24/01/2014

Integridade não religiosa


Desde a adolescência, organizei a vida a partir de valores da religião. Frequentei e lecionei na escola dominical. Militei em grupos jovens. Me preparei para o exercício pastoral em um seminário. Caminhei pelos bastidores do mundo religioso. Sentei na roda de alguns notórios líderes brasileiros e ianques.

Zeloso, sempre procurei cumprir com as exigências das instituições que participei. Se a igreja não permitia que mulheres cortassem o cabelo, briguei com a minha mulher. Se diziam ser pecado ir ao cinema, para evitar a aparência do mal e mesmo não concordando com a proibição, eu viajava para longe quando queria ver algum filme.

Relevei disparates. Calei diante de incoerências. Dei as costas para hipocrisia. Eu considerava a causa de Cristo importante demais. Para não escandalizar, fiz vista grossa para muita ruindade.


Abracei as instituições como divinas e acabei conivente. Não notei o caminho sinuoso do mercenário. Ingênuo sequer me dei conta dos intencionalmente cobiçosos. Justifiquei tolices. Eu acreditei na sinceridade das pessoas. Cheguei ao ponto justificar um monte de bobagem por achar que havia pureza nas intenções.

Um eureka aconteceu em minha vida. Embora sincero, eu dava volta, sem sair do lugar. Chego a um tempo de vida que algumas reivindicações da religião perdem seu apelo. Depois de inúmeras decepções, deixei de acreditar na inerente pureza religiosa. Notei que quanto mais bagunçada a interioridade (a alma), mais simétrico o exterior (a aparência). Trato a pregação da santidade absoluta como mistificação. Lembro os malabarismos que testemunhei. Quantos líderes falseavam suas inadequações, projetando em pecadilhos, monumentais desvios éticos.

Jesus não conviveu ao lado de gente certinha demais. Ao contrário, o Nazareno evitava e criticava quem pretendia cumprir todas as demandas da lei judaica. Ele chamou austeros sacerdotes de sepulcros caiados; tratou mestres como cegos guiando outros cegos. Os evangelistas do templo conseguiam convertidos, mas Jesus afirmava que eles apenas os condenavam a um inferno duplo. O filho do homem, gostava da companhia dos pecadores. Ele se sentia bem perto dos que assumiam a condição humana. Quando alistou apóstolos não se importou com suas inadequações. Pedro era tempestivo; Tomé, hesitante; João, vingativo; Filipe, lento em compreender; Judas, ladrão. Acostumado com os costumes da sinagoga e com o linguajar dos doutores da Lei, ele não buscou discípulos nesses círculos.

Jesus aceitou que uma mulher de reputação duvidosa derramasse perfume sobre sua cabeça. Elogiou a fé de um centurião romano, adorador de ídolos. ão deixou que apedrejassem uma adúltera. Mostrou-se surpreso com a determinação de uma mãe cananéia. Nos estertores da morte, prometeu o paraíso a um ladrão. Não mediu esforços ou palavras para enaltecer os diferentes.

Santidade nunca significou para ele a simples obediência de normas. Jesus não tratava um ato igual a uma intenção. Adultério não se restringe ao coito; ele questionava os valores que antecediam o sexo e que podiam ou não desembocar em traição.

O ódio residual, que dá ânsia de matar, é mais grave do que o próprio homicídio. Para Jesus, pecado e santidade participam nas dimensões mais profundas da interioridade humana. Caráter tem a ver com valores escondidos nos porões da alma. Integridade depende de como o ser se estrutura às escondidas.

Para Jesus, santidade e integridade se confundem. Aceitar-se sem panacéias e, sem eufemismo, ser inteiro, eis a receita da perfeição. Sombra, falta, inadequação, defeito, luz e bondade precisam ser encarados sem medo.

Deus não requer vidas perfeitinhas. Ele deve saber que a estrutura humana vem do pó. Deus não exige correção absoluta. Para isso, ele teria que converter mulheres e homens em anjos.

Os que vivem a varrer as faltas para debaixo dos tapetes eclesiásticos não têm parte no reino de Deus. As prostitutas, que aprenderam a lidar com suas faltas e defeitos, precedem os sacerdotes bem compostos. O samaritano, que traduziu sua humanidade em gesto de solidariedade, virou o herói da parábola. O tempestivo Pedro recebeu as chaves do Reino de Deus. A mulher, outrora possessa de sete demônios, anunciou a alvissareira notícia da ressurreição.

A lei serviu para mostrar que legalismo não desemboca em humanidade. Integridade equivale ao constante exercício de confrontar as luzes e as sombras que estruturam a alma. Me afasto do moralismo religioso para amadurecer na ética. Fujo do legalismo para recuperar os muitos anos em que corri em círculos. Repenso a espiritualidade porque desejo aprender a viver.


Soli Deo Gloria

9 comentários:

  1. Eu acredito que o processo tem que ser de dentro para fora . Agora se for ao contrário por causa da obrigatoriedade , medo , ameaças etc... gerará hipocrisia!

