Por: Thomas Schirrmacher
Proposição: Paulo, ao
advertir contra o legalismo, não combate o guardar os mandamentos de Deus em
fé, mas sim o considerá-los equivocadamente como um caminho para salvação,
forçando os crentes gentios a guardar a lei cerimonial, ou tentar guardar a Lei
independentemente de Cristo.
“Legalismo” está se
tornando rapidamente um slogan usado para reprovar alguém que apela à Lei
Bíblica. O termo é bíblico? A Escritura expressa tal crítica? Visto que a
palavra em si – isto é, uma palavra grega ou hebraica correspondente – não
ocorre na Bíblia, aqueles que usam-na como um termo de reprovação deveriam
definir sua substância bíblica.
Embora preferisse
eliminar completamente a expressão do nosso vocabulário, eu poderia concordar
em limitá-la ao significado dado pelos Pais da Igreja: “o esforço para alcançar
a justificação pelas obras da lei”. Isso, no entanto, não é o que normalmente
se quer dizer, nem é adequado.
Gordon H. Clark assume
que “Legalismo” na história da igreja sempre significou a expectação de que o
homem poderia ganhar a salvação guardando a Lei. [1] O oposto seria a
justificação pela fé, que leva à correta obediência da Lei. Clark continua:
No presente século, a expressão “legalismo”
tomou um novo significado. A ética situacional despreza regras e regulamentos.
Qualquer pessoa que obedeça conscientemente às leis de Deus é chamada de
legalista. Por essa razão, Joseph Fletcher aprova a quebra de qualquer um dos
Dez Mandamentos, e dessa forma transfere o significado negativo do “Legalismo”
para o ética histórica do Protestantismo. [1]
É triste que isso não
seja verdade apenas sobre a ética situacional, mas também dos fundamentalistas
que creem que a Lei foi abolida e que então declaram qualquer sistema ético
construído sobre a Lei como sendo legalista. Contudo, o legalismo não pode ser
substituído pela ilegalidade. Greg L. Bahnsen escreve:
A resposta ao legalismo não é a crença
fácil, o evangelismo sem a necessidade de arrependimento, a busca de uma
segunda bênção mística do Espírito, ou uma vida cristã destituída de instrução
e orientação corretas. O legalismo deve ser combatido com um entendimento
bíblico da verdadeira ‘vida no Espírito’. Em tal viver, o Espírito de Deus é o
autor gracioso da nova vida, que nos convence do nosso pecado e da miséria
contra a lei violada de Deus, que nos une a Cristo na salvação para que
possamos participar de Sua vida santa, que nos capacita a entender a orientação
dada pela palavra de Deus, e que nos faz crescer pela graça de Deus,
tornando-nos pessoas que obedecem aos mandamentos de Deus. [2]
O Novo Testamento
descreve cinco maneiras de usar incorretamente a Lei:
1. Guardando a Lei para ser
justificado e salvo. (Veja Rm 3.21-4:25, Ef 2.9-10)
2. Impondo a lei cerimonial
sobre os outros. (Gl 4.9-11, Cl 2.16-17, o Livro de Hebreus)
3. Adicionando regras e
tradições humanas à Lei divina. (Mc 7.1-15, Mt 15.1-9)
4. Esquecendo-se de coisas
essenciais em favor de questões menores. (Mt 23.23)
5. Estando preocupado
somente com a obediência externa à Lei de Deus.(Mc 7.18-23, Mt 15.15-20, Mt
23.27-28)
O Novo Testamento não
condena o seguinte:
1. Assumir que a lei moral
de Deus é incomparavelmente boa, justa santa e espiritual. (Rm 7.12,
14, 1Tm 1.8. Compare Salmos 19, 8-12 e Salmos 119)
2. Desejar guardar os
mandamentos morais de Deus num espírito de filiação (não de escravidão) e no
poder do Espírito Santo. (Rm 8.2-4, 3.31)
3. Admoestar os outros sobre
a base da Lei divina, quando isso é feito com a atitude correta. (Ef
6.1-4)
4. Apelando à Lei moral de
Deus. (Tiago 2.6-12, Rm 13.8-10)
5. Exercendo disciplina
eclesiástica. (Gl 5.18-23; 1Tm 1.5-11)
Alfred de Quervain
escreve de maneira similar:
Tem sido dito que restringir nossas ações à
Escritura cria legalismo, que o homem está livre do legalismo somente quando
ele mesmo mesmo determina a lei. Na verdade, aquele que em seu orgulho usa a
Lei de acordo com sua própria opinião, age legalisticamente. Esse é o caso,
quer ele pretenda guardar a letra da lei ou abandonar a lei escrita e inventar
a sua própria lei. [3]
A Escritura nunca é
legalista. Ninguém que deriva os seus valores da Palavra de Deus pode ser
considerado legalista. Emil Brunner expressou isso bem, sem, contudo, aplicar o
princípio em seu próprio sistema ético. [4]
Assim como a Escritura sem o Espírito é
Ortodoxia, o Espírito sem a Escritura é falso Antinomianismo e fanatismo.[5]
O legalismo nunca deveria
ser usado como slogan contra aqueles que se referem aos mandamentos de Deus,
mas deve ser definido de acordo com a Bíblia e então rejeitado com base nela.
