Carrego uma sucessão de “cs” e com eles, uma miríade de
preconceitos: cearense, canhoto, corinthiano e careca. A ordem dos “cs”
obedece uma importante cronologia. Na infância, notei que outros canhotos
iguais a mim também eram tratados como portadores de deficiência. Depois,
anos mais tarde, me mudei para São Paulo e descobri que muitos sulistas têm
reservas contra nordestino. Mesmo em tom de brincadeira, ouvi expressões baixas
para descrevê-los. Baiano é preguiçoso. Paraíbano é burro. Nem
preciso falar dos corinthianos: gambá, maloqueiro, bandido. A inferência
não repousa na provocação entre os torcedores, mas na necessidade de tornar o
pobre malcheiroso ou igualar o maloqueiro a bandido. Por último, crescentemente
careca, amargo comentários jocosos – e bobos – sobre calvos.
Desde cedo, ouvi pessoas da família dizerem que eu era menino desastrado.
Coincidentemente, além desinistro, não tinha boa coordenação
motora. Para piorar, sem relação alguma com o fato de ter que escrever com a
mão torta, nunca alcancei excelência escolar. Minhas notas escolares
sempre foram medianas. Jamais ganhei um campeonato de matemática. Nenhum
professor tratou minha redação como modelo. Entrei para a universidade pública
em penúltimo lugar. Não recordo quase nada do que me ensinaram de estatística,
macro-economia ou direito.
Nas relações sociais, nem que tente, consigo ser a alegria da festa.
Prefiro ambientes intimistas. Não sei dançar. Canto pior que as gralhas.
Sou introvertido em pequenos grupos.
Tenho raríssimos prodígios para relatar como líder de uma comunidade
evangélica. As igrejas que pastoreei são frequentadas por pessoas comuns
que lutam, diariamente, contra as circunstâncias cruéis do Brasil da periferia.
Vivemos apertados. Nunca sobra dinheiro na tesouraria. Preparo sermões na base
do suor, estudo e, vez por outra, lágrimas. Não tenho boa memória,
por isso estudo feito um condenado.
Não pretendo polemizar com os inteligentíssimos mestres da teologia
fundamentalista. Eles me dariam um banho de lógica. Nem entendo porque
faço inimigos. (Não anseio começar um novo movimento ou escola de pensamento).
Só escrevo e tensiono as ideias por não quer me acomodar às limitações que
trago desde o berço. Se acabei antipatizado por gente que não conheço, foi
sem intenção.
Há poucos dias conversei com um jovem também cearense. Sua história me
comoveu. Ele também tinha uma lista, sem os “cs“, mas bem mais sofrida
que a minha: Ricardo, você não imagina a carga de preconceito que
rapazes iguais a mim sofrem: nordestino, negro, pobre e homossexual, morando na
periferia de São Paulo. Depois que ouvi a história do meu conterrâneo,
desejei sair da posição de conselheiro e ser, simplesmente, seu amigo.
Imaginei o Everest de problemas que ele enfrentava, bem mais altos e
íngremes que os meus. Passei a dividir com ele um pedaço da minha história.
Enquanto repartíamos nossas inquietações, sonhamos com um mundo em que ninguém
seria discriminado devido a gênero, cor da pele, status social ou orientação
sexual. (Lembrei da criança que foi espancada até a morte pelo pai por
ter trejeitos femininos). Quem sabe, jogamos algumas
sementes no chão árido em que pisamos juntos – e esperemos que elas se tornem
árvores frondosas, onde a próxima geração buscará sombra. Ali em meu escritório,
sem estardalhaço, sem messianismo e sem oportunismo, éramos irmãos. Nossas
dores nos uniam e a esperança nos fazia irmãos.
Soli Deo
Gloria
Muito triste!!!!
ResponderExcluirPois é.
ResponderExcluirMuito triste, mas é a mais pura verdade.
Somos TODOS uns boçais, não se engane, minha amiga: eu, você, cada um dos que se chamam 'cristãos', em algum momento discriminou alguém pela aparência, pelo sotaque, pela cabeça 'chata'. Ora, como se no leste europeu não tivesse um monte de cabeça chata da gema rss
Eu mesma, que sou nordestina, morei um período curto em Fortaleza, e me peguei algumas vezes rindo do sotaque e do tipo físico do cearense. Sim, pois vocês aí do sul e sudeste podem até não perceber a clara diferença que há em tudo. Que vai desde simples sotaque e modo de vestir-se a culinária, estilo de vida, etc. O cearense é herdeiro de mascates, o pernambucano, de usineiros. Só que isso tudo tem uma miscigenação que não dá pra dissociar não apenas o nordestino, mas o brasileiro, de modo geral. Esse lance de raça pura é muito diabólica, a História tá aí pra contar.
Eu mesma tenho sangue cearense, herdado do meu avô materno (mesclado de sangue indígena e negro) e sangue maranhense, do meu avô paterno, que por sua vez era filho de portuqueses.
