14/01/2014

Os anti-heróis que somos todos nós


Há alguns anos, Lance Morrow escreveu na revista “Time” que “ser famoso é, entre as ambições humanas, a mais universal. Quem, a não ser monges e freiras, se contenta com a simples atenção de Deus? Quem busca ser obscuro na vida? Em nossa sociedade, ser obscuro é ser fracassado”.

Realmente, o mundo está lotado de gente correndo pelos primeiros lugares. Já se disse que quem chega em segundo não é vice, apenas o primeiro entre os perdedores. Somos seduzidos pelas luzes e holofotes feito mariposas. O Ocidente alimenta o sonho do heroísmo; a modernidade, calcada na ideia do progresso, acena que a felicidade depende de conquista; e a espiritualidade, que se difundiu no hemisfério europeizado, sacraliza o ufanismo.


Especialistas em planejamento estratégico, gurus em autoajuda e neurolinguistas repetem a fórmula da eficiência, competência, excelência, como estradas para o sucesso. A vida se transforma em uma guerra na qual só os mais fortes sobrevivem. O esforço de ser campeão cria a necessidade de suplantar os outros. Importa conquistar o pódio dos grandes ídolos. Os menos hábeis que pelejem para não serem extintos.

Será que anônimos, gente simples, que jamais ganharão um Prêmio Nobel, merecem o desprezo que sofrem? Devem ser tratados como fracassados aqueles que nunca serão manchete de jornal? A indústria do espetáculo torna difícil acreditar que muita gente leve uma vida bonita sem as luzes da ribalta.

A cosmovisão moderna foi criticada em “Crime e Castigo”, de Dostoievsk Raskólnikov, personagem principal, classifica a humanidade em seres “ordinários” e “extraordinários”. Para justificar um assassinato, ele afirma que os “ordinários” são as pessoas que vivem uma vida despretensiosa, sem grandes desdobramentos para a macro-história. Esses podem ser sacrificados pelos “extraordinários”, que são os responsáveis pela condução da história. Impressionado por Napoleão ter derramado tanto sangue e mesmo assim ter sido perdoado pela história, Raskólnikov se comporta como uma pessoa “extraordinária” e assassina duas vidas.

O mundo, entretanto, não precisa de heróis, mas de anti-heróis. Gente que ame a discrição mais que o espalhafato, que valorize a intimidade relacional mais que a superficialidade, que veja beleza na candura mais que na sofisticação e que não fuja de sua fragilidade humana. O desabafo de Fernando Pessoa em “Poema em Linha Reta” merece ser mencionado: “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana/ Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;/ Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!/ Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam./ Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?/ Ó príncipes, meus irmãos,/ Arre, estou farto de semideuses!/ Onde é que há gente no mundo?”.

O evangelho não incentiva a busca do sucesso. Jesus, discretíssimo, jamais aceitou a lógica do triunfo. Ele exerceu o seu ministério nos confins da Galileia e não em Jerusalém; escolheu pescadores rudes como discípulos; priorizou alcançar marginalizados, pobres e esquecidos. Não cedeu ao apelo de ir para Atenas, mas foi para Jerusalém morrer. A lenta transformação do cristianismo em um sistema religioso com heróis de renome, ícones aplaudidos e mitos idealizados não tem nada a ver com o projeto inicial do carpinteiro de Nazaré.

Cristianismo não é espetáculo. Nem sequer louvor significa show. Não se pode confundir profeta com animador de auditório nem evangelista com mascate. Púlpito não pode virar palco; nem sacristia, camarim. Esperança não se vende, nem milagre deve ser trampolim para a glória.

Paulo afirma em 1 Coríntios 4 que os líderes se consideram como despenseiros dos mistérios de Deus, e dos despenseiros requer-se tão-somente que sejam fiéis. Deus não premia sucesso, e sim integridade. Mulheres e homens anônimos, que trabalharam a vida inteira em asilos, comunidades indígenas, orfanatos, favelas, centros de reabilitação de alcoólicos, não malograram; pelo contrário, estes são os que a epístola aos Hebreus descreve como aqueles dos quais “o mundo não é digno”. Eles são sal da terra e luz do mundo. Nunca a fé cristã dependeu tanto desses anônimos que seguem os passos de Jesus.

Soli Deo Gloria


4 comentários:

  1. HP,

    Acho estranho (e patético) esse lance de 'show da fé'. Ora, como assim, se show é algo que se expõe e fé é algo que se espera sem vê? rsss

    Ah esses religiosos...



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  2. Ooopsssssssssssssssssssss correção: *sem verrrrrrrrrrrrrrrrrrrr

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  3. Sister,

    Porque não glorificamos a Deus nos nossos insucessos também?

    Porque "vendemos" uma ideia que somente quando temos uma família-comercial-de-margarina é que somos abençoados por Deus?

    Poxa! Deixa a gente ser o real que somos!

    Deus faz o sol brilhar para os justos e injustos. Dizia o Mestre.
    E isso é Graça que a cuca dura não entende.

    Daí quando é confrontado, se irrita.
    E vc sabe de quem estou falando. Do Elê e da torcida do Flamengo junto. Rsrsrs

    Porque só quem compreende Jesus cai fora dessa paranóia!

    Abs sister!

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  4. HP,

    Esse cara só perde pra o tal arc afff

    He he quando eu leio as maluquices dele me vem logo a expressão arghhhhhh

    Apesar de nauseada com seus escritos, ontem à noite eu me diverti lendo as sandices dele lá no blog do Helio. Dessa vez ele se deu ao trabalho de dedicar uma longa escrita a cada um dos hereges. Tem até um conselho luxuoso pra Sônia rss A mim, ele se referiu, mas indiretamente. Pois, como ele diz, nem sabe se eu cri um dia. Ué, e quem foi que disse que ele precisa saber? É muito pretensioso, o moço. (Nem sei se é moço nem quero saber).

    Tem gente que se acha o intermediário de Deus aqui na terra e eu to achando que ele disputa essa patente com o Elê. Bom, se o critério for a estupidez versus o hilário, o Elê ganha. Mas se o requisito for um português bem colocado e uma gramática rebuscada mais os dois itens anteriores o arghhhhhh ganha disparadoooo.

    Kkkkkkkkkk vc leu que ele falou do meu vocabulário chulo (?) e da minha DICÇÃO?! Onde ele ouviu a minha voz?! Vou te contar, viu? So rindo.

    Abs.

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