Por Maurício
Zágari
Um dos
trechos mais interessantes da Bíblia, em minha opinião, é 1 Tessalonicenses
5.18: “Em tudo, dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus
para convosco”. Como assim, “em tudo, dai graças”? Temos de ser gratos a Deus
pela dor, a tristeza, o sofrimento, a solidão, a depressão, o desamor, o
abandono, a tragédia, as heresias, a falsidade, a acusação, a traição… em tudo
o que ocorre de pior em nossa vida? Sejamos francos: nós não sentimos vontade
nenhuma de agradecer a Deus nessas horas, queremos mais é brigar com Ele,
alardear o quanto somos fiéis e não merecemos aquilo, ficar de mal com o
Senhor, questionar sua bondade, sua justiça e seu amor. Soube recentemente de
uma mulher, evangélica, que perdeu o irmão de 28 anos de câncer e, ao receber a
notícia de sua morte, soltou um grito no hospital:
- Deus
F.D.P.!
Chocou?
A mim também. Como pode isso? Essa blasfêmia, esse ato impensável? Mas a
verdade é que muitos não têm coragem de dizer isso quando vem a desgraça… mas
que pensam, ah, isso pensam. Estou errado? Porque a verdade é que nós não
conseguimos conceber Deus deixar coisas ruins acontecerem em nossa vida. Com um
ímpio vá lá, mas comigo?! Eu que sou tão obediente?! Vamos pensar um pouco
sobre esse versículo. Mais ainda: vamos pensar um pouco sobre gratidão.
A chave
do “em tudo dai graças”, para mim, vem alguns versículos antes: “Porque Deus
não nos destinou para a ira, mas para recebermos a salvação por meio de nosso
Senhor Jesus Cristo” (1 Tessalonicenses 5.9). O que isso significa? Façamos uma
parábola: imagine que você está em um navio que naufraga. Você está ali, em
alto-mar, nadando com suas últimas forças para sobreviver. Sente câibras,
percebe que não há salvação para você: seu destino certo é a perdição, é
afundar na escuridão do abismo submerso, ser devorado pelos peixes. De repente,
desponta no horizonte uma luz. É um navio! O capitão da embarcação o viu de
longe, desviou seu curso e, cheio de compaixão, partiu em sua direção. Quando
você já está meio metro abaixo da superfície, ele lhe lança uma bóia. Você está
salvo! Foi resgatado! Assim, você sobe a bordo, exausto, desgrenhado e rasgado
– e recebe, sem que esperasse, o direito à vida.
Eu lhe
perguntaria: qual seria diante dessa circunstância o seu sentimento pelo resto
da vida para com aquele capitão? Provavelmente você diria algo como “eu seria
eternamente grato a ele”. E diria com razão, porque o que ele fez foi algo que
merece que você lhe seja agradecido pelo resto de seus dias. Ao chegar a bordo,
exausto e encharcado, num primeiro momento, instintivamente, você pula no
pescoço dele, o abraça com todas as poucas forças que ainda tem e repete em voz
fraca: “Obrigado… obrigado… obrigado… obrigado…”. Não quer soltar a mão do
bondoso capitão. Aquele homem renovou a esperança de vida para alguém que tinha
a certeza da morte! Você o ama! Promete devotar o resto de seus dias a sentir
gratidão por ele.
Só que
aí o navio prossegue na viagem. Vocês estão a meses do porto mais próximo,
então você se recupera e acaba se integrando à rotina do navio. O capitão chega
e lhe dá uma atribuição: você terá de descascar pilhas de batatas por dia para
alimentar a tripulação. Em princípio parece chato, mas, afinal, o homem te
salvou, é o mínimo que pode fazer. Só que as semanas passam e aquilo fica
cansativo. Seus dedos doem. É entendiante. E você começa a reclamar. E não é só
isso: ele deu um canto cheio de graxa para você dormir no porão da embarcação.
Cheira mal, é barulhento, tem ratos, o colchão é duro. Logo, logo você se pega
reclamando. Foi para aquilo que ele te resgatou? Para você ter de encarar toda
aquela situação deprimente? Poxa, e você estava se esforçando tanto, era-lhe tão
fiel, descascava tantas batatas por dia! Era uma injustiça! Você não merecia
passar por aquilo!
Você
começa a desconfiar que o capitão te salvou apenas para ter mão-de-obra barata.
Se junta aos tripulantes que falam mal dele. Murmura pelas costas. O acusa de
injusto, de não ter amor por você por permitir que passe por aquela situação
humilhante e dolorosa. Aquele capitão é um crápula. Chega a pensar em abandonar
o barco na primeira oportunidade que tiver. Vida desgraçada, capitão maldito!
