Um fragmento de um antigo
papiro escrito no antigo idioma copta, e até agora desconhecido, contém frases
que sugerem que Jesus tenha sido casado, numa descoberta que deve alimentar o
acalorado debate sobre esse tema no mundo cristão.
A existência do fragmento
do século 4o, não muito maior do que um cartão de visitas, foi revelada na
terça-feira numa conferência proferida em Roma por Karen King, professora da
Escola de Divindade de Harvard, de Cambridge (Massachusetts).
Nesse pedaço, leem-se as
palavras: “Jesus disse a eles: minha esposa…”.
E lá vamos nós de novo: a
“conspiração esposa de Jesus”! Enfim, queremos ajudá-lo a responder tais
questionamentos e acusações, então traduzimos um texto de Michael J.
Kruger, professor de Novo Testamento no Seminário Teológico Reformado em
Charlotte, Carolina do Norte.
Extra: Jesus e os Evangelhos Canônicos
A
Verdade Bem Menos Sensacionalista sobre a ‘Esposa’ de Jesus – Michael J. Kruger
Desde a descoberta dos
“Evangelhos Gnósticos” em Nag Hammadi em 1945, estudiosos e o público em geral
parece ter inesgotáveis versões alternativas da vida de Jesus. O Evangelho
de Tomé, o Evangelho de Pedro, o Evangelho de Maria,
e mais recentemente, o Evangelho de Judas, levantaram questões
provocativas sobre o Cristianismo. Histórias de Jesus foram intencionalmente
omitidas do Novo Testamento? Estas versões alternativas do Cristianismo foram
reprimidas (ou oprimidas)? E os evangélicos canônicos realmente nos dão uma
descrição fiel de Jesus?
Justamente quando a poeira
baixou depois da descoberta do Evangelho de Judas, uma nova
descoberta agora reabriu todas estas questões. Durante meu intervalo de almoço
ontem (ironicamente justo antes de eu começar minhas palestras sobre os
evangelhos apócrifos), eu recebi a notícia de um novo manuscrito que retrata Jesus
como tendo uma esposa. Isso é notável, pois — apesar das afirmações do O
Código Da Vinci — nós não possuímos nenhum texto dentro de todo o
Cristianismo que diga explicitamente que Jesus era casado.
Este novo manuscrito —
apropriadamente intitulado de o Evangelho da Esposa de Jesus —
é um fragmento de um códice do quarto século em copta (Sahídico) que em um
lugar se lê: “Jesus lhes disse: ‘Minha esposa… ela será apta de ser minha
discípula’”. O fragmento é bem pequeno (4 x 8 cm), com escrita desbotada no
verso. O texto principal está escrito em uma caligrafia limitada e
semialfabetizada. Mais notavelmente, Karen King da Universidade de Harvard
sugeriu que ainda que o manuscrito seja do quarto século, a composição original
deve ser datada para a metade do segundo século.
Então, o que devemos fazer
com esta nova descoberta? Eis aqui diversas considerações.
Autenticidade
A falsificação não é
incomum no mercado de antiguidades. Eu não sou um especialista em paleografia
copta (minha área são os manuscritos gregos), mas me preocupa a aparição
inicial do manuscrito. Em particular, a natureza desleixada da caligrafia do
escriba, e as pinceladas largas e indiferenciadas da pena pareceram
problemáticas. Além disso, a cor da tinta parece incorreta — é muito escura,
quase como se tivesse sido pintada. Tintas antigas tendem a ser mais de cores
mais claras, apesar de haver exceções. Este cenário é exacerbado pela
ambiguidade sobre o local de sua descoberta e a identidade de seu proprietário
anônimo.
Contudo, de acordo com o artigo* disponível de Karen King,
este manuscrito foi examinado por Roger Bagnall e AnnMarie Luijendijk, dois
estudiosos respeitáveis, e ambos o consideraram autêntico e atribuíram o
estranho estilo à pena grossa do escriba. Outras indicações de autenticidade
são o uso da nomina sacra (abreviações de certas palavras) e a
tinta desbotada no verso da página (algo que teria necessitado de tempo
considerável). Mas meu amigo e estudioso copta, Christian Askeland*, é cético quanto à sua
autenticidade devido a, entre outras coisas, a estranha formação de algumas de
suas letras (em especial o épsilon) e as omissões no texto copta. Outros
estudiosos também expressaram ceticismo* sobre o fragmento.
Neste ponto, não há maneira
de saber se ele é genuíno ou uma falsificação. Não podemos ter certeza até que
mais estudiosos tenham uma oportunidade de examiná-lo.
Composição
Assumindo por um momento
que o manuscrito seja genuíno, ainda restam questões sobre sua composição.