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  2. "Os que vivem a varrer as faltas para debaixo dos tapetes eclesiásticos não têm parte no reino de Deus. As prostitutas, que aprenderam a lidar com suas faltas e defeitos, precedem os sacerdotes bem compostos. O samaritano, que traduziu sua humanidade em gesto de solidariedade, virou o herói da parábola. O tempestivo Pedro recebeu as chaves do Reino de Deus. A mulher, outrora possessa de sete demônios, anunciou a alvissareira notícia da ressurreição."

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  3. Os que vivem a varrer as faltas para debaixo dos tapetes eclesiásticos não têm parte no reino de Deus.


    Se é que entendi esse trecho , acredito que se age assim justamente para se apresentar "um alguém que se não é" , mais que "Gostaria de ser" , gerando a hipocrisia. Essa atitude talvez seja o medo de que "se revelando" não será benquisto e não aceito pelos outros é até por Deus.Usa-se então uma falsa imagem opara agradar a tudo e a todos. Tapa-se o sol com a peneira para com seus defeitos. Se não assumirmos nossos defeitos e nos amarmos assim mesmo , não haverá cura. O que é amarmos a nós mesmos com defeitos , imperfeições ? È saber que através de nossos pecados que Deus vai se apresentar para nos curar. Afinal Ele veio para os doentes... E experimentando esse amor humanamente incompreensível em nossas vidas , seremos curados. E curados , não vamos julgar e nem condenar os outros , mas vamos conduzí-los ao Médico que curou as nossas feridas. Quem experimentar o amor de Cristo , não precisará mais fingir para agradar os outros. , e nem mendigará mais amor!Não haverá carência!

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  4. Já eu não interpreto de maneira pessoal. Pelo contexto - no qual o autor do texto se refere o tempo inteiro ao poder eclesiástico - entendi sua indignação com os que se consideram lideres nas suas denominações. Veja que o restante do parágrafo faz referencia direta a isso o tempo todo, em cada exemplo que ele cita: as prostitutas antecedendo os SACERDOTES, O samaritano que, ao contrário do levita e do SACERDOTE, foi o exemplo citado por Jesus, o temperamental e impulsivo Pedro com todos os seus vacilos, e, finalmente, a mulher adultera como sendo a primeira mulher a ter a autoridade conferida pelo próprio Cristo a sair as ruas sem nenhum impedimento, sem qualquer receio de ser barrada, discriminada, 'tirada a liberdade' rsss para anunciar Cristo ao povo nas ruas . Foi tão real e impactante aquele testemunho dela sobre a sua experiência com Cristo que 'muitos creram' em virtude do seu testemunho.

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  5. O filho do homem, gostava da companhia dos pecadores

    Exatamente... Ele veio para mudar , transformar , restaurar , até os que se diziam "certinhos" naquela época.

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    1. Ele se sentia bem perto dos que assumiam a condição humana. Quando alistou apóstolos não se importou com suas inadequações. Pedro era tempestivo; Tomé, hesitante; João, vingativo...

      Mas Ele os transformou não? Com certeza somos frágeis humanos sujeitos à erros , impulsividades , grosserias , etc... Mas , então foi em vão tudo que Paulo escreveu : procurai andar pelo Espírito amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança, humildade etc..
      Contra estas coisas não há lei. Frutos da carne são: emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias,contendas (coisas de humanos mesmo rsss...)
      Invejas, homicídios, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o reino de Deus.

      Agora , quem procura andar segundo o Espírito , deixando essas coisas "do homem" está errado? Está querendo ser certo demais?

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    2. SE estou vivendo mais pela carne , produzindo mais frutos da carne que do Espírito , eu não estou bem! BEM talvez não é isso que o texto está querendo dizer , mas foi um desabafo. ACREDITO piamente que Cristo apareceu na nossa vida para nos transformar em uma nova criatura ou seja , para andarmos segundo o Espírito e para que as obras da carne sejam amortecidas dia a dia com a sua ajuda! (não digo que não vamos errar porque ainda estamos nesse corpo de carne . Mas insistir e permanecer no erro...e ainda se gloriar : sou fraco mesmo , sou humano , etc... sei lá se está certo isso!)

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  6. Engraçado, mas é somente quando vemos textos como este que percebemos que a pessoa realmente é convertida, pois, assume seu fracasso na tentativa de acertar seguindo regras, e reconhece que tudo é muito mais simples do que religiosamente se impõe e que outrora ele mesmo aceitou. Neste exato momento fica evidente que nada somos, que por esforço e merecimento nada conquistamos, mas que pela graça de Deus, por Jesus Cristo, tudo já alcançamos.

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    1. Ou estamos COMPLETAMENTE debaixo da Graça, ou não estamos, né Mário?

      O problema é que a maioria (inclusive muitos reformados) não compreendem isto.

      Somos falidos espiritualmente. Para qualquer lugar que nos movemos nos enlameamos em nossos pecados...

      Em Jesus nossos pecados são perdoados. Somos chamados à Luz. E quanto mais a Luz brilha em nós, mais vemos nossas sujeiras humanas...

      E daí cumpre-se o que brilhantemente você definiu: "pela graça de Deus, por Jesus Cristo, tudo já alcançamos."

      Grande abraço meu irmão!

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