O que
você não sabe é que o capitão tem bons informantes e sabe tudo o que você diz.
Um dia ele se aproxima de você. Cheio de amor, fala: “Eu não o destinei para a
ira, mas para receber a salvação por meio deste navio”. E então, diante
daquelas palavras, parece que tudo faz sentido. Você percebe que a pilha de
problemas – o desconforto, o trabalho, o enfado, a chateação, o sofrimento –
era algo muito pequeno perto do que o capitão fez por você. Ele não precisava,
não tinha obrigação nenhuma, mas lhe estendeu a mão e o recolheu da morte
certa. E simplesmente porque ele quis. Não porque você merecesse. Tudo o que
você estava fazendo era se debater na água. Ia afundar, era absolutamente
certo. Mas ele veio. Parou. Te resgatou. Te abrigou. Te deu alimento. Te deu um
lugar para repousar. Ali você teria aflições? Naturalmente! O navio era bem
desconfortável. Mas aquele homem te deu vida, não seria motivo suficiente para
ter bom ânimo?
Mais do
que isso: não seria motivo mais do que suficiente para… em tudo dar graças?
Deus
nos deu a salvação. É motivo suficiente para em tudo darmos graças. Para em
todos os piores momentos da vida, quando nos sentimos os mártires do universo…
agradecermos. “Obrigado, Senhor, porque estou passando pelo vale da sombra da
morte. Mas, se tu não tivesses me resgatado, eu estaria morto. Afogado em meus
pecados. Afundando rumo ao inferno”. Depois disso, tendo clareza dessa
realidade, só nos resta dizer, em meio aos piores dos piores momentos da vida:
“Deus… obrigado… obrigado… obrigado…”.
Gratidão.
Que nunca nos esqueçamos disso. Deus nos deu a vida eterna. Gratidão
é o mínimo que podemos dar em troca.
Acho que o autor não foi muito feliz na sua analogia, embora eu assine embaixo da primeira parte do primeiro parágrafo dele. E não que sejamos gratos PELA dor que estamos passando, mas por termos Ele na dor que estamos passando.
ResponderExcluirSer evangélica não significa ter essa percepção. Essa evangélica é exemplo de milhares delas que conhecem apenas a soberania da doutrina de Deus e não conhecem o Deus Soberano da doutrina que lhe foi ensinada.
Aí está todo o drama interior do 'cristão', feito igual ao outro lá que fala, fala, fala e no fim se denuncia um pobre coitado sem fé que CONFESSA preferir não arriscar e então se agarra com unhas e dentes à doutrina com a qual foi acostumado e viciado durante toda a vida, doutrina essa tendo-lhe sido repassada e sendo repassada a todos os familiares, e todos 'viveram felizes' e equivocados para sempre.
Gratidão EM TROCA? Ser grato, sim, mas refém dessa gratidão? Ter que ralar e dar um duro danado sem o menor sentido para mim apenas PORQUE fui resgatada?
É esse o preço?
E tem preço?!
Tudo bem que a vida plena, a vida em abundância que Jesus nos propõe e que já se inicia aqui na terra, não significa simplesmente uma rede, uma sombra e a água bem fresquinha. Bem como, ralar e ralar dia e noite, sem qualquer motivação interior e só em função da gratidão de quem me resgatou, é algo meio vazio e superficial, que finda por gerar em meu ser apenas sentimentos ruins mesmo, não me parecendo exatamente uma proposta de 'vida plena'.
Jesus disse 'no mundo tereis aflições'. Ele não disse 'no mundo só tereis aflições'. Eu conheço uma irmãzinha (essa já se tornou foi cínica!) que, para justificar as porradas frequentes que leva do marido, adora citar essa fala de Jesus.
Há de haver gratidão eterna? Sem dúvida! Mas também um sentido maior e que está além de uma troca de favores.
Acho assim:
Por tudo dar graças. Ponto!
O problema todo é que as pessoas religiosas APRENDERAM que 'dar graças' só está ligado a coisas boas.
Tenho um exemplo bem recente:
Dias atrás, na recepção da UTI em que minha mãe estava internada, ouvi uma pessoa (um crente confesso!) dizer ao telefone: 'pode começar a dar graças a Deus porque ela já está fora de perigo, se recuperando'.
Confesso que me controlei pra não entrar naquele diálogo.
Quer dizer que no momento do 'perigo' a gente pára tudo?! E ninguém dá graças a Deus?!