Primeiramente, com que tipo documento estamos lidando aqui? À primeira vista, o
documento parece ser escrito como um texto similar a um evangelho que contem
histórias e ditos de Jesus. De fato, Jesus parece estar fazendo o que ele
frequentemente faz em outros textos dos evangelhos: ele está tendo uma conversa
com seus discípulos. Alguns estudiosos sugeriram que este fragmento pode ser um
texto mágico como um amuleto, particularmente devido a seu pequeno tamanho.
Contudo, amuletos normalmente não continham escritos no verso da página. Se o
escrito no verso deste fragmento for continuação da frente (o que é
desconhecido até agora) então ele pode simplesmente ser um códice miniatura.
Códices miniaturas eram populares no Cristianismo primitivo e frequentemente
continham textos apócrifos. Para mais sobre este assunto, veja meu artigo aqui*.
Outra questão diz respeito
à data da história que este fragmento contém. Quando esta história foi
composta? King argumenta que ela foi composta em meados do segundo século
baseada largamente em nas amplas similaridades com o Evangelho de Tomé e
o Evangelho de Filipe, ambos cujos existiram durante este intervalo
de tempo. Esta é certamente uma possibilidade, especialmente visto que
conhecemos diversos outros evangelhos apócrifos que foram compostos no segundo
século (por exemplo, Evangelho de Pedro, P. Egerton 2, P.Oxy. 840).
Contudo, este argumento não requer uma data no segundo século.
Esta história pode ter sido escrita no terceiro século e pode ter simplesmente
esboçada sobre escritos como o Evangelho de Tomé e o Evangelho
de Filipe.
O mais importante, não há
nada que indicaria que a composição deste evangelho deva ser datada do primeiro
século. Ele foi produzido muito depois do tempo dos apóstolos, juntamente com
outros evangelhos apócrifos conhecidos.
Valor
Histórico
A questão chave é se este
registro do evangelho em particular pode nos dizer qualquer coisa sobre como
Jesus de fato era. Este texto prova que Jesus tinha uma esposa? Este evangelho
fornece informação histórica confiável? Não e não. Não há razão para pensar que
este evangelho guarde tradição autêntica sobre Jesus. Ele é uma produção
tardia, não baseada no depoimento de testemunhas, e igualmente se esboça sobre
outros trabalhos apócrifos como Tomé e Filipe.
Além disso — e isto é
fundamental — nós não temos uma única fonte histórica em todo o Cristianismo
primitivo que sugira que Jesus fosse casado. Nenhuma. Não há nada sobre Jesus
ser casado nos evangelhos canônicos, nos evangelhos apócrifos, nos pais da
igreja, ou em qualquer outro lugar. Mesmo se este novo evangelho declare que
Jesus fora casado, isto está em desacordo com todas as outras evidências
históricas verossímeis que temos sobre sua vida. Como a própria King observou:
“Este é o único texto antigo remanescente que explicitamente retrata Jesus
referindo-se a uma esposa. Contudo, ele não fornece evidência
de que o Jesus histórico tenha sido casado” (p. 1 aqui*).
Conspirações
e os Evangelhos Canônicos
Todo mundo adora uma boa
teoria da conspiração. Certamente seria muito mais divertido para nossa cultura
se alguém pudesse mostrar que os livros apócrifos fossem de fato a Escritura da
igreja primitiva e que eles foram reprimidos pelas maquinações políticas da
igreja posterior (por exemplo, Constantino). Mas a verdade é muito menos
sensacionalista. Enquanto aos livros apócrifos tenha sido concedido algum
status escritural de tempos em tempos, a esmagadora maioria dos cristãos
primitivos preferiam os livros que agora estão em nosso cânon do Novo
Testamento. Desta forma, somos lembrados novamente de que o cânon não foi
arbitrariamente “criado” pela igreja no quarto ou quinto século. As afirmações
da igreja posterior simplesmente refletiu o que já era o caso por muitos,
muitos anos.
Quando se trata desse tipo
de questão eu gosto de lembrar meus alunos de um simples — mas frequentemente
negligenciado — fato: de todos os evangelhos no Cristianismo primitivo,
apenas Mateus, Marcos, Lucas e João são datados do primeiro século. Claro,
há pequenas tentativas de colocar livros como o Evangelho de Tomé no
primeiro século — mas tais tentativas não foram bem recebidas pelos estudiosos
bíblicos. Assim, se realmente queremos saber como Jesus era, nossa melhor
aposta é confiar nos livros que foram ao menos escritos durante o período de
tempo quando as testemunhas ainda estavam vivas. E apenas quatro evangelhos satisfazem este padrão.
Michael J. Kruger é professor de Novo Testamento no
Seminário Teológico Reformado em Charlotte, Carolina do Norte, e o autor de Canon Revisited: Establishing the Origins and Authority of
the New Testament Books* (O Cânon Revisto: Estabelecendo as Origens
e a Autoridade dos Livros do Novo Testamento) (Crossway, 2012). Ele
bloga regularmente no Canon Fodder*.
