O sol pinicava o cocuruto da minha cabeça
despenada de cabelos. A brisa soprava de leste a oeste. O corpo sentia os
efeitos de duas noites mal dormidas. A alma se angustiava com a morte sofrida
da Guió, minha querida sogra. Acrescento os detalhes para que eles
componham o cenário de meu quase assassinato.
Não passava das oito horas da manhã. Eu
estava em pé na calçada dos fundos do hospital Gênesis, em Fortaleza. Um
pouco à frente, o carro da funerária. Aguardava minha mulher, a Geruza. Ela
cumpria uma dificílima tarefa: aprovar o trabalho dos que preparavam o corpo da
mãe.
De repente, ouvi uma voz mansa, quase
sussurrando ao meu lado. Suspeitei alguém me pedindo informação. Por um triz
imaginei ser um mendigo. Ao levantar os olhos, me assustei. Um revólver preto
balançava, perigosamente, na direção da minha barriga.
Sem anunciar assalto, o ladrão ordenou: telefone celular e
carteira. Ele estava bem nervoso. Notei a mão tremendo. Devagar alcancei o
bolso traseiro da calça. Puxei o que ele pedia. Fixei o olhar na arma. Ela
estava engatilhada. Atentei no tambor. Havia munição. As cápsulas douradas
contrastavam com o pretume do 38.
O ladrão terminou de arrancar carteira,
celular e relógio. Ainda bem agitado, ele voltou a arma na direção do meu
sobrinho Fabrício. Ele também entregou celular, carteira e relógio.
Logo que o assaltante deu as costas, minha
cabeça parecia um formigueiro. Meus pensamentos fervilhavam desordenadamente.
Pela segunda vez alguém me fazia refém na mira de uma arma. Quando o homem
saiu, medo se misturou com raiva.
Eu sabia que bastava um susto com um puxão
de dedo e eu teria morrido. A cena passou por mim ao longo do dia: se alguém
tivesse gritado, se a carteira enganchasse no bolso, se um cachorro latisse no
jardim ao lado eu partiria desta vida.
O ladrão era um rapaz pobre, mal vestido e
franzino. Sem a arma em punho seria mais um cidadão despretensioso. Sou mais
alto e bem mais forte do que ele. Eu seria capaz de dar-lhe uma sova. Depois de
tudo, notei como é difícil lidar com as falsas onipotências. Diante de uma
arma, minha capacidade de intimidação ou de convencimento foi nula. Biotipo,
preparo físico, anos de estudo não valeram nada. Eu não passava de mais uma
vítima indefesa no caos da segurança pública.
Vi também o tamanho do meu preconceito. Foi
difícil admitir que um jovem favelado, esquálido e mal letrado tivesse o poder
de vida e de morte sobre mim.
Terminado o assalto, veio a raiva que
escondo dentro de mim por tanta injustiça e tanta desordem. Meu desejo de
vingança transcendia a invasão. Senti uma ânsia generalizada de matar. Se
possuísse uma arma, atiraria no ladrão pelas costas. Caso
conseguisse manipular os anjos, ordenaria que caísse fogo do céu
sobre o bandido. Desejei que o rapaz fosse atropelado na próxima esquina.
Fantasiei que na hora dele vender o celular o receptor o executaria.
Hoje dou graças a Deus por nunca ter
possuído qualquer arma. Em nenhum momento tive compaixão de sua alma.
Sequer tentei imaginar a cruel realidade social que o condenou. Não parei para
pensar na estrutura familiar ou na sua saúde mental. Qual escola ele
frequentou? Quem se importou com sua tragédia?
Ficar na mira de uma arma por poucos
minutos bastou para perceber que convivem dentro do meu peito, medo e
onipotência, ódio e covardia, fraqueza e tempestividade. Descobri uma verdade:
ódio não resolverá o complicado e difícil quadro da insegurança brasileira.
Matar bandido não me teria trazido paz, e fazer justiça com as minhas próprias
mãos me transformaria em bandido.
Não quero passar por outra- até porque, meu
organismo não suporta tanta adrenalina. Mas, as lições que aprendi me fizeram
acreditar ainda mais na não-violência.
Soli Deo Gloria
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Vamos zelar por um bom ambiente de diálogo. O intuito do blog é compartilhar textos e vídeos que nos leve a reflexão, união e aproximação com Cristo.
Discordou de mim? Tua opinião é bem-vinda, mas seja educado. Somos todos aprendizes nesta vida, e ainda mais aprendizes de Cristo, a Palavra de Deus feito carne, que é fonte inesgotável de Vida e Verdade, o Único Caminho nosso à Deus!
Obrigado.