Se alguém interpretar legalismo como significando o mau uso da Lei, então tal
pessoa deve esclarecer a partir da Escritura o que o mau uso implica e como a
Lei deve ser corretamente usada. A lista mencionada acima fornece cinco formas
de legalismo e cinco usos apropriados da Lei. [6]
Neste contexto, Eduard
Böhl, o professor vienense de Dogmática, enfatiza a importância de Lei de Deus
para os cristãos, pois somente a Lei de Deus dá uma orientação para identificar
leis e tradições falsas:
Não podemos banir a Lei do relacionamento
que existe em Cristo entre Deus e o crente: não podemos buscar novos
regulamentos para a nossas ações ou, de fato, elevar o nosso capricho próprio
ao status de lei. Não fomos redimidos para viver de acordo com regras éticas
particulares ou doutrinas de perfeição, mas para cumprir a Lei de Deus(1Co
7.19, Gl 5.6, Rom. 8:4, 13:10). A Escritura ensina claramente que o crente
deve ser mantido nos caminhos da santificação pelo Espírito Santo, mas Ele usa
a Palavra de Deus, particularmente os Dez Mandamentos como a norma e o governo
das nossas vidas. [7]
Böhl também critica o
Pietismo por sua tendência a formular novas leis piedosas no lugar da lei
bíblica que ele rejeita:
O Pietismo foi apanhado neste temor, quando
fez da justificação o requerimento para a santificação; a santificação parecia
portanto ser uma continuação da justificação, que deveria ser provada na
santificação. Essa atestação da fé pelas boas obras levou a um conjunto de expressões
e características da fé da pessoa bem diferente daquele conjunto da lei divina.
A genuinidade da justificação era testada por outro patrão que não a Lei de
Deus. O homem criou um tipo de nova lex (nova lei), uma para o crente
verdadeiro. [8]
[1] Gordon H. Clark, “Legalism”, Baker’s
Dictionary of Christian Ethics. ed. Carl F. Henry (Grand Rapids, Mich.:
Baker Book House,1973) p. 385; reimpresso em Gordon H. Clark, Essays on
Ethics and Politics(Jefferson, MD: Trinity Foundation, 1992) p. 150.
[2] Ibid.
[3] Greg L. Bahnsen, By This Standard:
The Authority of God’s Law Today (Tyler, Tex.: ICE, 1985) pp. 67-68.
[4] Alfred de
Quervain, Die Heiligung, Ethik, Part 1 (Zollikon: Evangelischer
Verlag, 1946) p. 259.
[4] Schirrmacher, Ethik,
Vol. 1, pp. 297-304 sobre Brunner (pp. 292-306); Thomas Schirrmacher, Das
Mißverständinis des Emil Brunner: Emil Brunner’s Bibliologie als Ursache für
das Scheitern seiner Ekklesiologie, Theologische Untersuchungen zu
Weltmission und Gemeindebau, ed. Hans-Georg Wünch und Thomas Schirrmacher
(Lörrach, ermany: Arbeitsgemeinschaft für Weltmission und Gemeindebau, 1982);
Thomas Schirrmacher, “Das Mißverständnis der Kirche und das Mißverständnis des
Emil Brunner”,Bibel und Gemeinde 89 (1989), pp. 279-311.
[5] Emil Brunner, Das
Gebot und die Ordnungen (Zürich: Zwingli Verlag, 1939) p. 79.
[6] Veja também Robertson
McQuillkin, An Introduction to Biblical Ethics (Wheaton, Ill.:
Tyndale House Publ., 1989); David Chilton, Productive Christiians in an
Age of Guilt – Manipulators, op. cit., pp. 22-25, lista quatro formas de
legalismo; 1. Justificação pelas obras;
2. Tornar a lei cerimonial obrigatória; 3. Tornar leis humanas obrigatórias; 4.
A confusão de pecado com crimes processados pelo Estado.
[7] Eduard Böhl, Dogmatik:
Darstellung der christlichen Glaubenslehre auf reformiert – kirchlicher
Grundlage (Amsterdam: Scheffer, 1887), p. 515.
[8] Ibid., note 1, p. 515
Fonte: Galatians between Legalism and Antinomianism, p.
65-69.
Tradução: Felipe Sabino de
Araújo Neto – janeiro/2012
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