mãe na fé, teve de mim...

    Pouco a pouco os olhos se abriram.

    E hoje eu espero firmemente encontrar com o Sérgio lá nas moradas do Altíssimo!

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