Enfim, repito: somos uns boçais...
Sem exceção.
A parte boa é que, diante de Deus, somos todos iguais.
Não há quem escape de depreciar o outro aqui e ali. Só me lembro de uma vez o pastor falando de um 'mal feito' de uma guria, claro que ele não citou nomes, só usou o exemplo, e era algo tipo tragicômico e eu ri. Então ele olhou pra mim e falou sem rodeios: não ria, não, porque vc também faz igualzinho, é só ter oportunidade.
E eu, continuava rindo e, balançando a cabeça disse: 'é verdade...'
Mas é bom quando reconhecemos né?
ExcluirPior são as "famílias-comercial-de-margarina" por aí...
rsrsrsrs
Ah, HP, esse tipo de família é raro e nele não há mácula.
ExcluirTá com invejinha branca, tá? Confessa, vai! He he he
Lembre-se sempre: apenas nessas famílias as pessoas se formam e enriquecem. e ninguém se desentende, casais não se separam, meninos não se vestem de meninas, não se drogam, não fazem sexo antes do casamento, líderes não fofocam nem falam asneiras em nome de Deus.
É caso raríssimo de clã escolhido que só se via nos tempos judaizantes dos hipócritas fariseus. Mas isso, sim, é que é benção dos céus!
¬¬ <--cenho franzido
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ResponderExcluirÉ Regina , temos que aprender muito com Jesus Cristo , que deixou bem claro quando esteve aqui na Terra:que somos todos iguais.Inclusive na minha opinião , todo o tipo de mal que está acontecendo na Terra ,é decorrência de uma coisa : falta de AMOR!!!
ResponderExcluirRegina:Fico meditando nos caminhos que Deus traça na vida de cada um , e em cada feito Seu em nossas vidas , aprendemos a conhecer a sua Vontade , e um "pouquinho" do Seu poder , amor , misericórdia, enfim a Sua pureza e Beleza infinita! Seus pensamentos não são iguais aos nossos!
ExcluirCerto na parte da manhã, enquanto executava meus serviços caseiros, vinha meditando, "conversando" com Deus sobre o amor. Pensava: "Creio que o verdadeiro amor cristão, Senhor, não faz acepção de pessoas, ou seja; vou amar mais este ou aquele porque são da minha igreja, ou da minha família ou por que são da mesma comunidade que a minha. O amor tem que se estender para todos, independente de religião, crenças, escolhas, etc... Todos nós somos iguais. Fomos todos criados por Ti. Não devemos julgar e nem condenar ninguém em nossos corações..." E assim vinha nessa linha de pensamentos durante o dia. Não comentei nada com ninguém a respeito disso, e nem com o meu espôso.
Quando foi no dia seguinte de manhã, lá pelas 8:30 hrs, meu espôso levantou-se primeiro, e eu continuei deitada, mas acordada. Nisso, ele voltou para o quarto e um tanto emocionado sussurrou ao meu ouvido, num tom baixo:
- Esta madrugada eu SONHEI com Jesus Cristo!
Respondi-lhe:
- Com Jesus Cristo?
Ele respondeu-me:
- Sim, com Ele mesmo!
Então ele me contou o SONHO que tocou profundamente no meu intimo e me fez calar por alguns instantes:
- SONHEI que estava orando à Deus, Lhe expondo as minhas dificuldades e suplicando a Sua ajuda. No final da oração, fiz um convite ao Senhor Jesus se Ele podia fazer morada aqui em casa conosco. Terminei a minha oração, e poucos minutos depois o telefone tocou. Fui atender. Do outro lado, uma voz mansa, serena, cheia de amor, respondeu: "Paulo (fictício), é Jesus Cristo" Eu quase sem palavras, disse: "Jesus Cristo? Ès Tu mesmo?" Ele respondeu: "Sim, sou Eu mesmo!" E continuou a conversar: "Estou muito contente com vocês aí na Terra. Você, sua espôsa e seus filhos têm procurado amar as pessoas por igual, não fazendo acepção por causa de clero, crenças, cor, raças, defeitos, erros, etc... É com esse tipo de amor que Eu quero que vós ameis uns aos outros." E afirmou: "O amor é tudo! O amor é a cousa mais importante! O amor é a única arma capaz de vencer todo o mal! Continuem assim." Então, encerrou: "Você Me convidou para ir morar com vocês, mas Eu não vou aceitar o convite, porque Eu já estou morando com vocês. Estarei convosco todos os dias da vossa vida. Eu vos amo!"
Meu esposo se despediu Dele com forte emoção em seu coração.
E aqui estou encerrando este relato com o meu coração fervendo e tentando seguir essa mensagem de Cristo: "Amem-se uns aos outros, sem acepção de pessoas"
CORRIGINDO : Certo na parte da manhã leia-se "certo dia na parte da manhã"
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