* N.
do T.: em inglês
"Quando estudamos um texto em copta, estamos discutindo a literatura cristã do final do século 3. Entre o advento de Jesus, que teria acontecido no ano 30, e a redação desse texto nós temos cerca de 350 anos. Como essa citação não está presente em nenhum texto anterior, e nem no Evangelho de João em grego, que deve ter servido de base para o copta, a única conclusão possível é que a comunidade que escreveu o texto acreditava em um Jesus casado.
ResponderExcluirNão existe um único cristianismo, mas vários. As experiências religiosas cristãs são muito diversas. O fato de um texto dizer que Jesus foi casado não pode ser encarado como uma revelação teológica, e nem como uma representação de como pensavam todos os cristãos da época. O fragmento diz mais sobre a comunidade que o produziu do que sobre o verdadeiro Jesus histórico. Como acontece com todos os evangelhos, aliás. Eles dizem mais sobre as primeiras experiências cristãs do que sobre o Jesus que existiu.
A professora Karen King é uma cientista da religião, muito respeitada na área. Mas ela é uma pesquisadora do tempo presente, cujas interpretações também falam do nosso tempo. Suas pesquisas destacam a presença e importância das mulheres no início do cristianismo, gozando de primazias no interior das igrejas antigas. Essas reivindicações antigas são transplantadas para os dias de hoje, quando as mulheres são excluídas da igreja. São as feministas que retomam essa experiência antiga, para usá-las em apoio às suas posições.
Usar esse fragmento para dizer que Jesus era casado é sensacionalismo. Seria fazer algo parecido com o que Dan Brown fez emO Código Da Vinci, onde usou trechos do Evangelho de Felipe em copta para dizer que Jesus beijou Maria Madalena. De novo, esse evangelho diz mais sobre as vivências dessa comunidade do que sobre o Jesus real.
O relato mais antigo a colocar as mulheres na centralidade do apostolado é o Evangelho de João em grego, mais antigo que o copta, e base do usado até hoje pelos católicos. Nele, Maria Madalena é colocada em pé de igualdade com os apóstolos. Ela é única pessoa a ver Jesus ressuscitado, que a incumbe de anunciar sua ressurreição. Esse evangelho abre brechas para discutir questões de gênero dentro do cristianismo. Ele foi escrito pela comunidade joanina, situada provavelmente no mediterrâneo oriental. E mostra que, dentro dessa comunidade, as mulheres poderiam gozar de primazia.
As religiões baseiam suas práticas pensando em que modelos Jesus deixou para seus sucessores. Sugerir que essa figura central era casada poderia mudar todo o modelo de vida dos religiosos. Obviamente, passaríamos a ter sacerdotes casados. Com a ideia de um núcleo familiar cercando Jesus, o modelo do padre ermitão estaria implodida. Isso também traria mais poder para as mulheres dentro da comunidade cristã. Elas poderiam ser apóstolas, e ministrar cultos.
Com o encontro das diferentes culturas cristãs, elas foram se unificando. Por fim, o encontro do cristianismo ortodoxo com o império romano fez com que os homens se tornassem o centro da religião e essa visão se tornasse dominante."
André Chevitarese
Professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e autor do livro Judaísmo, Cristianismo, Helenismo. Ensaio sobre Interações Culturais no Mediterrâneo Antigo.
http://www.noticiascristas.com/2012/09/papiro-do-seculo-4-faz-referencia.html
Oi Regina,
ResponderExcluirVocê lembra que uns anos atrás descobriram uma caixa mortuária com os dizeres “Tiago, irmão de Jesus”?
Agora temos esse pedacinho de papiro aonde “Jesus diz: A minha esposa”.
Para mim nada vem abalar minha fé em Jesus e espero que Ele faça que nunca eu me abale na fé Nele. Mas achei legal as técnicas usadas para verificar a autenticidade, como “pinceladas largas”, “cor incorreta”, “formato da letra”.
Sobre o “modelo de vida dos religiosos”, bem, na minha opinião a igreja católica fez uma bela salada a respeito. Hoje ela “dança miúdo” para se ver livre de acusações de pedofilia, mas você acha que no passado, da Idade Média até no começo deste século nunca houve pedofilia entre os sacerdotes católicos? É “praga” do final do século XX apenas? Para mim sempre houve casos no passado e só atualmente começaram a ser expostos para a sociedade em geral.
Agora, quanto ao valor histórico desta relíquia encontrada, para mim é nulo, pela simples razão de 1000 textos de Jesus o tratar como “nunca casado” e 1 tratar como casado.
Espiritualmente creio que somos a noiva de Cristo, sua Igreja, aguardando ansiosos pelo dia que tudo terminará e viveremos com Cristo eternamente.
Abraços e bom final de semana.
Em Cristo,
Henrique