Eu já me
preparava para sair do gabinete pastoral e ir para casa quando Murilo[1]
chegou. Ele era um jovem de uns 26 anos que
vivia pelos fóruns de discussão da vida (na web), debatendo teologia reformada.
Segundo o que me informou, ele havia ouvido falar que eu era um pastor de linha
reformada e, como estava desanimado com a comunidade que frequentava, resolveu
ir conversar comigo.
Teologia na cabeça
Após
tentar me impressionar com todo o seu conhecimento teológico, ele perguntou se
haveria problema em me fazer algumas perguntas. Após eu dizer que não havia
problema algum, ele passou então a avaliar a minha teologia (parecia até exame
de presbitério).
Depois
de algum tempo, parece que ele ficou satisfeito com minhas respostas e aí
passou para uma segunda fase. Agora ele pediu para ver minha biblioteca. Mais
uma vez disse que ficasse à vontade.
Ele
se levantou e começou a “averiguação”. Quando via um livro de algum autor
brasileiro fazia questão de comentar: “Esse cara é muito bom!” Como tive o
privilégio de estudar em uma excelente instituição, que contava com alguns
desses autores no seu corpo docente, eu respondia: “Foi meu professor no
seminário.”
Depois
disso, aquele jovem, que parecia ainda mais precavido que os bereanos (pois
estes analisavam o que ouviam pelo crivo das Escrituras (At 17.11), e ele já
estava analisando o que possivelmente iria ouvir para ver se valeria a pena) e
que, em princípio, se mostrava alguém que manejava bem a palavra da verdade
(2Tm 2.15), afirmou: “Pastor, eu vou frequentar sua congregação.” Finalmente eu
estava “aprovado”.
Teologia sem prática
Depois
de ouvir o Murilo por bastante tempo, responder às suas perguntas, ser avaliado
e ouvir a notícia de que ele iria frequentar a congregação, falei a ele que
agora eu é que gostaria de fazer algumas perguntas. Ele assentiu ao pedido.
Passei
então a questioná-lo sobre a razão de gostar tanto da teologia reformada.
Perguntei se era simplesmente por causa da sua beleza, lógica, por causa das
discussões acadêmicas, etc., ou se era porque ele entendia ser ela uma
interpretação fiel das Escrituras e, sendo assim, algo que o faria conhecer
mais intimamente a Deus enquanto, pelo Espírito do Senhor, o habilitava a se
afastar cada vez mais do pecado. Afirmei ainda que, se a segunda opção fosse a
razão de amar a teologia reformada, ele seria muito bem-vindo à congregação.
Alguns
instantes de silêncio.
Depois
disso, Murilo confessou que gostava muito das discussões teológicas, mas que
estava preso ao pecado da pornografia. Nesse momento, passei então a
aconselhá-lo.
Teologia na prática
Comecei
a falar ao Murilo sobre a gravidade do pecado e da ofensa àquele que deu sua
vida no Calvário a fim de vivermos em novidade de vida. Ele respondia que era
muito difícil se livrar da pornografia.
Mesmo
sabendo que tratar o comportamento em si não resolveria nada enquanto ele não
chegasse à raiz do problema[2], instruí-o então a “cortar o fio da internet”,
pois era onde ele mais via pornografia. Meu objetivo era demonstrar a teologia
na prática para alguém que só a tinha no campo das ideias.
A
resposta não poderia ser outra. Murilo afirmou que necessitava da internet para
ver e-mails do trabalho e que não podia ficar sem acesso, então, pedi que ele
mudasse o computador do seu quarto para a sala de casa e que todas as vezes que
fosse acessar a rede pedisse que sua mãe se assentasse a seu lado.
Dito
isso, perguntei-lhe: “Você teria coragem de acessar pornografia com sua mãe ao
lado?” De olhos arregalados Murilo respondeu rapidamente: “Tá doido, pastor!?”
Cheguei então ao ponto que eu queria demonstrar a ele.
Aquele
jovem, que conhecia muito bem a sua mãe, sabia que ela não aceitaria um
comportamento como aquele e, por temê-la, se absteria de ver algo que ele havia
afirmado ser muito difícil ficar sem.
Porém,
mesmo sabendo o que a teologia diz sobre Deus, seu caráter e sua Santidade, na
prática ele demonstrava que não cria, de fato, em tudo aquilo. Ele não conhecia
ao Senhor da mesma maneira que conhecia a sua mãe, ainda que tivesse muitas
informações a respeito dele.
Eu
me propus a continuar conversando com ele e tentar ajudá-lo em sua luta contra
o pecado, por meio do estudo das Escrituras, mas nunca mais o vi. Por fim ele
se mostrou mais parecido com aqueles falsos mestres mencionados na carta de
Paulo a Tito que “no tocante a Deus, professam conhecê-lo; entretanto, o negam
por suas obras” (Tt 1.16).
Para
alguém que ama o pecado, o conhecimento teológico só servirá para trazer maior
condenação. Jesus, em uma parábola, afirmou: “Aquele servo, porém, que conheceu
a vontade do seu senhor e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade, será
punido com muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade do seu senhor
e fez coisas dignas de reprovação levará poucos açoites. Mas àquele a quem
muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito
mais lhe pedirão” (Lc 12.47-48).
O
conhecimento das Escrituras é uma grande bênção que o Senhor nos concede, mas
que deve vir acompanhado de uma vida prática a fim de que o homem seja
bem-aventurado, ao invés de enganar a si mesmo (Tg 1.22-25).
Que
o Senhor nos conceda a bênção de ser como Esdras, que dispôs o coração não só
para buscar a Lei do Senhor, mas também para cumpri-la e ensinar seus estatutos
e juízos (Ed 7.10).
_____________________
[1]
Murilo é um nome fictício, para preservar a identidade da pessoa a quem se
refere o caso.
[2]
Postagens sobre esse assunto: “Mudança de comportamento: e a Bíblia com isso?”
e “Quem manipula quem? O problema da abordagem comportamental”
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