Eis aí um dos maiores equívocos dos religiosos. Porque 'dar graças a Deus' não se resume a um costume cristão de ir lá no templo, se ajoelhar e agradecer a Deus porque determinada situação aconteceu e porque 'bateu' exatamente com o que eu queria, com o que eu estava desejando.
Dar graças a Deus é reconhecer que Ele está no controle de tudo. Daí o mote: 'por TUDO dai graças'.
É ter planos, ser disciplinado nos seus intentos, no que almeja pra sim, mas ter a certeza de que será como Deus quiser. Que bom quando o sonho da gente se alinha ao sonho d'Ele, mas isso não pode nos remeter ao extremo do nosso espírito pagão de que o mérito é nosso e que Deus reconheceu nem tampouco o outro extremo igualmente pagão de que vou ter que me sacrificar e me sujeitar à 'doutrina' porque Deus me atendeu.
Isso me lembra o espírito pagão da troca que havia em Naamã quando restaurado de sua lepra( 2Reis 5)pelo profeta Eliseu, e que, mesmo reconhecendo que em toda terra não havia outro Deus (5.15) queria, insistentemente, dar um presente ao profeta que o recusou. E quantas variedades de Naamãs existem no mundo evangélico por aí...
ResponderExcluirHá uns três anos eu socorri um casal de crentes (batistas) que veio do interior pra daqui seguir pra os EUA onde o filho estava para ser operado de várias cirurgias delicadíssimas em função de grave acidente de carro que colocou sua vida em alto risco. A primeira foi de amputar a perna, antes mesmo de eles lá chegarem. E as outras cirurgias, não menos delicadas porque várias costelas estavam quebradas comprometendo (e perfurando com hemorragias) os órgãos vitais que elas protegem. E os pais, enquanto resolviam questões burocráticas de renovação de visto e tal, passando ainda aqui alguns dias, deram uma lição do que seja vida com Deus, verdadeiramente. Em nenhum momento eles se desanimaram ou deixaram de dar graças a Deus por tudo. Era impressionante ver-lhes a fé mesclada com a dor imensa de imaginar a situação de seu filho. Mais impressionante era constatar em seus espíritos a certeza de que Deus estava no controle de tudo e captar aquela estranha paz que está além de qualquer entendimento. Isso é dar graças a Deus!
O resto é vício religioso.
Oi Rê,
ResponderExcluirFoi perfeito o teu comentário. Temos que ser gratos em tudo e ponto.
Entendi a tua interpretação ao "fui resgatado e tenho que ralar", mas creio que (talvez) não tenha sido essa a intenção do autor do texto. O que entendi que ele quis mostrar é bem essa situação da maioria de "Dar graças quando tudo está bem", mas se descabelar com Deus e todo o mundo quando as coisas dão errada (exemplo dado por ele quando uma mulher evangélica xingou "a mãe" de Deus...)
Lindo o exemplo que você deu do casal com o filho em situação difícil. Só Deus para verdadeiramente dar esta paz e realmente cumprir em nós esta parte "Dar graças em tudo".
Abs!!
Então... Essa parte eu entendi rss
ResponderExcluirSó acho que ele se perdeu um pouco :)
Afffff Eu e essa minha mania terrível de destrinchar as coisas rss é assim que o povo leva pra o lado pessoal e me antipatiza.
Ah e não que por sermos amigos tenhamos que necessariamente concordar em absolutamente tudo, mas eu bem sei que vc tb não comunga dessa ideia horrível de negociar favores. Por isso tive a ousadia de replicar. Por saber que não iria gerar polêmica. ;)
Abs!!!
É eu percebi também uma certa "viajada" no final, mas mesmo assim gostei da parte do exemplo do resgate... Foi o que me tocou.
ExcluirQuanto das batatas e da eventual "escravidão" foi algo que daí eu notei a "viajada".
Mas tá valendo!
-
E sobre a idéia de negociar favores, ela não é horrível. Eu acho que é diabólica. Lembra aquela "te darei tudo isso, se prostrado me adorares".
Mas no lugar do tinhoso é o próprio "crente" dizendo pra Deus: "Pagarei o meu voto e te agradecerei SE fizerdes isto para mim".
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E pode replicar anytime. O espaço aqui é pra todos os que amam a Deus e sabem que sem Cristo não são NADA!
:-)
Rsss descascar pilhas e pilhas de batata foi o ó!
ExcluirCom esse preço aí eu também murmuraria. Pior, faria um motim he he
O cara salva mas já pensando no proveito que vai tirar disso.
Que salvador mais mala rsss
hahahaha!!
Excluirboa essa! hahah